“Em agosto de 1415, uma frota portuguesa cruzou o estreito de Gibraltar e assaltou o porto muçulmano de Ceuta, em Marrocos, uma das praças-fortes mais fortificadas e estratégicas de todo o Mediterrâneo. A sua captura surpreendeu a Europa. No início do século XV, a população portuguesa não ultrapassava o milhão de habitantes” (Roger Crowley).
Começamos nesta nova secção, “Cristandade ou Modernidade: uma visão cristã da História”, com uma breve série sobre a expansão de Portugal no Oceano Índico, a evangelização da colónia portuguesa de Goa e a migração de goeses da Índia para a África oriental durante os séculos XIX e XX, com a consequente formação de minorias indo-portuguesas católicas diaspóricas em diferentes contextos africanos.
Abordar-se-á a história evenemencial (tecnicismo cunhado pela Escola dos Anais para se referir à história dos acontecimentos) como quadro histórico e geográfico, para tratar as ideias de fundo, uma história do pensamento, da Cristandade, da irrupção da Modernidade e das suas nefastas consequências.
1.-A cruzada portuguesa rumo ao Oceano Índico:
A participação dos portugueses na Reconquista da Península Ibérica começou com a fundação do Condado de Portugal no ano de 868, quando foi conquistado pelos cristãos, e continuou até ao ano de 1249, quando foram tomadas as últimas cidades sob poder muçulmano no Algarve. Durante esse tempo, Portugal passou de condado a reino totalmente independente em 1139, independência confirmada em 1179 pelo Papa Alexandre III. Sobre os alicerces deste pequeno reino que olhava para o vasto oceano Atlântico constituir-se-ia o Império Português.
Em 1415, enquanto os reinos de Castela e Aragão, Portugal empreendeu com sucesso a sua primeira aventura de cruzada com o assalto e tomada da cidade de Ceuta, no estreito de Gibraltar. Numa amostra do que seria o posterior padrão explorador português, o rei dirigiu a conquista da cidade de Ceuta, por onde passava grande parte do comércio no estreito.
A questão comercial é a citada pela maior parte dos historiadores para explicar a expansão portuguesa rumo às costas africanas ocidentais e orientais nos séculos XV e XVI. No entanto, uma vez compreendido o contexto em que esta se produziu e os argumentos dos próprios portugueses da época, estamos em posição de entender que o factor principal foi a mentalidade de cruzada: a luta contra o Islão. Os reinos peninsulares estavam em plena reconquista. Portugal, libertado antes de Castela do jugo muçulmano, lançou-se aos mares. Neste sentido, não pode considerar-se casual que o primeiro objectivo fosse Ceuta: não apenas pelo seu comércio, mas pelo fácil acesso à Península Ibérica a partir do estreito.
A História como disciplina científica é filha do tempo que a viu nascer, o século XIX, com uma mentalidade positivista e imanentista que impossibilita a compreensão das mentalidades anteriores ao Iluminismo, em que a dimensão religiosa era determinante para as acções. Que a tomada de Ceuta tivesse fins económicos deixaria sem poder explicar o elemento carregado de simbolismo de como o rei João I de Portugal renomeou a mesquita de Ceuta, que havia sido primeiro ritualmente limpa com sal, como “Nossa Senhora de África”, e que aí nomeou cavaleiros os seus três filhos, os príncipes Duarte, Pedro e Henrique.
É certo, também, que a Ceuta chegavam rotas caravanárias do Oriente e do coração de África.
Por tudo isto, o historiador best-seller Roger Crowley admite na sua obra Conquerors que as empresas de cruzada contra os muçulmanos no norte de África estiveram profundamente entrelaçadas com a aventura marítima de Portugal.
Após a tomada de Ceuta, os portugueses lançaram-se rumo ao Oceano Atlântico e realizaram entre 1419 e 1456 as primeiras incursões na Macaronésia, o nome colectivo dos arquipélagos dos Açores, Canárias, Cabo Verde, Madeira e as ilhas Selvagens. A partir destas ilhas, os portugueses, em empresas de expedição sempre enviadas pela Coroa, melhorando constantemente as suas técnicas de construção de navios e o conhecimento das correntes marinhas e dos ventos, foram descendo pela costa ocidental do continente africano. Em 1460 adentraram-se no golfo da Guiné e estabeleceram-se nas ilhas de São Tomé e Príncipe.
Ao que parece, o reino de Castela, ainda no meio da batalha pela expulsão dos muçulmanos do território peninsular, também enviou exploradores a estas regiões africanas, conduzindo a um confronto entre ambos os reinos em 1478, que terminou com a vitória portuguesa.
