É impossível continuar sustentando, diante das dúvidas que persistem e se acumulam, que a eventual designação de um próximo reitor na Basílica de Guadalupe, sucessor do cônego Efraín Hernández, possa ser tratada como mais um assunto de trâmite eclesiástico. Quem quer que seja, constitui um motivo ineludível para realizar uma análise profunda da situação que atravessa o principal santuário mariano do México e da América. As circunstâncias que cercam o recinto exigem olhar além dos nomes e examinar as estruturas, as responsabilidades e as contas pendentes que têm erodido sua credibilidade diante dos fiéis e da opinião pública.
Ao contrário do que poderia ter ocorrido com uma designação unilateral por parte do arcebispo do México, o processo parece orientar-se para a proposta de um cônego do próprio cabido guadalupano. Essa circunstância tem um peso específico: o corpo colegial estaria impondo seu critério sobre eventuais decisões externas, reafirmando assim seu papel no santuário. Não se trata de um detalhe menor em um momento em que a confiança nas instituições eclesiais atravessa momentos delicados.
O cabido guadalupano, corpo colegial composto por treze sacerdotes, tem a responsabilidade principal, de acordo com o estabelecido pelo breve apostólico Praestatem Pietatem de são João Paulo II, de manter o ministério cultual, litúrgico e sacramental do santuário. Além disso, sob a coordenação de um reitor, os cônegos exercem de forma colegiada o ministério sacerdotal.
As linhas de sua organização o colocam diretamente sob a tutela do arcebispo do México. Dos catorze membros efetivos, sete foram designados pelo atual arcebispo e, segundo suas disposições, permanecerão no cargo por um período determinado, habitualmente de seis anos. Os outros foram nomeados pelo arcebispo predecessor e conservam seu exercício até a idade de aposentadoria estabelecida pelo direito canônico ou alguns anos mais. Essa composição gera um cenário em que a continuidade e a renovação coexistem, mas também podem gerar tensões que o novo reitor deverá gerir.
O perfil que se requer para o cargo transcende a capacidade de gestão administrativa. É importante destacar que ninguém o fiscaliza, salvo seu superior imediato. O novo reitor precisa de uma personalidade que consiga amalgamar os esforços de todos os colaboradores da Basílica, desde os cônegos até o pessoal leigo e os grupos de serviço. Ao mesmo tempo, deverá enfrentar sem evasivas a crise que já se encontra no olho público.
Sua designação não representa um borrão e conta nova. Tampouco pode servir como cortina de fumaça para afirmar que as coisas estão bem, que tudo foi reparado e que não existem dívidas nem perguntas pendentes. A realidade é mais complexa e exige reconhecer que persistem problemas estruturais que não se resolvem com uma simples mudança de nome no organograma.
O fundamental será verificar se o designado demonstra uma autosuficiência real, isto é, que não está disposto a refugiar-se no gatopardismo que, mudando as formas, mantém o fundo para agradar ao arcebispo do México e beneficiar a si mesmo do cofre aberto. Sua liderança não deve orientar-se a encabeçar vendetas ou revanches que dividiriam ainda mais o já fracturado ambiente interno. Pelo contrário, atuando sempre em chave de colegialidade autêntica, o novo reitor tem a oportunidade —e obrigação— de impulsionar uma reforma profunda do santuário, similar em profundidade à que se produziu quando finalizou a era dos abades mitrados. Essa reforma histórica demonstrou que é possível transformar estruturas anquilosadas quando existe clareza de visão e determinação.
No entanto, para além das boas aspirações e dos desejos sinceros de que esta nomeação marque um ponto de inflexão, é necessário afirmar com rigor que ainda há muito a responder. Não, a crise não está resolvida. Não se pode ver apenas a marionete quando não se dirige o olhar para cima, para quem ou para quem move os fios. Esses atores ainda têm muito a dizer e a esclarecer. Porque o problema não se circunscreve a uma nomeação isolada. Trata-se da corrosão progressiva que configurou uma estrutura institucional da qual poucos se beneficiaram, não no âmbito espiritual nem no serviço generoso aos peregrinos, mas nas coisas deste mundo. Enquanto essa dimensão não for abordada com transparência e prestação de contas, qualquer mudança na reitoria continuará sendo insuficiente para recuperar a confiança que a Igreja do México espera e merece na “Casita” de Nossa Senhora de Guadalupe.