O cardeal brasileiro Jaime Spengler, arcebispo de Porto Alegre e presidente do Conselho Episcopal Latino-Americano e Caribenho (CELAM), defendeu a necessidade de aprofundar na «inculturação» do Evangelho e reivindicou pessoas suficientemente preparadas para desenvolver teológica e pastoralmente este processo.
«A tarefa consiste em encarnar o Evangelho nas diferentes culturas, sem sobrepô-lo ao que há de bom nessas culturas e sem negar o que propriamente pertence ao Evangelho», declarou Spengler em uma entrevista concedida a Advaticanum.
As declarações chegam poucos dias depois de o subsecretário do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, monsenhor Aurelio García Macías, recordar diante de 49 novos bispos os limites que devem reger qualquer processo de inculturação litúrgica: «Nenhuma cultura é o Evangelho» e a liturgia «pertence a Cristo e à Igreja».
Spengler quer avançar também no terreno litúrgico
O presidente do CELAM reconheceu que este processo apresenta dificuldades importantes.
«Isto representa um desafio considerável, tanto teologicamente —como desenvolver uma teologia verdadeiramente inculturada— quanto pastoralmente, na maneira como vivemos a fé de forma inculturada», explicou.
Spengler considera por isso necessário contar com «mentes capazes» que possam aprofundar nestas questões.
Não é uma posição nova. Durante o Sínodo dos Bispos de 2024, quando se debatia também sobre a possível configuração de um rito amazônico, o cardeal defendeu outra via: aprofundar na inculturação do próprio rito romano nas diferentes realidades, em vez de criar um rito completamente novo.
Como exemplo, Spengler recordou uma assembleia da Conferência Eclesial da Amazônia (CEAMA) realizada em 2023, na qual indígenas participaram no serviço do altar «com uma dignidade, reverência e cuidado que às vezes nem sequer vemos em nossas celebrações mais solenes».
Após o consistório convocado por Leão XIV em janeiro deste ano, o cardeal voltou a sustentar que existe um rito romano que deve ser inculturado nas diferentes realidades eclesiais e vinculou este processo a uma maior formação litúrgica do conjunto dos fiéis.
A inculturação também exige converter e purificar as culturas
A inculturação não é, em si mesma, uma novidade nem um conceito alheio à tradição evangelizadora da Igreja. A questão decisiva está no que se entende por ela e quais são seus limites.
São João Paulo II ensinou em Redemptoris missio que mediante a inculturação a Igreja «encarna o Evangelho nas diversas culturas», assumindo quanto há de bom nelas e renovando-as desde dentro. Advertiu, ao mesmo tempo, de que este processo «não deve comprometer de modo algum as características e a integridade da fé cristã».
A Comissão Teológica Internacional explicou igualmente que a relação entre Evangelho e cultura não consiste simplesmente em reconhecer e assumir os valores existentes em cada povo.
A evangelização exige também uma conversão das mentalidades e uma correção daqueles costumes incompatíveis com a fé. As culturas, assinala o documento, devem ser «purificadas e restauradas em Cristo».
É precisamente o aspecto sobre o qual García Macías insistiu na semana passada diante dos novos bispos: o Evangelho «acolhe e purifica, assume e transforma, confirma e corrige, eleva e, quando necessário, pede uma ruptura».
Deste modo, a inculturação não supõe adaptar o conteúdo da fé às exigências de cada cultura. Acolhe quanto há nelas de verdadeiro, bom e belo, mas submete também seus elementos ao juízo do Evangelho.
Os limites na liturgia
A questão adquire uma importância particular quando a inculturação afeta diretamente a celebração dos sacramentos.
O subsecretário de Culto Divino advertiu na semana passada contra uma concepção da inculturação reduzida a introduzir cantos, danças, instrumentos ou costumes locais nas celebrações. Também assinalou três riscos concretos: a inovação desnecessária, o sincretismo e o folclore.
«A liturgia não é uma representação cultural», afirmou então García Macías, que recordou ademais que qualquer adaptação deve respeitar a fé da Igreja, favorecer a participação interior e contar com o discernimento e a aprovação da autoridade eclesiástica correspondente.
Diante desses limites, Spengler propõe agora a necessidade de continuar aprofundando em uma teologia e uma prática pastoral «verdadeiramente inculturadas», também no âmbito do rito romano.
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