A Igreja Ortodoxa Russa apresentou diretamente ao Vaticano a situação da Igreja Ortodoxa Ucraniana e o que classifica como sua «perseguição» por parte das autoridades de Kiev. O assunto foi abordado na tarde de terça-feira em Moscou, durante o encontro entre o metropolita Antônio de Volokolamsk, responsável pelas relações exteriores do Patriarcado de Moscou, e monsenhor Paul Richard Gallagher, secretário para as Relações com os Estados e as Organizações Internacionais da Santa Sé.
O comunicado oficial do Departamento de Relações Eclesiásticas Exteriores do Patriarcado de Moscou precisa que «o alto representante do Vaticano recebeu informações sobre a perseguição da Igreja Ortodoxa Ucraniana por parte das autoridades estatais ucranianas». A Secretaria de Estado vaticana confirmou o encontro, embora se tenha limitado a indicar que ambas as delegações aprofundaram «temas de interesse comum», sem mencionar expressamente essa questão.
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O Patriarcado leva ao Vaticano o conflito religioso ucraniano
Antônio recebeu Gallagher em nome do patriarca Kirill de Moscou e de toda a Rússia. Por parte vaticana, participou também o núncio apostólico na Federação Russa, monsenhor Giovanni d’Aniello.
A delegação ortodoxa esteve integrada ainda pelo arcipreste Nikolai Balashov, assessor do patriarca Kirill, e pelo arcipreste Igor Vyzhanov, vice-presidente do Departamento de Relações Eclesiásticas Exteriores.
Segundo as informações do Patriarcado de Moscou, os participantes examinaram «uma série de questões urgentes relativas à situação atual no mundo». Entre elas, a parte russa destaca especificamente a situação da Igreja Ortodoxa Ucraniana.
A escolha do assunto ocorre em um momento especialmente delicado para essa comunidade. As autoridades ucranianas consideram que ela mantém vínculos canônicos e organizativos com a Igreja Ortodoxa Russa, enquanto a Igreja Ortodoxa Ucraniana sustenta que adotou medidas para se tornar independente de Moscou após a invasão russa de 2022.
O encontro concluiu com uma troca de presentes entre as delegações.

Ucrânia continua aplicando a lei sobre os vínculos com Moscou
A denúncia apresentada a Gallagher coincide com novas ações das autoridades ucranianas sobre diferentes estruturas da Igreja Ortodoxa Ucraniana.
A Ucrânia aprovou em 2024 a lei «Sobre a proteção da ordem constitucional no âmbito das atividades das organizações religiosas». A norma proíbe a atividade da Igreja Ortodoxa Russa em território ucraniano e estabelece procedimentos para determinar se organizações religiosas estabelecidas na Ucrânia estão afiliadas a ela.
Em agosto de 2025, o Serviço Estatal da Ucrânia para a Política Étnica e a Liberdade de Consciência (DESS) declarou que a Metrópole de Kiev da Igreja Ortodoxa Ucraniana estava afiliada à Igreja Ortodoxa Russa. A decisão veio depois de o órgão ter exigido a eliminação dos vínculos que havia identificado e o metropolita Onufriy ter rejeitado as exigências formuladas pelas autoridades.
A disputa continuou durante 2026. Em maio, o órgão estatal ucraniano voltou a confirmar as conclusões de seu exame sobre a existência de um vínculo eclesiástico-canônico entre a Igreja Ortodoxa Ucraniana e o Patriarcado de Moscou.
Em julho, as autoridades determinaram também que a Laura da Dormição de Pochaiv, um dos principais mosteiros ortodoxos do país, apresenta indícios de filiação à Igreja Ortodoxa Russa.
Novas ações nesta mesma semana
As medidas continuam enquanto Gallagher se encontra em Moscou.
Na segunda-feira, 24 de agosto, apenas um dia antes de seu encontro com Antônio, o órgão estatal ucraniano anunciou que havia encontrado três indícios de filiação entre a administração da diocese de Zaporíjia da Igreja Ortodoxa Ucraniana e a Igreja Ortodoxa Russa.