A historiografia insiste fundamentalmente nos motivos económicos da expansão, especialmente na busca de uma rota alternativa para o comércio de especiarias, uma vez que a rota terrestre havia sido tomada pelos muçulmanos após a queda de Constantinopla em 1453. Cabe, no entanto, perguntar se, como bem explicou o P. Javier Olivera Ravasi na sua trilogia Que no te la cuenten: la falsificación de la Historia, a ideia de Colombo de adentrar-se no Atlântico rumo ao oeste se enquadrava na mentalidade de cruzada para chegar à Terra Santa e alcançar por trás os turcos otomanos, não seria esta também a motivação dos portugueses, visto que estamos a falar de monarquias cristãs com uma ideia expansionista similar, embora a portuguesa tenha sido anterior: encontrar uma rota alternativa rumo ao oriente bloqueado pelos mouros, mas não simplesmente para comerciar, mas para eliminar o Islão. Detalhes muito significativos do relato da expansão portuguesa confirmarão, como veremos, esta tese.
A incapacidade da mentalidade moderna para ler as situações a partir da perspectiva de homens de outros tempos, especialmente no que respeita à questão religiosa, não é partilhada por historiadores muçulmanos contemporâneos, como podemos ver no interessante artigo do professor Nazeer Ahmed sobre “as devastações portuguesas no Oceano Índico”, que afirma com clareza que “a descoberta da América e a circunavegação de África foram consequências lógicas da rivalidade religioso-política entre as potências cristãs da Ibéria e as potências muçulmanas do norte de África. À medida que o Magrebe se desintegrava, as potências cristãs da Ibéria, com a cooperação das potências marítimas de Itália, consolidavam as suas posições e projectavam o seu poder muito para além das fronteiras da Península Ibérica. A religião e o lucro foram as principais motivações do impulso luso-espanhol. O fanatismo cristão expressou-se através da Inquisição espanhola”.
Entre 1473 e 1482 os portugueses avançaram rumo ao sul pela costa ocidental africana, ao mesmo tempo que faziam incursões pelo curso dos rios para o interior do continente. Ao pôr pé em terra, os portugueses plantavam na margem o que chamavam “padrão”, um pilar de pedra coroado por uma cruz na qual se indicava o ano de chegada, o nome do rei e o do descobridor. O monumento era talhado em Portugal e era levado nas embarcações que partiam, tendo considerado bem as últimas descobertas cartográficas e fixando os objectivos das expedições cuidadosamente.
Ptolomeu havia desenhado o Oceano Índico como um mar fechado entre as terras de uma costa africana que se estendia para leste, mas existiam também vozes que falavam do continente africano como dotado de uma forma triangular a partir da qual, uma vez contornado o sul, se podia avançar por mar rumo à Índia. Esse era o objectivo dos portugueses, como ressaltam os autores, embora também pretendessem encontrar o quase mítico Preste João, um rei cristão nas terras altas da Etiópia, com quem aliar-se para penetrar no extremo oriental do Mar Mediterrâneo rumo à Terra Santa. Com esta ideia partiu a expedição de Bartolomeu Dias, que em 1488 conseguiu contornar o extremo sul de África. Dias chegou a Kwaaikoek, plantou um padrão e empreendeu a navegação de volta para Portugal. Simultaneamente, o explorador Pedro Covilhã havia sido enviado pelo rei de Portugal atravessando o Mediterrâneo rumo ao encontro do Preste João.
Em 1491, o herdeiro do trono do rei João II de Portugal, Afonso, faleceu num acidente de equitação, dando lugar a uma crise de sucessão. Logo se determinou que a coroa seria para Manuel, duque de Beja, primo de João II, que foi coroado em 1495. Três anos antes, Cristóvão Colombo havia chegado, em nome da coroa de Castela, ao Caribe, depois de ter tentado negociar durante anos, sem sucesso, com o rei de Portugal. E um ano antes, em 1494, perante a tensão que se ia criando entre portugueses e espanhóis pelos territórios descobertos, assinou-se o Tratado de Tordesilhas, que foi sancionado pelo Papa, com o qual se pretendia evitar qualquer fricção futura fazendo com que estas duas potências católicas se pusessem de acordo antecipadamente sobre quem reclamaria que territórios: Portugal tinha acesso ao território a leste da linha imaginária situada a 370 léguas a oeste dos Açores, enquanto Espanha tinha acesso aos do oeste. Ou seja: o Sumo Pontífice da Igreja fazia doação dos territórios, visto que recebia o reconhecimento geral dos soberanos cristãos sobre territórios infiéis nos quais não estava estabelecida por nenhum direito anterior, a título do que os canonistas chamavam a sua “jurisdição imediata e universal”.
