Por Robert Royal
Há pouco assisti ao funeral de um jovem que morreu tragicamente. Tratava-se de uma Missa Tradicional em Latim solene cantada, inteiramente lícita e até ratificada pela presença do nosso bispo local, do seu antecessor jubilado e de algumas dezenas de sacerdotes. Aquela liturgia, no entanto —deixando de lado qualquer consideração alheia—, definitivamente não era algo que devesse ser reduzido às controvérsias em torno das recentes consagrações da FSSPX, ao vai-e-vem sobre Traditionis custodes (a drástica restrição da Missa Tradicional em Latim por parte do Papa Francisco) ou às repercussões de curto e longo prazo de Sacrosanctum Concilium (o documento do Vaticano II sobre a liturgia). Tudo estava dirigido à oração pelo destino eterno da alma deste jovem e das almas de todos nós, as quais —triste é dizê-lo— parecem receber muito pouca atenção hoje na Igreja, mesmo nos funerais.
Foi uma experiência profundamente comovente e me fez pensar, depois, em por que os funerais modernos tão frequentemente não o são. Houve uma mudança massiva na Igreja rumo ao que com frequência se denomina —mesmo nos funerais católicos— “celebrações da vida” de alguém que faleceu. E parece haver uma corrente tácita que subjaz a tudo isso de que, apesar de todas as advertências de Nosso Senhor sobre a estreiteza da porta, todos terminam no Céu.
(Aliás, não adianta culpar Hans Urs von Balthasar ou, mais recentemente, alguém como o bispo Robert Barron, entre outros, por fomentar essa atitude. Notei durante o Rosário antes da missa que a oração de Fátima contém a fórmula: “E leva ao Céu todas as almas, especialmente as mais necessitadas de tua misericórdia”. Claro. A oração não diz que todos se salvam, nem mesmo que muitos o façam. E, na verdade, a julgar pelas Escrituras, nem todos nos salvaremos. Mas certamente expressa essa esperança, que todos deveríamos ter).
Ainda assim, a fácil suposição de que todos ou quase todos se salvam não é apenas uma questão teológica. Temos de reconhecer que basicamente curto-circuita a totalidade da vida cristã, que é, no mínimo, um drama, e muitas vezes uma batalha espiritual. Se não for assim, por que Jesus teve de morrer na Cruz para nos salvar? Por que, inclusive, Ele precisa nos dizer que deixemos tudo e O sigamos?
Sabemos que o trabalho missionário (hoje substituído pela mais elegante, porém mais vaga “evangelização”) também se dissipou nos últimos anos. É descabido pensar que os missionários são agora uma vítima a mais do “diálogo” e do “respeito” brandos e formulários em relação a outras religiões (e a nenhuma) que parecem ter deslocado o mandato de pregar o Evangelho a todas as nações? E isso também é uma consequência da etiqueta atual de que quase todo mundo está eternamente bem, independentemente do que creia ou, com bastante frequência, até mesmo do que faça?
Houve um tempo em que a todos na Igreja, inclusive aos escolares (no meu próprio caso), se ensinava sobre as “quatro últimas coisas”: morte, juízo, inferno e glória. Não havia reservas em falar desses temas definitivos, mas isso foi antes do advento do cristão de cristal. Tudo isso ainda está presente no Catecismo da Igreja Católica (¶ 1020-1060). Mas será que alguém ainda prega essas verdades ou as leva a sério? E quanto falta para que, sem uma atenção renovada às coisas principais, elas desapareçam completamente da catequese?
Existem até mesmo ensinamentos, ensinamentos católicos, no Catecismo sobre o Purgatório. Houve um debate de longa data entre católicos e protestantes sobre se o Purgatório é mencionado na Bíblia. Se se aceita o texto do Antigo Testamento que a Igreja primitiva utilizava, que incluía as orações oferecidas pelos mortos (Macabeus), o Purgatório é a consequência lógica. Não o é se se escolhe o cânon mais reduzido das Escrituras judaicas, como fazem alguns protestantes, o qual teve uma história complexa, mas provavelmente foi definido alguns séculos mais tarde pelo judaísmo rabínico após a destruição de Jerusalém e a dispersão dos judeus.
Se se pensar por um momento, a menos que exista o Purgatório, não faz sentido rezar pelas almas dos falecidos. As famílias e os amigos dos mortos podem reunir-se para chorar e recordar, é claro. Mas sem o Purgatório, não é de estranhar que rezar pelos mortos —mesmo muito tempo depois de sua partida— ou as missas de exéquias tenham perdido a profundidade que a antiga Missa Tradicional em Latim ainda lhes confere.
Isso contrasta fortemente com o conjunto do passado cristão, quando a passagem desta vida para a seguinte era o principal, literalmente questões de vida ou morte eterna.
Ainda há alguns lugares onde essas verdades são compreendidas. E que também compreendem que essa perspectiva sobre a eternidade tem consequências neste mundo também.
Em um recente podcast de “Faith under Siege” (Fé sob cerco), conversei com o arcebispo Bashar Warda, o arcebispo caldeu católico de Erbil, Iraque, onde o cristianismo existe de forma ininterrupta desde aproximadamente o ano 100 d.C. Entre outras coisas marcantes que disse, falou eloquentemente —não tínhamos planejado de antemão— sobre como a Igreja ali enfrenta uma realidade difícil, além das tensões habituais do Oriente Médio.
Aproximam-se deles muçulmanos que sonharam com Jesus e querem saber mais sobre Ele (o Jesus real, não a versão islâmica historicamente errônea). Isso é perigoso, algo que ele diz com franqueza aos que buscam —tanto para eles quanto para a Igreja—, porque a apostasia do islã pode acarretar a morte de todos os envolvidos.
O bom arcebispo lida com essas situações da melhor forma possível, mas confessou que se preocupa em ter de apresentar-se a são Pedro algum dia e prestar contas de como tratou as pessoas que vinham a ele em busca de Jesus Cristo. E ouvem-se histórias semelhantes de muçulmanos na Europa Ocidental e até mesmo no Irã.
É algo bom, mas relativamente mais fácil, buscar a paz com outras religiões, entre as nações e até mesmo com a Criação.
Mas quantos de nós, ao ler isto —incluído o autor destas linhas—, assumimos os maiores riscos de proclamar a Verdade? Só se faz se se puder ver além das coisas presentes, que passarão, e que as últimas coisas são o único que finalmente permanece.
Sobre o autor
Robert Royal é o diretor de The Catholic Thing e presidente do Faith & Reason Institute (Instituto Fé e Razão) em Washington, D.C. Seus livros mais recentes são The Martyrs of the New Millennium: The Global Persecution of Christians in the Twenty-First Century, Columbus and the Crisis of the West e A Deeper Vision: The Catholic Intellectual Tradition in the Twentieth Century.