Roma abre uma nova fase na intervenção do Instituto do Verbo Encarnado (IVE) e das Servidoras do Senhor e da Virgem de Matará (SSVM), que incluirá uma «releitura do carisma» e a «revisão, renovação e purificação» da sua espiritualidade, formação e apostolado. O processo é apresentado depois de dois tribunais penais especiais da Santa Sé, em primeira instância e em apelação, terem declarado culpado o padre Carlos Miguel Buela, fundador de ambos os institutos, de «um delito contra o sexto Mandamento cometido com violência contra várias pessoas».
O resultado dos processos e a nova etapa que se abre para os dois institutos foram comunicados oficialmente aos seus superiores. O documento está assinado por José Antonio Satué, delegado pontifício para o IVE; Clara Echarte, delegada pontifícia para as Servidoras; e Simona Brambilla, prefeita do Dicastério para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica.
Culpado em primeira instância e em apelação
Segundo o comunicado, os delegados pontifícios mantiveram esta semana em Roma uma reunião com os superiores e superioras provinciais dos dois ramos da família religiosa, na presença também de responsáveis do Dicastério para a Vida Consagrada.
Durante o encontro foi informado das decisões adotadas pelos dois tribunais penais especiais competentes no processo canónico seguido contra Buela. «Em ambos os graus de julgamento, foi declarado culpado de um delito contra o sexto Mandamento cometido com violência contra várias pessoas», indica o documento, que remete ao cânon 1395 §2.
A primeira dessas decisões já constava no decreto com o qual Roma interveio no IVE. O cardeal Santos Abril y Castelló tinha constituído em maio de 2020 um tribunal penal especial que, a 20 de julho de 2021, concluiu que Buela tinha cometido esse delito contra cinco membros e ex-membros do Instituto. Francisco permitiu posteriormente o recurso solicitado pela defesa e autorizou a constituição de um tribunal especial de apelação. Buela faleceu a 23 de abril de 2023 antes de esse segundo tribunal concluir o seu trabalho.
A informação agora conhecida completa, portanto, um ponto que permanecia pendente: o procedimento de apelação continuou e o segundo tribunal confirmou a culpabilidade do fundador.
Os delegados apresentam a comunicação pública do resultado como um ato destinado a «restabelecer a verdade» e fazer justiça às pessoas prejudicadas pelo comportamento de Buela.
Da condenação do fundador à «releitura do carisma»
A questão já não fica limitada ao comportamento pessoal do fundador. O mesmo comunicado vincula o resultado dos processos com «o caminho de releitura do carisma» e com a «revisão, renovação e purificação» da espiritualidade, da formação e do apostolado dos dois institutos.
A precisão introduzida imediatamente a seguir resulta especialmente significativa: o processo deverá realizar-se «distinguindo entre o dom do Espírito concedido para a edificação da Igreja e as limitações ou atuações pessoais do Fundador».
O comunicado deixa aberta a tarefa de discernir o que pertence ao património espiritual dos institutos e que elementos devem ser revistos pela sua vinculação com Buela.
O IVE define o seu carisma como a busca de «prolongar a Encarnação em todas as coisas», com especial atenção à evangelização da cultura. O Instituto, fundado na Argentina em 1984, mantém uma ampla presença missionária internacional. A sua própria informação institucional apresenta a sua atividade pastoral em 93 jurisdições eclesiásticas de 44 países.
Uma intervenção cada vez mais profunda
A nova fase soma-se às medidas adotadas pela Santa Sé durante os últimos anos sobre o IVE.
Em janeiro de 2025, Roma nomeou José Antonio Satué delegado pontifício com plenos poderes de governo sobre o Instituto. Entre as medidas então conhecidas figuravam a constituição de um grupo de religiosos, canonistas e teólogos para realizar uma «profunda revisão do direito próprio» e a proibição durante três anos de admitir novos candidatos e permitir entradas no noviciado.
O decreto reconhecia ao mesmo tempo o «grande impulso missionário» do IVE, mas assinalava uma «grande debilidade» no processo formativo, um elevado número de abandonos e uma colaboração insuficiente de superiores e membros do Instituto com o anterior comissário pontifício para esclarecer as denúncias contra Buela.
A intervenção avançou de novo no passado agosto, quando Satué reorganizou o governo geral mediante uma equipa composta maioritariamente por pessoas alheias ao Instituto. Seis dos oito integrantes da nova estrutura procedem de fora do IVE e exercem as suas funções sob a autoridade do delegado pontifício, que mantém os seus poderes de governo.
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Entre os responsáveis incorporados a essa estrutura encontra-se o capuchinho Giampiero Gambaro, à frente da Procuradoria Geral. O canonista tinha intervindo previamente no expediente do sacerdote Eleuterio Vásquez Gonzales em Chiclayo e a sua chegada ao governo do IVE voltou a levantar perguntas sobre a sua atuação nesse caso.
O futuro do IVE, pendente de revisão
Por agora, o documento assinado por Satué, Echarte e Brambilla não anuncia uma supressão nem antecipa o resultado da revisão. A sua linguagem aponta expressamente a distinguir o «dom do Espírito» das atuações pessoais de Buela, ao mesmo tempo que estende o exame à espiritualidade, à formação e ao apostolado das duas instituições.
A confirmação da condenação em apelação modifica, no entanto, um elemento central do expediente. A culpabilidade canónica de Buela já não aparece unicamente como a conclusão de um tribunal cuja decisão tinha sido recorrida: duas instâncias canónicas chegaram à mesma conclusão sobre o fundador, enquanto o Instituto que criou permanece sob tutela pontifícia e enfrenta agora uma revisão que alcança também o modo como o seu legado configurou a vida da família religiosa.