Pelo P. Paul D. Scalia
Hoje é comumente conhecido como o Domingo do Bom Pastor. Coloca diante de nós uma das descrições mais familiares e belas de Deus. As orações da Missa falam Dele como o pastor «valente» e «bondoso». Por esta razão, hoje é também o Dia Mundial de Oração pelas Vocações. Ao ouvir sobre o único Bom Pastor, deveríamos nos sentir movidos a pedir por mais pastores segundo o seu próprio Coração.
O problema é que o Bom Pastor não aparece na Missa de hoje. No Evangelho (João 10, 1-10), Jesus não diz «Eu sou o Bom Pastor», mas «Eu sou a porta das ovelhas». O que não é uma imagem tão calorosa e convidativa. A arte cristã tem muitas representações do Bom Pastor, mas há alguma da Porta? E o «Domingo da Porta» não soa igual ao «Domingo do Bom Pastor». Ainda assim, esta imagem (e mais que isso) da porta captura não apenas o que Cristo é para nós, mas também o que deve ser pedido, inculcado e exigido aos pastores da Igreja.
«Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas». Este versículo é uma das grandes afirmações «Eu sou» de Cristo no Evangelho de João. Jesus faz a primeira enquanto caminha sobre as águas: «Não tenhais medo. Eu sou» (Jo 6, 20). Depois vem toda uma série: Eu sou… o pão da vida… a luz do mundo… o bom pastor… o caminho, a verdade e a vida… a videira verdadeira. Com cada afirmação, Jesus revela mais plenamente o que se proclamou primeiro a Moisés no monte Sinai: «Dirás aos filhos de Israel: «EU SOY me enviou a vós»» (Êxodo 3, 14). Ele revela mais do que o Senhor é para o seu povo.
«Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas». Temos que entender bem a analogia porque, assim como as outras, esta não é apenas uma imagem. Jesus não é como o pão; o pão é como Ele. Ele não é como a luz; a luz é como Ele. Assim também, Ele não é como uma porta; uma porta é como Ele —e aponta para a realidade do que Ele é para nós—.
Um detalhe evocador do pastoreio nos tempos de nosso Senhor é que o pastor reunia o seu rebanho no aprisco e depois se deitava atravessado na abertura, tornando-se assim, em um sentido real, a porta das ovelhas. Jesus não é apenas uma porta; Ele é a Porta à qual apontavam todos aqueles outros pastores.
Uma porta protege. Um pastor podia deitar-se com o seu corpo contra parte do muro ou da cerca para deixar fora o que não pertence ou não é para o rebanho. Como a porta, Jesus é o guardião e a garantia dos bons pastores. Ele mantém fora os «ladrões e salteadores». Isso nos lembra a realidade de que, ao longo da história da Igreja, sempre houve supostos pastores que não querem que o rebanho «tenha vida e a tenha em abundância», mas que vieram apenas «para roubar, matar e destruir». Em cada época e era da Igreja, houve lobos com pele de pastor.
Mas uma porta também se abre e, portanto, dá acesso ao rebanho dentro do aprisco. Assim é como entram os verdadeiros pastores: «Aquele que entra pela porta é o pastor das ovelhas». A porta está aberta, mas como uma espécie de caminho que só podem transitar aqueles que pastoreiam retamente o rebanho. Um pastor autêntico e com autoridade é aquele que passa pela porta, aquele que se aproxima do rebanho —não sob seus próprios termos ou sua própria sabedoria ou para sua própria glória— mas através de Cristo mesmo. Um verdadeiro pastor se ajusta à medida da porta.
De fato, todo este trecho está dirigido mais àqueles que pretendem ser pastores do que às ovelhas. João anota: «Jesus lhes propôs esta parábola, mas eles não entenderam o que lhes queria dizer». Ou seja, Jesus não fala tanto às multidões —ao rebanho— mas àqueles que pretendem pastorear o rebanho.
Obviamente, isso também constitui um exame de consciência para nós os sacerdotes (ou talvez eu esteja sendo demasiado sensível). A tentação de usar o rebanho para o próprio benefício egoísta —para ganho material, consolo emocional ou aplauso— pode se infiltrar lenta e imperceptivelmente no coração de um sacerdote. A pergunta purificadora para um sacerdote é se estou entrando no aprisco sob meus próprios termos e para meu próprio benefício… ou através de Cristo, a Porta.
Pastorear o rebanho de Cristo significa entrar no aprisco através Dele; ou seja, conhecê-Lo, ser um com Ele, assumir a sua semelhança. Aqueles que passam pela porta estão dispostos a conhecer, abraçar e imitar a humildade de Cristo. O verdadeiro pastor é aquele «que entra por Cristo, que imita o sofrimento de Cristo, que conhece a humildade de Cristo» (Santo Agostinho).
«Em verdade, em verdade vos digo: eu sou a porta das ovelhas». Nosso Senhor pronuncia estas palavras no Templo de Jerusalém. Curiosamente, uma das entradas principais ao Templo se chamava a Porta das Ovelhas. Era por esta porta que se introduziam as ovelhas no Templo para o sacrifício e o culto. Cristo é a verdadeira Porta das Ovelhas. Ele é Aquele por quem passamos para oferecer nossos sacrifícios ao Pai.
Sobre o autor
O P. Paul Scalia é sacerdote da Diocese de Arlington, Virgínia, onde serve como Vigário Episcopal para o Clero e Pároco de Saint James em Falls Church. É autor de «That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion» e editor de «Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul«.