Poucas festividades possuem uma ressonância tão profunda na história da Igreja e da Espanha como a de Santiago Apóstol. Cada 25 de julho, a liturgia volta o olhar para aquele pescador da Galileia a quem Cristo chamou junto às margens do lago de Tiberíades e que acabaria se tornando o primeiro dos Doze a derramar seu sangue pelo Evangelho. Há mais de um milênio, sua memória está inseparavelmente unida a Compostela, um dos grandes centros de peregrinação da Cristandade e destino de inúmeros fiéis que, geração após geração, percorreram os caminhos da Europa para venerar suas relíquias.
Mas antes de ser o padroeiro da Espanha ou o santo a quem conduzem os peregrinos, Santiago foi um dos discípulos mais próximos do Senhor, testemunha de sua glória no monte Tabor e de sua agonia em Getsêmani. A riqueza de seu culto, desenvolvida durante séculos na liturgia, na arte e na tradição cristã, explica por que a Igreja continua a honrá-lo como uma das grandes colunas do colégio apostólico.
Um dos três discípulos mais próximos de Cristo
Santiago, filho de Zebedeu e de Salomé, era irmão de são João Evangelista. Ambos exerciam o ofício de pescadores no lago da Galileia quando Jesus os chamou a deixar as redes para segui-lo.
Os Evangelhos situam sempre Santiago entre o grupo mais íntimo do Senhor. Junto com são Pedro e são João forma o círculo dos três discípulos que acompanham Cristo nos momentos mais solenes de sua vida pública. Somente eles contemplaram a ressurreição da filha de Jairo, presenciaram a Transfiguração no monte Tabor e permaneceram perto do Mestre durante a agonia no horto das Oliveiras.
São João Crisóstomo chamava esse reduzido grupo de «príncipes dos Apóstolos», não para estabelecer uma hierarquia entre eles, mas para destacar a confiança especial que Cristo depositou naqueles três testemunhas privilegiadas.
São Marcos acrescenta outro detalhe revelador: Jesus deu a Santiago e a João o sobrenome de Boanerges, «Filhos do Trovão». O apelido reflete o ardor de seu caráter. Quando um povo samaritano se recusou a receber o Senhor, ambos perguntaram se deviam fazer descer fogo do céu sobre seus habitantes. Cristo os repreendeu, recordando-lhes que o Filho do Homem não havia vindo para perder as almas, mas para salvá-las.
Esse mesmo temperamento reaparece quando, por meio de sua mãe Salomé, os dois irmãos solicitaram ocupar os primeiros lugares no Reino de Deus. A resposta de Cristo continha uma profecia: «Meu cálice sim o bebereis». Em Santiago aquelas palavras se cumpririam poucos anos depois.
O primeiro dos Doze a entregar a vida por Cristo
Os Atos dos Apóstolos narram com sobriedade o desfecho de sua vida terrena. Por volta do ano 44, Herodes Agripa I empreendeu uma perseguição contra a Igreja nascente e «matou pela espada a Santiago, irmão de João». O antigo pescador da Galileia tornou-se assim o primeiro Apóstolo a selar com seu sangue a fé que havia anunciado.
A tradição conservada por Eusébio de Cesareia, que recolhe um relato anterior de Clemente de Alexandria, acrescenta um episódio de extraordinária força espiritual. O homem que conduziu Santiago ao tribunal ficou tão impressionado pela serenidade com que confessava a Cristo que acabou se proclamando também cristão. A caminho do suplício pediu perdão ao Apóstolo; este o abraçou com o beijo da paz e ambos foram decapitados juntos.
A cena resume toda a transformação operada pela graça. O «Filho do Trovão», que um dia quisera invocar fogo do céu contra os samaritanos, morria perdoando quem havia contribuído a conduzi-lo à morte.
