O prefeito do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, o cardeal Arthur Roche, assegurou que o papa Leão XIV não modificará as restrições à celebração da Missa tradicional estabelecidas por Traditionis custodes nem restaurará o regime previsto por Bento XVI em Summorum Pontificum.
As declarações foram feitas em uma entrevista concedida ao semanário britânico The Tablet, na qual o purpurado inglês afirmou de maneira categórica: «O papa Leão não vai mudar Traditionis custodes e não vai voltar a Summorum Pontificum.»
Trata-se da primeira afirmação pública de Roche sobre a posição do Pontífice em relação a uma das questões litúrgicas que mais debate tem suscitado na Igreja durante os últimos anos.
A unidade como argumento
Durante a entrevista, o prefeito defendeu que a questão da liturgia tradicional deve ser entendida a partir da perspectiva da unidade eclesial. Recordou que a Eucaristia é «o sacramento da unidade» e sustentou que, se a celebração da Missa se converter em motivo de divisão, «algo vai seriamente mal».
Roche também rejeitou as denúncias de perseguição formuladas por alguns fiéis vinculados à liturgia tradicional. Segundo explicou, quando o Papa concede autorizações conforme a normativa vigente e esses grupos continuam afirmando que são perseguidos, «não podem responder qual é realmente o problema».
Da mesma forma, lamentou o tom de algumas críticas dirigidas contra responsáveis da Igreja e chegou a perguntar-se: «Pode-se dizer honestamente que alguém é católico quando escreve coisas tão cheias de ódio sobre pessoas e sobre a Igreja?».
Defesa da reforma litúrgica
O prefeito precisou que não considera errada a liturgia anterior ao Concílio Vaticano II, mas sustentou que a reforma impulsionada após o Concílio respondeu à necessidade de preparar a Igreja para uma renovada tarefa missionária.
Entre as mudanças introduzidas destacou a ampliação das leituras bíblicas na liturgia e sublinhou uma compreensão distinta da participação dos fiéis na celebração eucarística. Enquanto na forma tradicional o sacerdote atua em representação da assembleia, afirmou, a reforma conciliar põe em relevo que todo o povo batizado participa ativamente na celebração junto com o sacerdote.
As declarações do prefeito não constituem uma mudança de posição. Desde a publicação de Traditionis custodes, Arthur Roche tem sido um de seus mais firmes defensores.
Já em janeiro, durante o consistório extraordinário convocado por Leão XIV, o cardeal tentou situar a questão litúrgica no centro do debate. Roche distribuiu entre os cardeais um extenso documento no qual defendia a reforma litúrgica posterior ao Concílio Vaticano II e justificava as restrições impostas por Francisco à celebração segundo o Missal de 1962. Finalmente, o debate foi adiado e a questão ficou fora da ordem do dia do consistório.
Um debate que continua aberto
As declarações de Roche chegam em um momento em que o futuro da liturgia tradicional continua sendo objeto de intenso debate dentro da Igreja. Desde a promulgação de Traditionis custodes em 2021, numerosas dioceses têm restringido a celebração segundo os livros litúrgicos de 1962, enquanto outras têm buscado vias para manter sua continuidade pastoral.
Além disso, o debate litúrgico deu uma guinada com as consagrações episcopais realizadas pela Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) em Ecône no início de julho.
A consagração de quatro novos bispos sem mandato pontifício desembocou no decreto do Dicastério para a Doutrina da Fé que qualificou o ato como cismático e declarou a excomunhão dos bispos consagrados e de quem participa diretamente com a FSSPX.
Este acontecimento alterou profundamente o clima em torno da questão litúrgica. O foco deixou de estar exclusivamente em Traditionis custodes para centrar-se na ruptura com a FSSPX e nas consequências que essa decisão podia ter para o conjunto do mundo tradicional.
Ao mesmo tempo, numerosas comunidades vinculadas à liturgia tradicional que permanecem em plena comunhão com Roma manifestaram sua preocupação pelo risco de que se identificasse sua situação com a da Fraternidade, insistindo em que a imensa maioria dos fiéis ligados ao usus antiquior continua vivendo plenamente integrada na vida da Igreja.
As palavras do prefeito do Dicastério para o Culto Divino contrastam com essas posições e apontam para a continuidade da linha marcada por Traditionis custodes, embora até o momento Leão XIV não se tenha pronunciado pessoalmente sobre esta questão nem tenha publicado documento algum relativo a uma eventual modificação da normativa vigente.
Crescem as vozes contra Traditionis custodes
Longe de se fechar, o debate se intensificou durante as últimas semanas. Algumas das críticas mais diretas chegaram por parte do cardeal Gerhard Ludwig Müller, que pediu recuperar a plena liberdade para a celebração da Missa tradicional e sustentou que Traditionis custodes «não teve um efeito positivo», mas que terminou reforçando as posições da FSSPX.
Da mesma forma, o arcebispo Georg Gänswein afirmou que Francisco «errou» com Traditionis custodes e defendeu que esse erro deveria ser corrigido. Além disso, revelou a profunda dor que experimentou Bento XVI ao conhecer a publicação do motu proprio que limitava o alcance de Summorum Pontificum.
Neste contexto, as declarações de Roche parecem dirigidas a esfriar as expectativas de quem confiava em uma revisão da política litúrgica iniciada durante o pontificado de Francisco.
As últimas recordações de Francisco
Na entrevista, Roche também evocou seu último encontro com o papa Francisco. Relatou que esteve com ele no dia anterior ao seu falecimento e recordou como o Pontífice insistiu em sair à praça de São Pedro para saudar os fiéis apesar da oposição inicial dos médicos.
Segundo o cardeal, após regressar ao Vaticano e ser deitado novamente em seu quarto, Francisco pronunciou suas últimas palavras: «Obrigado por me levar até o povo».
Roche abordou ainda outras questões relacionadas com a vida da Igreja, defendeu a importância da assistência dominical à Missa como elemento essencial da vida católica e expressou sua preocupação pela evolução da cultura contemporânea em matérias como o aborto e a eutanásia, reivindicando o ensino de Humanae Vitae e a necessidade de preservar a dignidade da vida humana até seu fim natural.
Por enquanto, a única certeza é que o próprio Leão XIV não se pronunciou sobre esta questão. As palavras de Arthur Roche refletem a posição do prefeito do dicastério encarregado da liturgia, mas qualquer eventual modificação —ou confirmação— de Traditionis custodes dependerá, em última instância, de uma decisão do Papa.