Por Stephen P. White
Em junho de 1577, um inglês chamado Cuthbert Mayne foi preso pelo High Sheriff de Cornualha e encarcerado no castelo de Launceston, à espera de ser julgado por alta traição. Mayne havia nascido em Devon, no sudoeste da Inglaterra, e quando jovem foi clérigo protestante. Mas durante seus estudos posteriores em Oxford, converteu-se ao catolicismo.
Mayne já havia escapado por pouco de uma prisão, e em 1573 fugiu da Inglaterra para o norte da França. Lá se juntou ao novo Colegio Inglés de Douai, onde receberia a ordenção sacerdotal e completaria seus estudos.
O Colegio Inglés de Douai (ou Douay, como aparece na tradução bíblica que o próprio colégio produziu) foi fundado em 1568 por William Allen. Inicialmente, estava destinado a ser um centro de estudos para exilados católicos das escolas inglesas, mas logo se tornou em um seminário para formar sacerdotes que —segundo Allen— liderariam a reconversão da Inglaterra e Gales. Do ponto de vista da Coroa, no entanto, o colégio era um centro de treinamento para traidores e agentes estrangeiros, dispostos a derrubar a rainha Isabel por mandato do Papa.
Basta dizer que os sacerdotes formados em Douai não esperavam uma calorosa recepção ao retornar às suas terras natais. O tratamento dado a Cuthbert Mayne o demonstrou claramente. Foi considerado culpado e condenado a ser enforcado, eviscerado e esquartejado. Ao ouvir sua sentença, respondeu simplesmente: Deo gratias. Mayne foi o primeiro dos graduados de Douai executado por traição, mas não seria o último.
Entre novembro de 1577, quando Mayne foi martirizado, e outubro de 1680, com a execução de Thomas Thwing, 158 homens formados em Douai foram executados pelas autoridades inglesas. A maioria foi beatificada, e vinte canonizados (junto a outros mártires da Inglaterra e Gales) em 1970 por Paulo VI.
Entre os canonizados de Douai, o mais célebre foi sem dúvida Edmund Campion, martirizado em Tyburn junto a seu companheiro jesuíta Alexander Briant e Ralph Sherwin. Tanto Briant quanto Sherwin foram canonizados por Paulo VI, assim como Cuthbert Mayne.
São Cuthbert Mayne foi executado em Launceston, em Cornualha. A maioria dos demais mártires de Douai encontrou seu terrível destino em Tyburn, como se conhecia o patíbulo de Londres, situado no canto nordeste do atual Hyde Park. No século XVI, Hyde Park era reserva de caça real, e os condenados eram levados lá em procissão desde as prisões de Newgate ou a Torre de Londres.
Por sua vez, William Allen, que mais tarde seria criado cardeal por Sisto V, fundou um Colegio Inglés em Roma, modelado segundo o de Douai. Muitos dos mártires de Douai —entre eles Campion e Sherwin— também estudaram no atual Venerável Colegio Inglés de Roma.
O colégio de Douai sobreviveu até 1793, quando, como tantos outros centros católicos, foi vítima da Revolução Francesa. Sua propriedade foi confiscada e seus estudantes encarcerados por vários meses antes de serem libertados e retornarem à Inglaterra. Para então, por sorte, as restrições contra os católicos haviam diminuído, e o seminário de Douai se mudou para o recém-fundado Colegio de São Edmundo, em Hertfordshire. O colégio havia voltado para casa, e os sacerdotes ingleses voltavam a se formar em solo inglês.
Os cinquenta anos seguintes viram a aprovação dos Catholic Relief Acts e a restauração da hierarquia inglesa por Pio IX. Em 1869, o cardeal Manning estabeleceu um novo seminário separado de São Edmundo. Seu sucessor o moveu novamente, e o seguinte o devolveu a São Edmundo em 1904.
Quase ao mesmo tempo, no início do século XX, uma jovem comunidade de monjas dedicadas à adoração eucarística perpétua foi expulsa da França. Cruzaram o Canal da Mancha e se estabeleceram perto de Tyburn, onde ainda permanecem. Além da adoração perpétua, custodiam um santuário dos mártires de Tyburn, com numerosas relíquias. Um lugar de morte e tortura —durante séculos— se transformou em um lugar de devoção e adoração perpétua do Senhor.
Anos após a chegada das irmãs a Tyburn, um jovem sacerdote e erudito norte-americano, Fulton J. Sheen, chegou à Inglaterra e ensinou por um tempo em São Edmundo.
Na década de 1970, pouco após a canonização de tantos mártires de Douai, o seminário se mudou para sua atual sede em Chelsea, ocupando um convento construído sobre o terreno da grande casa de São Tomás Moro. O seminário, chamado Allen Hall em homenagem ao fundador do Colegio de Douai, serve hoje à Arquidiocese de Westminster.
Passaram-se mais de vinte anos desde a última vez que pus os pés em Allen Hall. Mas ainda me lembro da lista de nomes gravados no alto do refeitório, olhando para as mesas onde os seminaristas comem e recebem seus convidados. Eram os nomes dos mártires de Douai. Uma lista sóbria e estimulante, um poderoso —embora nada sutil— lembrete para os seminaristas atuais do valor e da devoção dos homens que os precederam.
O sonho do cardeal Allen —que os homens de seu Colegio de Douai retornassem à Inglaterra e a devolvessem à fé católica— não se cumpriu… ou ainda não se cumpriu. A Igreja pensa em séculos, e Deus em tempos ainda mais longos. Enquanto isso, o rei Carlos esteve na semana passada no Vaticano para encontrar-se e rezar especialmente com o Papa Leão. Como reza o lema do seminário Allen Hall: vivamus in spe (“Vivamos na esperança”).
Inglaterra e Gales celebram a festa dos Mártires de Douai no 29 de outubro. Orate pro nobis.
Sobre o autor
Stephen P. White é diretor executivo de The Catholic Project na Universidade Católica da América e membro do Ethics and Public Policy Center, especializado em estudos católicos.