O camarim da Virgem de Guadalupe não é um simples recinto. É a abóbada mais sagrada e protegida do México, um espaço de segurança onde se custodia, há mais de cinquenta anos, a tilma original de Juan Diego, a peça de ayate de quase quinhentos anos que traz a imagem milagrosa. Milhões de fiéis peregrinam todos os anos até a Basílica, mas apenas um punhado pôde estar a escassos centímetros da Mãe de Deus. Esse privilégio, durante décadas, esteve sujeito a normas estritas de reverência e conservação. Até que, segundo a denúncia formal do cabido guadalupano, tudo mudou.
As informações recolhidas por este blog em Infovaticana revelam um padrão de aberturas indiscriminadas, grupos numerosos, listas discricionárias e supostos “donativos” em troca de acesso. O que era um relicário teria se convertido, sob a reitoria do padre Efraín Hernández Díaz e com o aval do arcebispo primaz, Carlos Aguiar Retes, em uma espécie de “mina de recursos” espirituais.
O camarim é uma abóbada de segurança de aproximadamente 4,15 por 2,55 metros e cinco metros de altura, construída para custodiar a imagem mesmo diante de sinistros graves. Seu acesso principal consiste em uma grossa porta de dupla maçaneta de segurança, semelhante aos cofres bancários, seguida de uma grade. De fora, em dias comuns, há apenas uma fita que impede a aproximação; os funcionários persignam-se ou tocam a porta, e as marcas de mãos são frequentes. Não há vigilância armada porque a verdadeira proteção está no protocolo e no mecanismo interno. Para acessar, o ritual era muito preciso: citavam-se os visitantes para uma palestra formativa enquanto se celebrava a missa das 20:00. Às 21:00, uma vez completamente desocupada a Basílica e sem mais ninguém no recinto, procedia-se à abertura. Só então se entrava no espaço reduzido, subia-se por uma escada e chegava-se ao lugar onde a imagem, emoldurada em um mecanismo, fica exposta para o interior.
Esse mecanismo de retração foi projetado pelo arquiteto Óscar Jiménez Gerard. Seu duplo propósito era claro, proteger a tilma de qualquer ameaça externa e deter o progressivo deterioro que a imagem já apresentava pela ação do tempo, pela fumaça das velas e pela manipulação anterior.
Um relatório técnico de 1982, apresentado sob a abadia de Guillermo Schulemburg, dá conta daquela intervenção. O sistema permite deslocar a imagem sem tocá-la diretamente, incliná-la, torná-la vertical e girá-la para o camarim para que fique acessível, sempre atrás de uma mica protetora. Segundo as informações obtidas por este meio, durante a reitoria de Efraín Hernández substituiu-se a mica protetora original —mais pesada— por outra mais leve que, segundo os que a promoveram, seria “melhor”. O resultado técnico foi problemático: o mecanismo ficou desalinhado.
Ao fechar-se, o quadro bate e gera vibrações que se transmitem diretamente à tilma. Uma peça de quase quinhentos anos, tecida em dois pedaços de ayate costurados no centro e que já apresenta separação visível em várias zonas, não foi concebida para suportar impactos repetidos de metal. Desconhece-se quem ou qual empresa realizou a troca, se houve licitação pública, qual foi o custo e quais critérios técnicos foram seguidos. A falta de transparência em uma intervenção que afeta diretamente a conservação da imagem mais venerada do México já constitui, por si só, um grave questionamento.
Até pouco tempo, o protocolo era claro e restritivo. Para ver a imagem de perto era necessária solicitação direta ao arcebispo do México ou ao reitor em exercício. Elaborava-se uma lista. O camarim só se abria no máximo duas vezes por mês, com grupos de até oito pessoas e permanência breve —não mais de três minutos—. O contato visual e espiritual era possível graças à mica, mas sempre em clima de recolhimento.
