Uma semana depois de os terremotos de magnitude 7,2 e 7,5 que abalaram a costa norte da Venezuela no dia 24 de junho, o país continua imerso nos trabalhos de resgate, atendimento aos desabrigados e avaliação dos danos. Enquanto milhares de pessoas permanecem fora de suas casas e numerosas famílias continuam procurando seus entes queridos, a emergência começa a evoluir para uma crise humanitária e sanitária que exigirá uma resposta sustentada nos próximos meses.
Segundo o balanço oficial divulgado pelas autoridades venezuelanas, os sismos causaram 1.943 mortos, mais de 10.500 feridos e cerca de 16.000 desabrigados. No entanto, organismos internacionais e entidades humanitárias alertam que o impacto definitivo pode ser maior à medida que avançam os trabalhos de busca e se esclarece o número de desaparecidos. A região de La Guaira figura entre as zonas mais castigadas por uma catástrofe que deixou centenas de edifícios danificados e milhares de famílias sem moradia.
Neste contexto, a Igreja católica reforçou a coordenação de sua resposta pastoral e humanitária. Bispos, sacerdotes, Cáritas e o núncio apostólico trabalham conjuntamente para atender às necessidades mais urgentes da população, ao mesmo tempo que preparam uma segunda fase de assistência orientada à reconstrução material e ao acompanhamento espiritual das comunidades mais afetadas.
A Igreja coordena a resposta nacional
Com esse objetivo, a Conferência Episcopal Venezuelana reuniu em sua sede o núncio apostólico na Venezuela, monsenhor Alberto Ortega Martín; o presidente do episcopado, monsenhor Jesús González de Zárate Salas; os bispos da Província Eclesiástica de Caracas e o clero da diocese de La Guaira para coordenar as linhas de ação da Igreja diante da emergência.

Durante o encontro, monsenhor González de Zárate destacou que numerosas dioceses e paróquias se transformaram desde as primeiras horas em centros de coleta, espaços de oração e locais de acolhimento para os desabrigados. O presidente da Conferência Episcopal sublinhou ainda a necessidade de atender aos próprios sacerdotes de La Guaira, muitos dos quais também sofreram perdas materiais e pessoais enquanto continuam prestando serviço às suas comunidades.
«Nossa intenção é prioritária: ajudar esses cuidadores do povo de Deus para curar suas próprias feridas e assim permitir-lhes continuar prestando auxílio e consolo», afirmou.
Por sua vez, o núncio apostólico confirmou que o papa Leão XIV enviou ajuda material para os afetados e permanece atento à evolução da tragédia. Da mesma forma, anunciou que se esperam novas ajudas provenientes tanto da Santa Sé quanto de outras Igrejas particulares.
A resposta da Igreja também passa pela oração
Junto à ajuda material, as dioceses venezuelanas intensificaram as iniciativas de oração pelas vítimas e por aqueles que participam dos trabalhos de resgate.
Em Maracaibo, a paróquia São Bento de Palermo iniciou jornadas de adoração ao Santíssimo Sacramento que concluem com a recitação do Santo Rosário pelos falecidos, os feridos, os desaparecidos e as equipes de emergência. Os fiéis rezam também para que possam ser resgatadas com vida o maior número possível de pessoas que ainda permanecem sob os escombros.
Essas iniciativas somam-se às eucaristias, vigílias e outros momentos de oração organizados desde o início da emergência em distintas dioceses do país, com o propósito de acompanhar espiritualmente as famílias afetadas e sustentar a esperança das comunidades atingidas pela tragédia.
Cáritas alerta para uma nova fase da emergência
Enquanto continua a coordenação da ajuda, a situação no terreno começa a agravar-se. Em declarações a Vatican News, o diretor de Cáritas La Guaira, o diácono Rubén Perdomo, alertou que a emergência entra agora em uma etapa marcada pelo risco sanitário.
«Ainda temos muitos cadáveres que não puderam ser resgatados de entre os escombros», explicou. Segundo indicou, a escassez de sacos mortuários obrigou a improvisar necrotérios provisórios, enquanto os trabalhos de busca continuam avançando com cautela porque ainda foram realizados resgates com vida vários dias depois dos terremotos.
Perdomo calcula que cerca de 30.000 famílias perderam suas moradias e que muitas pessoas permanecem dormindo nas ruas, parques e espaços públicos à espera de notícias sobre familiares desaparecidos ou de poder iniciar a reconstrução de seus lares.
O responsável de Cáritas destacou também o papel que estão desempenhando as paróquias durante a emergência. «As pessoas estão muito ligadas aos sacerdotes. Estão sentindo a resposta da Igreja», afirmou.
Um plano de ajuda para os próximos meses
Durante a reunião realizada pelo episcopado, a diretora executiva de Cáritas Venezuela, Janeth Márquez, apresentou o denominado Plano 24 por 24, uma estratégia destinada a manter de forma permanente o recebimento e a distribuição de ajuda humanitária através da rede paroquial.
Segundo explicou, em apenas três dias foram enviados mais de 321 caminhões com alimentos, água e outros produtos de primeira necessidade para La Guaira, Caracas, Carabobo e Falcón. A organização trabalha agora junto com as dioceses, organizações sociais e administrações públicas em uma segunda fase orientada a atender às necessidades que surgirão durante as próximas semanas e meses.
Por sua vez, o bispo de La Guaira, monsenhor Pablo Modesto González, explicou que a diocese desenvolve um diagnóstico comunidade por comunidade para identificar as necessidades mais urgentes, restabelecer a comunicação com as zonas ainda isoladas e oferecer acompanhamento psicossocial a quem ficou profundamente afetado pela tragédia.
A solidariedade chega também da Espanha
A mobilização eclesial encontrou eco em outros países. A Arquidiocese de Valladolid deu a conhecer nestes dias o testemunho do padre Aderito García Ramos, missionário claretiano vallisoletano que está há cerca de sessenta anos na Venezuela e reside atualmente em Caracas.
Durante os primeiros dias após os terremotos, a residência dos Missionários Claretianos acolheu vizinhos cujos edifícios apresentavam risco de desabamento. Além disso, o principal salão paroquial foi habilitado como centro logístico de Cáritas Petare para armazenar e distribuir alimentos, água, roupas e colchões entre os desabrigados.
O sacerdote, de 87 anos, fez também um apelo à oração. «É importantíssimo que da Espanha rezem por nós. A oração sempre é importante», afirmou.
A esta iniciativa soma-se o apoio material de Cáritas Espanhola, que destinou uma primeira ajuda de 300.000 euros para responder ao pedido formulado por Cáritas Venezuela. Várias dioceses espanholas anunciaram ainda coletas extraordinárias e celebrações litúrgicas pelas vítimas e suas famílias.
«Reconstruir vidas, reconstruir um povo»
Durante o encontro de coordenação, o arcebispo de Caracas, monsenhor Raúl Biord Castillo, recordou que o desafio que a Venezuela enfrenta vai além da reconstrução de edifícios e infraestruturas.
«O fundamental nesta hora é reconstruir vidas, reconstruir o tecido comunitário e reconstruir um povo», afirmou. O arcebispo pediu também que os processos de acolhimento e realocação respeitem a unidade das famílias, evitando separar pais e filhos durante a emergência.
Com os trabalhos de resgate ainda em andamento e um longo processo de reconstrução pela frente, a Igreja venezuelana se prepara para manter uma presença estável junto às comunidades afetadas, combinando a ajuda humanitária, o acompanhamento pastoral e a oração como parte de sua resposta a uma das maiores tragédias naturais que o país viveu nas últimas décadas.