Por P. Raymond J. de Souza
O papa Leão XIV viaja hoje a Rimini para o festival cultural anual organizado pela Comunhão e Libertação (CL). Poucos usam seu nome formal, o «Meeting de amizade entre os povos». É, simplesmente, «Rimini». Talvez seja a única coisa que muitos saibam dessa cidade costeira italiana, que reúne figuras importantes da religião, das artes e até da política italiana para seu encontro de verão. Participam cerca de 80.000 pessoas, e outros três quartos de milhão o acompanham online.
A Comunhão e Libertação inaugurou o Meeting de Rimini em 1980, e já em 1982 foi visitado por são João Paulo Magno. O papa Leão será o segundo papa a visitá-lo, e o que disser sobre cultura, arte e beleza será observado com atenção. Justamente esta semana, em sua audiência geral, o Santo Padre falou sobre a música e o culto a Deus.
O tema de Rimini deste ano é retirado do último verso do Paraíso de Dante: «O Amor que move o sol e as demais estrelas».
É perfeito para Rimini, onde católicos devotos falam em uma linguagem com a qual esperam envolver até os não crentes. Assim, o «amor» do tema deste ano é explicado como «o princípio dinâmico do cosmos, a energia que sustenta tudo unido e o impulsiona para seu cumprimento».
Isso soa um pouco como «a Força» de Star Wars, mas esse é o estilo da CL. Está claramente pensado para oferecer uma abertura ao Santo Padre e aos seus ensinamentos recentes sobre a inteligência artificial.
«Vivemos fragmentados dentro de bolhas digitais que nos isolam em vez de nos conectar», continua a introdução da CL. «Em um mundo onde os algoritmos decidem o que vemos e com quem nos encontramos, redescobrir o amor como uma força que move e transforma torna-se um desafio radical. Significa reconhecer que a realidade não é um caos estático, mas carrega em si uma direção, um dinamismo que nos empurra além de nós mesmos».
Que existe um dinamismo que nos leva além de nós mesmos foi articulado em Rimini em dois discursos memoráveis que não foram pronunciados por um papa, mas por um futuro: o cardeal Joseph Ratzinger, em 1990 e 2002. Como se manifesta esse dinamismo do amor? Na beleza e na santidade, que é o que Ratzinger disse que a Igreja oferece ao mundo como seu testemunho último.
Ratzinger era próximo do movimento da CL e de seu fundador, monsenhor Luigi Giussani, tanto que pregou na missa fúnebre de Giussani apenas alguns meses antes de sua própria eleição como papa em 2005:
O padre Giussani havia crescido em uma casa —como ele mesmo dizia— pobre de pão, mas rica de música… E assim, desde o início, ficou tocado, ferido até, pelo desejo de beleza; não se contentava com uma beleza qualquer, uma beleza banal: buscava a Beleza mesma, a Beleza infinita; assim encontrou Cristo, em Cristo a verdadeira beleza, o caminho da vida, a verdadeira alegria.
Ratzinger aplicava assim a Giussani uma convicção sua de longa data, articulada de modo mais célebre em Rimini em 2002:
Já afirmei muitas vezes minha convicção de que a verdadeira apologia da fé cristã, a demonstração mais convincente de sua verdade, contra qualquer negação, são por um lado os santos e por outro a beleza que a fé gerou.
Mais adiante no mesmo discurso, Ratzinger recordou que «uma experiência inesquecível para mim foi o concerto de Bach dirigido por Leonard Bernstein em Munique após a morte prematura de Karl Richter».
«Estava sentado ao lado do bispo evangélico Hanselmann», disse. «Quando a última nota se desvaneceu triunfalmente, nos olhamos de forma espontânea e, com a mesma espontaneidade, dizemos: “Quem ouviu isso sabe que a fé é verdadeira”».
Também Ratzinger cresceu rico em música; descreveu sua cidade natal como pertencente à «região mozartiana da Baviera».

Em 1990 recorreu a uma imagem artística, uma das mais famosas do artista mais célebre da história.
«Com sua visão de artista, Michelangelo via na pedra que tinha diante de si a imagem oculta por baixo, à espera de ser libertada e trazida à luz», disse Ratzinger. «A tarefa do artista, em sua opinião, era simplesmente remover aquilo que ainda cobria essa imagem. Michelangelo pensava a autêntica atividade artística como um trazer à luz, um libertar, não um “fazer”».
O artista liberta, ou revela, uma beleza que já está ali. A revelação é, em grande medida, a compreensão cristã da realidade. Depois de se voltar para o artista, Ratzinger voltou-se então para um de seus santos favoritos.
«A mesma ideia aplicada à antropologia já era evidente em são Boaventura, que explicou o itinerário pelo qual o homem chega a ser autenticamente ele mesmo usando a imagem do escultor», explicou Ratzinger. «Assim é para o homem: para que a imagem de Deus brilhe nele, deve sobretudo, e antes de tudo, acolher aquela purificação pela qual o escultor, isto é Deus, o liberta de todos os escombros que obscurecem o aspecto autêntico de seu ser, que o fazem parecer nada mais que um bloco bruto de pedra, quando na realidade habita nele a imagem divina».
O artista revela a figura no mármore. O Artista divino revela a santidade que jaz dentro do pó da terra. O dinamismo da revelação é o amor: o amor do artista por seu tema, o amor de Deus pelo homem.
A Divina comédia revela o que significa que seja o amor que move o sol e as demais estrelas. Para a CL, Rimini é uma profissão coletiva de que a beleza é um meio principal dessa revelação. Isso ressoa, certamente, com o papa Leão, filho de santo Agostinho, que chegou tardiamente a amar a beleza, «tão antiga e tão nova». Não há dúvida de que Leão terá lido Ratzinger em Rimini antes de sua visita e oferecerá sua própria leitura da força dinâmica do Amor em uma era digital.
Sobre o autor
O p. Raymond J. de Souza é um sacerdote canadense, comentarista católico e Senior Fellow de Cardus.