Antes de analisar as distintas expedições de Vasco da Gama à Índia, é muito pertinente deter-se a considerar o cerimonial da partida, seguindo a detalhada descrição de Roger Crowley, baseada na crónica de João de Barros: “A meio do verão de 1497, a expedição estava pronta: as velas blasonadas com a cruz vermelha da Ordem de Cristo, os canhões enrolados a bordo, os pesados canhões em posição e as tripulações reunidas. A pequena flotilha saiu dos estaleiros e ancorou frente à praia de Restelo, uma povoação piscatória rio abaixo de Lisboa. Em meio de um calor sufocante, o rei Manuel havia-se retirado ao seu castelo de Montemor-o-Novo, e foi aí que Vasco da Gama e os seus capitães se dirigiram para receber as instruções de navegação e a bênção ritual do rei. De joelhos, Gama foi investido solenemente com o comando da expedição e um estandarte de seda com a cruz dos templários. Foram-lhe dadas instruções: procurar os reis cristãos da Índia numa cidade chamada Calecute e estabelecer um comércio de especiarias. Tinha uma carta para o rei de Calecute e outra para o Preste João. A missão era ao mesmo tempo sagrada e secular, com tons de cruzada misturados com rivalidade comercial. Restelo, às margens do Tejo, fora das muralhas da cidade, havia sido o ponto de partida tradicional dos viajantes portugueses desde os tempos de Henrique o Navegador; a sua praia, suavemente ondulada, oferecia um amplo cenário para as cerimónias religiosas e os emotivos rituais de partida. No alto da colina, dominando a ampla escarpa do Tejo que conduzia a oeste, ao mar aberto, encontrava-se a capela de Henrique, dedicada a Santa Maria de Belém (sobre a qual pouco depois se erigiria o mosteiro dos Jerónimos), com o fim de conceder os sacramentos aos marinheiros que partiam. Toda a tripulação, cerca de 150 homens, passava ali a quente noite de verão em oração e vigília. O sábado 8 de julho de 1497, dia consagrado à Virgem Maria (sábado), havia sido escolhido pelos astrónomos da corte. Um mês antes, o Papa havia concedido a Manuel a propriedade perpétua das terras conquistadas aos infiéis sobre as quais outros reis cristãos já não tinham reclamações. Gama conduziu os seus homens numa procissão devocional desde a capela até à praia, organizada pelos sacerdotes e pelos monges da Ordem do Templo. Os navegantes vestiam túnicas sem mangas e levavam velas acesas. Os sacerdotes iam atrás, cantando a ladainha, e o povo respondia com gritos. Quando chegaram à margem, todos se ajoelharam para fazer uma confissão geral e receber a absolvição, segundo a bula papal que Henrique havia obtido para os que morressem nesta descoberta e conquista”.
2.-Vasco da Gama no Oceano Índico. A civilização swahili:
A expedição de Vasco da Gama rumo à Índia, composta por quatro navios, zarpou no verão de 1497, seguindo a mesma rota de Bartolomeu Dias. No início de 1498, atravessado por mar o sul de África, a expedição começou a subir pela costa oriental africana, dando-se todos conta imediatamente de que o panorama que encontravam era totalmente distinto do da costa ocidental: uma linha costeira mais densamente povoada, com os seus habitantes mais acostumados a ver chegar estrangeiros às suas margens, com enclaves urbanos, em alguns dos quais destacavam os minaretes de mesquitas. Os portugueses levavam intérpretes de língua árabe, tornando possível a comunicação com os locais. Os portugueses haviam alcançado a margem sudoeste da civilização swahili, parte de um Oceano Índico que pode conceber-se neste período e desde muitos séculos atrás como um conjunto cultural baseado nas trocas culturais e na criação de laços familiares, parcialmente islamizado e com presença, ao mesmo tempo, de diferentes culturas no seu interior. A consideração do Oceano Índico como um conjunto cultural baseia-se no estudo de núcleos urbanos costeiros dedicados ao comércio, politicamente independentes, que se desenvolveram nas costas índicas, com dinâmicas partilhadas, compreendendo toda a África oriental, a península arábica, o subcontinente indiano, a península malaia, a Indonésia e os sectores meridionais das Filipinas. Nesta vasta zona vinha-se desenvolvendo, entre os séculos X e XV – como demonstraram as fontes escritas e a arqueologia – uma civilização cosmopolita, fruto dos processos migratórios e de uma troca comercial sobre a qual nenhuma zona ostentava monopólio.
