Aumenta a pressão sobre o cardeal Arborelius: fiéis exigem uma investigação do Vaticano na Suécia

Aumenta a pressão sobre o cardeal Arborelius: fiéis exigem uma investigação do Vaticano na Suécia
The new Cardinal Anders Arborelius, Vatican City, ITALY-28-06-2017 Journalistic use only//AGFEDITORIAL_1119.047/Credit:Pierpaolo Scavuzzo/AGF/SIPA/1706301145

A publicação de uma extensa investigação elaborada durante dois anos por um grupo de fiéis da diocese de Estocolmo sustenta que existe um padrão de decisões arbitrárias, falta de transparência e represálias internas que justificaria uma visita apostólica da Santa Sé. A diocese rejeita as acusações e considera que o documento «não é sério».

A investigação, publicada originalmente em sueco sob o pseudónimo coletivo «Thomas More» e recentemente traduzida para o inglês, foi objeto de uma ampla reportagem da jornalista Diane Montagna. Segundo ela explica, o trabalho baseia-se exclusivamente em testemunhos de primeira mão, documentação e declarações recolhidas durante dois anos entre centenas de sacerdotes, religiosos e fiéis da diocese. Diversas fontes consultadas pela jornalista descrevem o retrato da situação como «muito preciso», enquanto a cúria diocesana nega a validade do relatório.

O pedido de uma visita apostólica surge ainda num momento especialmente delicado. O cardeal Anders Arborelius, de 76 anos, aproxima-se da idade habitual de jubilação e a Igreja na Suécia aguarda a nomeação do seu sucessor. Para os autores do relatório, uma investigação ordenada por Roma permitiria esclarecer o funcionamento interno da diocese antes da sucessão episcopal.

Um suposto «vazio de poder» na cúria

O relatório sustenta que na administração diocesana teria sido criado um «vazio de poder» que permitiu a consolidação de um reduzido grupo de responsáveis com uma influência determinante sobre as decisões de governo. Segundo os seus autores, este núcleo teria atuado contra sacerdotes ou fiéis considerados incómodos ou desleais, gerando um clima de temor especialmente entre parte do clero diocesano.

«Estamos desesperados», afirma um dos sacerdotes citado pela investigação, que descreve uma atmosfera de medo na qual muitos presbíteros evitariam expressar críticas por temor a represálias. Os autores asseguram ter transmitido reiteradamente as suas preocupações tanto à diocese como ao próprio cardeal Arborelius, sem obter resposta.

O caso que centra o primeiro volume da investigação é o do padre Tobias Unnerstål, cuja trajetória se apresenta como o exemplo mais significativo das irregularidades denunciadas.

O sacerdote destituído sem conhecer formalmente a denúncia

O padre Tobias Unnerstål foi pároco de Cristo Rei, em Gotemburgo, entre 2007 e 2022. Durante esses quinze anos a paróquia experimentou um notável crescimento de fiéis, vocações e conversões. A celebração habitual da Missa tradicional atraiu numerosas famílias jovens e o sacerdote impulsionou ainda um projeto para erigir um Oratório seguindo o modelo de são Filipe Néri, iniciativa que havia recebido o apoio escrito do cardeal Arborelius e do vigário-geral em 2020 e que voltou a ser confirmada poucos dias antes da sua destituição.

A situação mudou em fevereiro de 2021, quando um seminarista — hoje sacerdote da diocese — apresentou contra ele uma denúncia por supostos abusos emocionais, psicológicos e espirituais.

Segundo o relatório, o procedimento seguido pela diocese violou desde o início as garantias previstas pelo direito canónico. Embora a denúncia devesse ser notificada ao sacerdote para que pudesse responder, o documento nunca lhe foi entregue. Em abril de 2021 foi convocado para uma reunião com o vigário-geral, onde apenas lhe foram lidos alguns fragmentos da acusação. Até hoje, sustenta a investigação, nunca pôde aceder ao texto completo nem conhecer formalmente as provas utilizadas contra ele.

As acusações referiam-se principalmente a três episódios: a organização do serviço de altar quando o denunciante era acólito, uma ajuda económica entregue a pedido do próprio seminarista e uma fotografia tirada durante uma peregrinação anos antes. O próprio vigário-geral reconheceu durante a reunião que não existia nenhuma acusação de conduta sexual inapropriada entre ambos.

Mesmo assim, o sacerdote assegura que lhe foi apresentada uma alternativa: admitir as acusações ou enfrentar uma suspensão ministerial. Aceitou inicialmente essa interpretação, embora posteriormente tenha retirado integralmente aquela admissão alegando que havia atuado sob pressão e que as conclusões extraídas de cada facto eram erróneas.