A tradição apostólica de Santiago na Hispânia
A Sagrada Escritura não narra uma missão de Santiago na Hispânia antes de seu martírio. No entanto, desde os primeiros séculos foi tomando corpo uma tradição que o apresenta anunciando o Evangelho na Península Ibérica após a Ascensão do Senhor.
Segundo essa tradição, a pregação encontrou escassos frutos iniciais e o Apóstolo regressou a Jerusalém, onde sofreria o martírio. Antes de partir teria deixado discípulos encarregados de continuar a evangelização, identificados posteriormente com os Sete Varões Apostólicos, considerados os primeiros bispos e evangelizadores de distintas regiões da Hispânia.
A essa mesma tradição pertence um dos episódios mais arraigados na piedade espanhola: a Vinda da Virgem do Pilar. Quando Santiago pregava em Caesaraugusta —a atual Saragoça— e atravessava momentos de desânimo, a Santíssima Virgem, ainda viva em Jerusalém, lhe apareceu sobre um pilar de jaspe para animá-lo em sua missão. A tradição sustenta que aquela foi a primeira aparição mariana da história e a origem do santuário do Pilar, um dos principais centros de devoção mariana do mundo.
Compostela, um dos grandes faróis da Cristandade
Segundo a tradição, entre os anos 813 e 820 um eremita chamado Pelágio contemplou umas misteriosas luzes sobre o bosque de Libredón, na Galícia. Avisado o bispo Teodomiro de Iria Flavia, as investigações conduziram ao achado de um sepulcro que foi identificado como o do Apóstolo.
Sobre aquele lugar se ergueu a catedral de Santiago de Compostela, destinada a se converter em um dos três grandes centros de peregrinação da Cristandade, junto com Roma e Jerusalém.
Da Escandinávia até a Sicília, da Irlanda até a Europa oriental, começaram a surgir rotas que desembocavam na Galícia. Durante séculos, reis, camponeses, monges, cavaleiros e santos empreenderam o Caminho movidos pela penitência, pela gratidão ou pelo desejo de venerar as relíquias de um dos Apóstolos.
Santiago e a história da Espanha
A devoção ao Apóstolo ficou profundamente unida à história da Espanha cristã durante a Reconquista.
A tradição popular difundiu a advocação de Santiago Matamouros, representando-o como um cavaleiro que acudia em auxílio dos exércitos cristãos frente ao domínio muçulmano.
Mais além da historicidade daquele episódio, a figura de Santiago Matamouros expressa uma realidade histórica inegável: durante séculos os reinos cristãos invocaram o Apóstolo como protetor da Espanha e símbolo da defesa da fé. O grito de «¡Santiago e fecha, Espanha!» acompanhou durante gerações a quem encomendavam a seu padroeiro as empresas militares da Reconquista.
Muito mais que um caminho
Nas últimas décadas, milhões de pessoas percorreram o Caminho de Santiago por motivos culturais, esportivos ou turísticos. No entanto, reduzir Compostela a um fenômeno turístico supõe esquecer aquilo que deu origem a uma das maiores peregrinações da história.
Durante mais de mil anos, homens e mulheres caminharam rumo à Galícia porque ali veneravam as relíquias de um dos Apóstolos de Cristo. Não buscavam unicamente alcançar um destino geográfico, mas empreender um itinerário de conversão, penitência e encontro com Deus.
Esse é o verdadeiro sentido da festividade que a Igreja celebra cada 25 de julho. Santiago não é recordado unicamente pelas tradições nascidas em torno de sua figura nem pela extraordinária história de Compostela. É venerado porque foi um dos primeiros chamados por Cristo, contemplou sua glória no Tabor, permaneceu junto a Ele na noite de Getsêmani e foi o primeiro entre os Doze a selar com seu sangue a verdade do Evangelho.
Por isso, quando a antiga liturgia o aclama como «luz e glória da Espanha», não exalta apenas o padroeiro de uma nação, mas o Apóstolo cuja memória continua iluminando, dois mil anos depois, o caminho da Igreja.