Diante destas cidades-estado independentes de cultura afro-muçulmana encontraram-se os portugueses na costa oriental de África. O primeiro desembarque produziu-se na costa do actual Moçambique, em março de 1488. Tratava-se de um porto comercial em toda a regra no qual, segundo o diário de bordo, encontraram ricos comerciantes muçulmanos ataviados com roupas caras e as mais finas joias. Os habitantes locais pensaram inicialmente que os visitantes eram turcos, e os portugueses, apercebidos do detalhe, não tentaram desfazer o equívoco. Dois experientes navegadores embarcaram com os portugueses para os ajudar a navegar rumo à Índia mas, uma vez que se deram conta de que eram cristãos, fugiram para a costa e correu como pólvora a voz de que eram kafir, “infieis”. Então começou a chamada “diplomacia de canhões”, na qual o avanço dos portugueses rumo à Índia esteve repleto de incidentes e violência. As naus portuguesas eram muito superiores em tecnologia armamentística às populações locais, pelo que puderam ir atracando nos distintos portos para se abastecerem de água e alimentos, defendendo-se das hostilidades. Assim chegaram a Mombaça, no sul da actual Quénia, que era então uma próspera cidade comercial. A meio de abril do mesmo 1498 chegaram a Melinde, outro enclave comercial islamizado. Zarpando dali, em poucas semanas alcançaram a Índia, no final de maio. Aí, os portugueses encontraram alguns mercadores capazes de falar espanhol a quem responderam, à sua pergunta sobre o que procuravam nesses longínquos territórios, responderam: “cristãos e especiarias”.
Pelo caminho, os portugueses perderam a oportunidade de realizar o seu sonho de cruzada: assaltar o Mar Vermelho, tomar a Arábia Saudita e marchar até Jerusalém: os seus antigos inimigos, os mamelucos, que haviam governado desde o Cairo, haviam sido depostos pelo império otomano islâmico. Com a sua cabeça em Istambul (Constantinopla), os otomanos de finais do século XV eram uma força a ter em conta.
O arquitecto deste império, que alcançou até Macau, na China, foi o rei Manuel I (1469 – 1521), que, de acordo com Crowley, “tinha uma visão messiânica, acreditava que ia ser um grande rei cristão. Estava mais interessado em converter a Índia numa base para atacar o islão do que em desenvolver o comércio”, explica o historiador, para prosseguir dizendo que “o seu plano era unir-se com o mítico exército do Preste João (nas terras altas da Etiópia) para lançar uma cruzada sobre Meca, sequestrar o corpo do profeta Maomé e pedir em troca Jerusalém, naquele tempo em mãos dos muçulmanos; pensavam asfixiar economicamente o Império Otomano através de um bloqueio naval. Mas o seu plano nunca funcionou, embora Portugal se apoderasse, ao longo do século XVI, dos principais portos do Mar Vermelho e do Golfo Pérsico”.
3.-A chegada de Vasco da Gama à Índia:
Assim foi que Vasco da Gama chegou a Calecute, na costa sudoeste do subcontinente indiano, em 1498, tornando-se no primeiro europeu a chegar à Índia pela rota que contorna África.
Calecute era um dos principais pontos do comércio das especiarias na Índia e estava governado por uma figura similar à de um rei. Após duras negociações, ao não considerar o governante local os presentes dos portugueses de suficiente categoria, Vasco da Gama conseguiu chegar a alguns acordos comerciais com o reino de Calecute e obteve uma carta escrita em folha de palma pelo próprio governante indiano, dirigida ao rei de Portugal, na qual lhe oferecia canela, pimenta, cravo, gengibre e pedras preciosas em troca de ouro, prata, coral e tecidos purpúreos.
Tendo conseguido estabelecer um acordo e deixando alguns dos seus homens ali com o fim de estabelecer um porto comercial permanente, Vasco da Gama zarpou de volta para Lisboa no final de agosto de 1498. Chegaram a Portugal quase um ano depois, com um Vasco da Gama exausto que foi recebido pelo rei Manuel I, que lhe concedeu o título de almirante do Mar das Índias e uma carta de liberdade absoluta para comerciar por sua conta.
Já reposto, em 1502, Vasco da Gama embarcou novamente rumo à Índia.
Referências bibliográficas
Abellan, P., 2002. “Introdução ao estudo do Oceano Índico como conjunto cultural. Revisões historiográficas e novas propostas”. Investigação para a obtenção do DEA, 2000/2002.
Crowley, R., 2005. “O mar sem fim”, ed. Ático Livros.
Elías de Tejada, F., 2021. “Le radici della modernità”, Collana di Studi Carlisti, Solfanelli.
Iniesta, F., et al., 1989. “Relatório: África desconhecida, os Swahili”, Historia16, ano XIV.
Olivera Ravasi, J.,2018. “Que no te la cuenten. A falsificação da História”. Vol III. Ed. Katejon