Contemplando as estrelas

Contemplando as estrelas
Noche estrellada, de Vincent van Gogh, 1889 [Museum of Modern Art, Nueva York]

Por Stephen P. White

Lembro-me de uma noite de verão sem lua num acampamento no Dakota do Norte, há quase quarenta anos, quando as estrelas eram tão incontáveis e brilhantes que custava distinguir as constelações familiares. A noite era tão negra que mal conseguia ver a minha própria mão à frente do rosto, mas as estrelas pendiam tão densas e tão baixas que pensei que poderia estender o braço e arrancá-las do firmamento como cachos de uvas. Milhares de milhões de estrelas. Era, num sentido mais antigo e mais verdadeiro de uma palavra abusada e desgastada, imponente.

O meu pai, já falecido, adorava astronomia. Conhecia muitíssimas constelações e a maioria dos nomes das estrelas mais brilhantes. Lembro-me de que, nas noites escuras em casa, no Meio-Oeste, ele mas apontava. Logo acima de nós estavam Vega, Altair e Deneb. Formam o Triângulo de Verão. Estava Cassiopeia. E a Coroa Boreal. Lá ao sul, estava Escorpião com a grande gigante vermelha, Antares. Quando chega o outono, Escorpião afunda-se abaixo do horizonte e ergue-se Orion: o grande caçador perseguindo uma presa que nunca alcançará.

Ensinou-me que os nossos olhos veem a cor melhor no centro da atenção, mas que a sensibilidade à luz é um pouco melhor logo além da borda do centro da visão. A estrela ténue que talvez não visses se a olhasses de frente poderia tornar-se apenas visível se olhasses um pouco para um lado ou para o outro. Assim me ensinou a encontrar a galáxia de Andrómeda, o objeto mais distante visível a olho nu. Só a vi uma vez. Mas vi-a.

O pai acabou por ter um telescópio —um instrumento amador de qualidade, com um espelho de oito ou nove polegadas de diâmetro— e tirava-o nas noites limpas para observar a nebulosa do cinturão de Orion, ou para ver os anéis e as luas de Saturno, ou para contemplar o crescente de Vénus seguindo o sol que se punha. O telescópio era realmente excessivo para inspecionar as crateras da lua; para isso, os binóculos eram melhores.

Costumávamos falar dos céus noturnos mais espantosos que tínhamos visto. Havia aquela noite no Dakota do Norte —nunca vi nada igual, nem depois— em que podíamos ver a Via Láctea clara sobre as nossas cabeças, a aurora ao norte e os relâmpagos subindo pelos cumulonimbos, como couves-flores luminosas, ao sul.

Com os anos, apercebi-me de que aquelas noites com o pai, olhando para cima todos aqueles pontinhos de luz antiga e planetas errantes, eram uma espécie de teodiceia.

O pai era médico de família. Passava os dias entre gente doente e que sofria. Ajudou muitos a recuperarem-se e até a prosperarem, mas também sabia que tudo o que fazia era, em última análise, um adiamento. Lutava todos os dias uma batalha perdida contra a mortalidade. Todos a travamos, claro; ele simplesmente via-a com mais clareza que a maioria.

O fascínio do pai pelas estrelas não era meramente terapêutico —embora suponha que também o era—: estava mais próximo da contemplação agradecida. Era um exercício de espanto. Vês que glória insondável fez o Senhor? Que maior remédio para o problema do sofrimento, para o problema da fragilidade humana, do que contemplar com espanto a própria obra de Deus?

O espanto não é, em sentido estrito, uma virtude. Mas imuniza a alma contra o cinismo. O espanto gera humildade e gratidão —que sim são virtudes—, as quais contribuem muito para transformar o sofrimento desta vida de algo que se espera evitar ou pelo menos suportar em algo que se abre à redenção.

E descubro que olhar para cima é um modo notavelmente eficaz de incutir um sentido de espanto.

Durante a maior parte da história humana, o espanto de um céu noturno era algo ordinário de encontrar, mesmo em vilas e cidades. A «poluição luminosa» é uma novidade relativa. Seria simplista sugerir que o nosso mundo moderno esqueceu o seu Criador porque as estrelas já não brilham com a clareza de outrora através do resplendor das nossas cidades. Mas o facto de muita gente neste mundo viver e morrer sem ter visto nunca um céu noturno limpo certamente não ajuda.

O meu pároco sugeriu uma vez a uma sala cheia de pais que aos seus filhos, que em breve fariam a Primeira Comunhão, se devia levá-los fora da cidade para verem as estrelas numa noite clara e escura. Isso, insistiu, seria uma preparação tão importante para a receção desse Sacramento gratuito e espantoso como qualquer outra que lhes ensinassem na sala de aula. Dizia-o a sério. E creio que também tinha razão.

Esta última semana estive fora, no oeste de Michigan, um dos lugares favoritos do pai para olhar as estrelas. Aqui à noite fica escuro. Talvez não tão escuro como no Dakota do Norte, mas muito mais do que os subúrbios da Virgínia, perto de Washington, onde vivo. A minha filha mais velha e eu saímos para ver as estrelas a outra noite. Oxalá me lembrasse de metade do que o meu pai me ensinou, mas ainda consigo orientar-me pelo céu do norte com algo parecido a competência. Apontei Escorpião e Cassiopeia e a Ursa Menor. A Via Láctea estendia-se sobre tudo isso.

De pé junto à minha filha, olhando aquelas estrelas brilhantes, não pude deixar de maravilhar-me com o amor que o Pai tem pelos seus filhos. E que maravilha é sermos convidados a receber e partilhar esse mesmo amor. Dante falou do amor que move o sol e as estrelas. O seu amor move ainda mais do que isso.

Sobre o autor

Stephen P. White é diretor executivo do Saint John Paul II National Shrine e fellow em Estudos Católicos do Ethics and Public Policy Center.

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