Entre os argumentos utilizados está o fato de a diocese fazer parte da Igreja Ortodoxa Ucraniana e estar integrada na Metrópole de Kiev, declarada pelas autoridades ucranianas como afiliada a uma organização religiosa estrangeira cuja atividade está proibida no país.
Também nesta semana começou um procedimento semelhante em relação à diocese de Boryspil, pertencente à mesma Igreja. O DESS anunciou que o exame começou em 24 de agosto e tem como objetivo determinar se existem indícios de filiação a uma organização religiosa estrangeira proibida.
Essas ações fazem parte da aplicação progressiva da legislação aprovada por Kiev e permitem situar em seu contexto imediato a questão apresentada pelo Patriarcado de Moscou ao representante da Santa Sé.
A disputa sobre a independência em relação a Moscou
A relação entre a Igreja Ortodoxa Ucraniana e o Patriarcado de Moscou constitui um dos pontos centrais da controvérsia.
Em maio de 2022, poucos meses após o início da invasão em grande escala, a Igreja Ortodoxa Ucraniana modificou seus estatutos e declarou sua «plena autonomia e independência». Também manifestou publicamente seu desacordo com a posição do patriarca Kirill em relação à guerra.
As autoridades ucranianas sustentam, no entanto, que essas mudanças não romperam completamente os vínculos canônicos com a Igreja Ortodoxa Russa.
O Serviço Estatal para a Política Étnica e a Liberdade de Consciência mantém que suas investigações constataram a existência dessa relação. Em maio deste ano, voltou a confirmar sua conclusão sobre o vínculo eclesiástico-canônico, após uma disputa judicial sobre o procedimento seguido no exame dos estatutos.
A Igreja Ortodoxa Ucraniana rejeita essa interpretação e sustenta que funciona independentemente de Moscou.
Onufriy perdeu a cidadania ucraniana
A tensão atingiu diretamente o primaz desta Igreja, o metropolita Onufriy (Orest Berezovsky).
Em julho de 2025, o presidente Volodímir Zelenski lhe retirou a cidadania ucraniana depois de o Serviço de Segurança da Ucrânia afirmar que ele havia obtido voluntariamente a cidadania russa em 2002 sem comunicá-lo às autoridades do país.
O serviço de segurança sustentou ainda que Onufriy mantinha vínculos com o Patriarcado de Moscou. O metropolita havia afirmado anteriormente que possuía um passaporte russo, mas que não se considerava cidadão da Rússia.
A posição do Patriarcado de Moscou é substancialmente diferente da mantida por Kiev: considera as ações das autoridades ucranianas contra a Igreja Ortodoxa Ucraniana uma perseguição religiosa e apresentou precisamente nesses termos o assunto a Gallagher.
Gallagher, entre o Patriarcado e o Governo russo
O encontro com Antônio ocorreu após a reunião de mais de uma hora que Gallagher manteve nesta terça-feira com o ministro russo das Relações Exteriores, Serguei Lavrov.
Durante essa conversa, o representante vaticano pediu o fim da guerra. «Para ser claro: esta guerra deve terminar», declarou posteriormente, ao mesmo tempo em que sustentou que «o conflito não pode ser resolvido por meios militares» e pediu a criação de condições para um processo político e diplomático.
Gallagher pediu também respeito ao direito internacional e humanitário e defendeu avanços em questões como os prisioneiros de guerra, os civis, os menores e a reunificação familiar.
A visita continua nesta quarta-feira com a reunião prevista entre Gallagher e Yuri Ushakov, assessor de Vladimir Putin para política exterior. Na quinta-feira, o representante da Santa Sé dedicará o dia à comunidade católica na Rússia, com encontros com sacerdotes, religiosos e bispos e uma Missa na Catedral da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem Maria de Moscou.