A tolice na sede da sabedoria

A tolice na sede da sabedoria
Venerable Servant of God Mother Mary Alphonsa (Rose Hawthorne Lathrop) by Antonella Cappuccio. [OSV News photo/courtesy Hawthorne Dominicans]

Por Anthony Esolen

Os relatórios que chegam de Nova Iorque indicam que o Departamento de Saúde do estado emitiu advertências às Irmãs Dominicanas de Hawthorne, cuja ordem, durante mais de um século, dirigiu um hospício para pacientes terminais de câncer incurável. De fato, a povoação onde se encontra o hospício foi rebatizada como Hawthorne em sua honra. O estado, contudo, sem refletir muito, aprovou uma lei que exige que todos os lares de idosos acolham mulheres que insistem em ser homens, homens que insistem em ser mulheres e outras permutações da expressão sexual que essa fábrica de ilusões, a fantasia humana, possa inventar.

Assim, evidentemente, não é como eles o apresentam. É como o apresentaria uma pessoa sensata. Do mesmo modo, uma pessoa sensata afirmaria outros fatos biológicos evidentes para qualquer um que tenha olhos ou uma mente clara, como que os cães só podem ser machos ou fêmeas, independentemente de terem sido castrados, ou que a criança que se desenvolve no ventre materno é humana, individual, viva, um organismo completo, e encontra-se exatamente onde é natural que esteja.

As irmãs não receberam queixas de suas residentes, pelo que as advertências do estado parecem motivadas por uma inimizade puramente gratuita. Porque as irmãs são católicas. Elas responderam como fez Pedro nos Atos dos Apóstolos: «É preciso obedecer a Deus antes que aos homens».

As ironias abundam. Seu hospício está localizado numa povoação chamada Hawthorne, rebatizada em honra à sua ordem nos dias em que os nova-iorquinos lhes estavam gratos por empreenderem um trabalho, sem custo algum para o estado, que ninguém mais estava ansioso por fazer. Sua fundadora, a irmã Alphonsa Mary, não era outra senão Rose Lathrop Hawthorne, filha daquele titã da literatura norte-americana, Nathaniel Hawthorne, que certamente não era católico, embora não nutrisse a animosidade puritana contra a Igreja.

Tampouco Rose, uma convertida, desonrou a memória de sua mãe e de seu pai. Longe disso. Os estudiosos da literatura lhe devem uma grande dívida de gratidão por conservar, editar e publicar sua correspondência. Li algumas das cartas que escreveram quando viveram alguns anos na Itália e se tornaram amigos próximos de Robert e Elizabeth Browning.

Rose assinalou que todos os grandes escritores e artistas ingleses e norte-americanos da época, independentemente de sua fé, viajavam à Itália para beber nas fontes da cultura católica.

O próprio Hawthorne, de sensibilidade meio puritana, era sumamente consciente de sua ascendência, inclusive envergonhava-se dela, pois era tataraneto de John Hathorne, o mais agressivo dos juízes nos julgamentos por feitiçaria de Salem. Esses julgamentos reuniram o pior de ambos os sexos.

Em homens como Cotton Mather, que morreu ainda acreditando que havia feitiçaria em Salem, o assunto se inflamou pela ferocidade da guerra intelectual; ele lutava contra um materialismo recrudescente. Se os demônios são reais, o materialismo é falso.

As vítimas de Salem foram trituradas nos engrenagens de sua mente aguda e implacável. Espero que Deus o tenha perdoado antes de morrer, mas se não, um Dante de nossos dias poderia encontrar a maneira de colocá-lo ao lado de Lenin, dois assassinos por abstração.

Às moças não vai melhor. De fato, resulta impossível imaginar um grupo de rapazes juntando-se para desmaiar, balbuciar, gritar, contorcer-se e pôr toda uma colônia de cabeça com visões do oculto, contagiando-se o hábito por imitação social, e acreditando nisso eles mesmos mais da metade.

«Entusiasmo» é como o chamou o astuto Ronald Knox, e sua história está repleta de devotas femininas:

Desde o movimento montanista em diante, a história do entusiasmo é em grande medida uma história de emancipação feminina, e não é uma história tranquilizadora. Martha Simmonds escoltando Nayler em Bristol com gritos de Hosana, Madame Guyon adestrando seu diretor no caminho por onde devia ir, as sacerdotisas convulsionárias fazendo os movimentos de dizer a Missa em Saint-Médard; o defensor mais obstinado dos direitos da mulher dificilmente negará que o exercício sem travas do ministério profético por parte do sexo mais devoto pode ameaçar o decoro ordinário da ordem eclesiástica.

Ao que as feministas de nosso tempo responderiam, sem dúvida, que esse decoro ordinário é precisamente o que pretendem alterar, se não destruir por completo.

O mentiroso descarado e lúcido costuma ser varão; sua mentira é estratégica e fria. A crente que se deixa levar pela mentira costuma ser mulher; sua mentira é obra da vaidade, ou de uma piedade mal dirigida, e é cálida, muitas vezes com uma devoção sincera.

São Paulo deve ter-se deparado com isso. Bem pode ser por isso que não permite que as mulheres ensinem nas celebrações da Eucaristia, porque «a mulher foi enganada, mas o homem não foi enganado». A palavra que utiliza sugere engano, artimanha. Não é o mesmo que uma mera declaração contrária à realidade, como quando alguém testemunha que viu John roubar a loja, quando não viu nada, ou quando viu Joe fazendo-o em seu lugar. Implica credulidade ou a vontade de ser enganado.

Por isso digo que não há possibilidade, nenhuma, de que o que ocorre às Irmãs em Hawthorne pudesse ter acontecido há trinta anos, e não apenas porque, naquela época, se tivesses dito que havia mais de dois sexos, todo mundo teria sabido que não estavas são.

A tolice instalou-se na sede da sabedoria, e podemos esperar, sob diversas formas, que o que aconteceu em Salem ocorra entre nós e com toda a força vertiginosa dos meios de comunicação de massa —o mecanismo de transmissão do contágio social—, permitindo que aumente e se multiplique. Tudo isso acontecerá enquanto os mentirosos frios, os que odeiam a humanidade, continuarem com seu projeto de suplantar a alma humana com os algoritmos dos computadores, acumulando um poder até agora inimaginável, que, em comparação, faz Stalin parecer um simples valentão de pátio de escola.

Enquanto isso, as boas Irmãs dedicam-se a atos de caridade diária, doce, humana e santa, atos que não são apreciados nem pelos tecnocratas nem pelos leitores do horóscopo do governo estadual.

Nathaniel Hawthorne, devias estar vivendo nesta época.

Sobre o autor

Anthony Esolen é professor, tradutor e escritor. Entre seus livros encontram-se Out of the Ashes: Rebuilding American Culture, Nostalgia: Going Home in a Homeless World e, mais recentemente, The Hundredfold: Songs for the Lord. É professor distinto no Thales College. Não deixe de visitar seu novo site, Word and Song.

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