Por Michael Pakaluk
No domingo passado, na pequena paróquia da vila de montanha onde estava de férias, cantaram —surpreendentemente— as nove estrofes do famoso hino de Isaac Watts, “O God Our Help in Ages Past” (“Ó Deus, nosso amparo nos tempos passados”). Foi cantado como hino final, pondo à prova aqueles fiéis mais firmes em não irem para os carros até o fim do canto.
Certamente te lembras da parte que fala do “tempo como um rio que corre sem cessar”. Mas aposto que nunca cantaste estes versos:
As tribos afanosas de carne e osso,
com todas as suas vidas e preocupações,
são arrastadas para baixo pela corrente,
e se perdem nos anos seguintes.
Lúgubre? Sim, e no entanto também verdadeiro. A maioria de nós é esquecida pouco depois de morrer, certamente no que diz respeito ao nosso trabalho. Se tivermos sorte, os filhos e os netos nos lembrarão em suas orações. Mas mesmo os mais piedosos de nós não rezam por nossos tataravós.
Esse hino é muito querido porque nos convida a olhar nossos esforços materiais do ponto de vista de Deus. Vemos que tudo aquilo que agora consideramos importante se reduzirá a nada. Isso deveria nos libertar da preocupação —“a vida não é mais do que o alimento e a roupa?”— se nos entregarmos a Deus.
Esse é um “se” importante. Bertrand Russell, em seu livro A conquista da felicidade, descreve uma técnica ateia que é análoga ao hino: “Quando ameaçar alguma desgraça, considera seriamente e com deliberação o que é o pior que poderia acontecer. Uma vez que tenhas olhado de frente para essa possível desgraça, dá-te razões sólidas para pensar que, afinal, não seria um desastre tão terrível. Essas razões sempre existem, pois, no pior dos casos, nada do que acontece a alguém tem importância cósmica”. Em outro lugar, aconselha: pensa no quão insignificante parecerá tua preocupação dentro de cem anos.
Essa técnica, no entanto, faz desaparecer tanto o bom quanto o mau. Sem Deus, todas as pessoas de nossa vida e todos os nossos bens carecem de importância cósmica. A vida seria “uma história contada por um idiota”. O niilismo estaria justificado. Dentro de cem anos, teu cônjuge não terá nenhuma importância. Passados duzentos, e teu filho também não. Passados mil, e teu país também não. Tudo o que é valioso é arrastado pela corrente e “voa esquecido como um sonho”.
Sabemos que em Cristo nos é prometida a vida eterna. Mas e quanto à imunidade à perda de qualquer bem? Supõe que alguém te dissesse: “Aqui há uma palavra especial, e se dizes esta palavra enquanto fazes algo bom, então o valor dessa boa ação não será arrastado pelo tempo, mas será conservado para sempre”. Não estarías ansioso por conhecer essa palavra e garantir que a uses?
Seria como tantas outras coisas no cristianismo: quase sem esforço podemos adquirir um grande bem, e tudo o que precisamos fazer é não negligenciar os meios oferecidos. Cada dia na vida cristã enfrentamos uma situação como a de Naamã, um general do rei de Aram que buscava curar-se de sua lepra, e o único que tinha que fazer era lavar-se no rio sete vezes. (2 Reis 5)
Refiro-me a oferecer as coisas boas de nossa vida a Deus. Sobre isso, santo Domingo Sávio ou são João Vianney —o Santo Cura de Ars— dizia: “Oh, que coisa tão bela é fazer todas as coisas em união com o bom Deus! Coragem, minha alma; se trabalhas com Deus, certamente farás o trabalho, mas Ele o abençoará; caminharás, e Ele abençoará teus passos”.
Até aqui, fala da bênção. Mas depois passa à conservação: “Tudo será levado em conta, o privar-se de um olhar, de alguma gratificação; tudo ficará registrado”.
Em seu Catecismo, o santo inclusive utiliza a possibilidade de oferecer algo como prova de sua bondade. (Era duro com a dança. Mas aquela série de televisão tão provocativa que te resulta tão cativante, estará Deus satisfeito com que a vejas, como uma oferta?).
Os santos reconheceram dois momentos chave nos quais se pode pronunciar essa “palavra especial” para que abranja cada pensamento, palavra e ação ao longo do dia: a saber, na “oferta da manhã” e na Sagrada Missa.
As ofertas da manhã podem ser curtas e simples, e provavelmente deveriam ser para um leigo. Adoro um par de jaculatórias de são Filipe Neri: “Senhor, hoje é o dia em que começo!” e “Ó Senhor, mantém tua mão este dia sobre Filipe; se não o fizeres, Filipe te trairá”. Mas estas não são, estritamente, ofertas.
A mais bela que conheço é de santa Matilde, a maravilhosa monja beneditina do século XIII, e provavelmente a dama, Matelda, que é elogiada por sua excelsa sabedoria por Dante no Purgatório. As linhas chave de sua oração são:
Único Amado de minha alma, ofereço-te meu coração como uma rosa em flor, cuja beleza possa atrair teus olhos durante todo o dia, e cujo perfume possa deleitar teu Divino Coração.
Ofereço-te também meu coração, para que possas usá-lo como um cálice, no qual possas beber a doçura de teu próprio Ser, junto com tudo o que te dignes realizar em mim durante este dia.
Além disso, ofereço-te meu coração como uma romã, de sabor sumamente doce e digno de teu banquete real, para que ao comê-lo o transformes de tal modo em Ti mesmo que, no futuro, se sinta felizmente dentro de Ti;
e, ao mesmo tempo, rogo-te que cada pensamento, palavra, obra e toda a minha vontade sejam dirigidos hoje segundo o bom prazer de tua muito bondosa Vontade.
Matilde relatou que depois de que Jesus lhe ditou esta oração, acrescentou: “Repete esta palavra em cada uma de tuas ações, quando as começares… e tem confiança em Deus, que a obra que estás fazendo então nunca poderá perecer”.
A palavra do Senhor permanece acima do rio que corre sem cessar.
Sobre o autor
Michael Pakaluk, especialista em Aristóteles e Ordinário da Pontifícia Academia de Santo Tomás de Aquino, é professor de Economia Política na Busch School of Business da Catholic University of America. Vive em Hyattsville, Maryland, com sua esposa Catherine, também professora na Busch School, e seus filhos. Sua coleção de ensaios, The Shock of Holiness (Ignatius Press), já está disponível. Seu livro sobre a amizade cristã, The Company We Keep, já está disponível na Scepter Press. Foi colaborador em Natural Law: Five Views, publicado pela Zondervan no passado mês de maio, e seu livro mais recente sobre o Evangelho saiu com a Regnery Gateway em março, Be Good Bankers: The Economic Interpretation of Matthew’s Gospel. Podes segui-lo no Substack em Michael Pakaluk.