Com Efraín Hernández as regras mudaram radicalmente. Segundo a denúncia do cabido, o camarim chegou a abrir-se até oito vezes por mês —ou seja, duas vezes por semana—. Os grupos eram numerosos e, em muitos casos, respondiam mais a um turismo religioso, selfies e atitudes frívolas do que à autêntica devoção. Até mesmo o camarim podia ser aberto em horas da madrugada. As listas não provinham apenas de solicitações formais: o arcebispo Aguiar Retes enviava as suas, elaboradas por seu secretário pessoal. O reitor, por sua vez, acrescentava nomes a seu critério, favorecendo personagens ligados a ele que previamente haviam solicitado o acesso em troca de “donativos”.
Efraín Hernández chegou a ordenar que não se dissesse como, quando nem a quem se abria o camarim, confiando em que o silêncio bastaria para ocultar a prática. Aguiar Retes compreendeu logo que aquela abertura frequente representava uma “mina de recursos”, mas o problema não era apenas econômico: cada abertura desnecessária, cada grupo numeroso, cada manipulação do mecanismo defeituoso acelerava deteriorações invisíveis, porém acumulativas, em uma imagem que a ciência ainda não consegue explicar por completo e que a fé de milhões protege com zelo.
O cabido guadalupano não ficou calado. Em setembro de 2025 apresentou uma denúncia formal com esta e outras irregularidades na gestão pastoral e administrativa da Basílica. Uma das medidas imediatas do arcebispo foi a ordem de não abrir o camarim durante todo o mês de setembro. Posteriormente, Aguiar Retes assinou o decreto de separação do reitor.
No dia 28 de maio de 2026, no entanto, Aguiar Retes comunicou verbalmente ao cabido a restituição de Efraín Hernández Díaz como reitor e vigário episcopal. A decisão baseou-se em uma auditoria da firma Deloitte e em um processo canônico interno que, segundo a fórmula empregada, “não encontrou causa alguma que o impeça”. Não foram divulgados os resultados detalhados nem se abordou especificamente o capítulo das aberturas do camarim. A restituição, no trecho final do governo de Aguiar Retes, reacende a inquietação: voltarão as listas discricionárias, os grupos VIP e os supostos donativos em troca de acesso?
O cabido denunciou esses fatos ao núncio apostólico e ao próprio Papa Leão XIV. As consequências foram imediatas: em setembro de 2025, Aguiar ordenou fechar o camarim durante todo o mês. Após a remoção do reitor, o período do arcipreste impôs um regime muito mais austero e orientado a fins de fé para a abertura do camarim. Hoje, após a recente restituição de Hernández Díaz determinada por Aguiar Retes, renascem as suspeitas de que aquelas práticas possam repetir-se.
Os especialistas que em 1982 examinaram a imagem e supervisionaram a instalação do mecanismo de Jiménez Gerard escreveram então uma frase que advertia cautela e confiança: “Outros homens, talvez, no futuro, com uma visão renovadora, com maiores e melhores recursos técnicos, possam realizar novos trabalhos em relação a esta imagem, tão querida e venerada por todos nós…”. Jamais imaginaram que, de dentro, o arcebispo Aguiar Retes e seu reitor fariam o impensável com o espaço mais protegido da cristandade mexicana. E o cabido, pelo menos, teve a coragem de denunciá-lo. A pergunta que agora paira sobre a Basílica é se essa denúncia será ouvida ou se, mais uma vez, o silêncio e a restituição sem explicação pública prevalecerão sobre a transparência e a reverência devida à Guadalupana.
O que está em jogo não é apenas a integridade material de uma tilma antiga. É a integridade espiritual de um espaço que milhões de mexicanos consideram o próprio coração de sua fé. Converter o camarim em um privilégio para quem tem influências ou capacidade de “doar” não é uma irregularidade administrativa menor. É o comércio, direto ou encoberto, de realidades sagradas. Isso é repudiável aos olhos de Deus… Isso, efetivamente, chama-se simonia.