Uma campanha para impedir o Oratório

A investigação presta especial atenção ao papel desempenhado por Birgitta Gelotte, antiga colaboradora paroquial e amiga do denunciante.

Segundo o relatório, anos antes da denúncia já havia difundido entre distintos sacerdotes acusações contra o padre Tobias, qualificando-o de alcoólico e homossexual, afirmações que diversos testemunhos consideram falsas. Numa carta privada redigida em julho de 2021, a própria Gelotte reconheceria que decidiu intervenir quando soube que o sacerdote pretendia fundar um Oratório em Gotemburgo.

«Sabia que devia fazer tudo o possível para o impedir», escreveu, segundo reproduz o relatório.

Nesse mesmo documento afirma ainda que durante anos trabalhou para convencer o seminarista a reinterpretar a sua relação com o sacerdote até conseguir que partilhasse a sua visão dos factos. Para os autores do relatório, estas afirmações questionam seriamente a origem da denúncia e a forma como foi construída.

Destituição, restrições e vitória nos tribunais

Em janeiro de 2022 o cardeal Arborelius comunicou ao sacerdote a sua saída da paróquia de Cristo Rei. O anúncio foi apresentado publicamente como uma nova nomeação para coordenar a pastoral ligada à Missa tradicional em toda a diocese, embora poucos dias depois tenham começado a impor-se-lhe restrições progressivas.

Primeiro proibiu-se-lhe trabalhar com menores e jovens; posteriormente foi afastado do ministério pastoral ordinário, embora continuasse a celebrar a liturgia tradicional e a atender algumas comunidades religiosas. Os seus antigos fiéis reagiram com uma campanha de apoio que reuniu centenas de assinaturas e testemunhos descrevendo-o como um sacerdote próximo, dedicado e responsável pelo renascimento espiritual da paróquia.

Em novembro de 2024 a situação deu uma nova volta quando o cardeal decretou a sua suspensão e revogou todas as suas faculdades ministeriais. O sacerdote recorreu da decisão tanto pela via canónica como pela civil.

A ação apresentada perante os tribunais suecos concluiu em junho de 2025 com uma resolução favorável ao sacerdote. A diocese aceitou as pretensões formuladas na ação, o que levou o tribunal a anular o despedimento e a condená-la ao pagamento de aproximadamente 240.000 coroas suecas a título de indemnização e custas processuais.

O relatório critica que o comunicado oficial emitido pela diocese após a sentença omitisse que havia perdido o processo judicial e apresentasse o desfecho como uma simples finalização da relação laboral conforme a legislação sueca.

O Dicastério declarou inválida a suspensão

O caso chegou posteriormente ao Dicastério para o Clero.

A 5 de maio de 2026 o organismo romano concluiu que a suspensão imposta em novembro de 2024 havia sido adotada sem seguir o procedimento canónico adequado e declarou-a inválida.

Não obstante, o Dicastério manteve durante três anos diversas restrições ao ministério do sacerdote, apoiando-se em documentação que, segundo a investigação, nunca foi facilitada ao próprio interessado. O decreto impede-o de celebrar publicamente a Missa — salvo junto ao ordinário do lugar —, de pregar e de confessar, embora também estabeleça que a diocese continua obrigada a garantir o seu sustento económico independentemente da indemnização civil já recebida.

Os autores do relatório consideram especialmente grave que as limitações continuem baseando-se em documentos que o sacerdote nunca pôde conhecer nem rebater.

O contraste com o seu sucessor

A investigação contrapõe o tratamento recebido pelo padre Tobias com o de quem foi designado para o substituir em Cristo Rei, o padre Pär-Anders Feltenheim.

Segundo o relatório, este sacerdote acumulava há décadas numerosas queixas relacionadas com o seu comportamento perante jovens e com a forma de exercer o ministério. Os autores sustentam que várias dessas denúncias haviam sido investigadas anteriormente por responsáveis da diocese e haviam motivado restrições pastorais.

Apesar disso, foi nomeado pároco de uma das comunidades mais importantes da Suécia. Apenas em 2025 foi afastado discretamente das suas funções após novas acusações relacionadas com a sua atividade na internet. A diocese apresentou publicamente a sua saída como um ano sabático motivado pelo esgotamento, sem fazer referência às investigações internas que, segundo diversas fontes citadas pelo relatório, teriam provocado realmente a sua substituição.

A diocese rejeita as acusações

Consultado por Diane Montagna, monsenhor Jorge de Salas, vigário episcopal para assuntos jurídicos da diocese de Estocolmo, rejeitou de forma categórica as conclusões do relatório.

Afirmou que a investigação era «anónima», fruto «de muita raiva» e «não séria», insistindo várias vezes nessa qualificação durante a conversa telefónica. Relativamente ao caso do padre Tobias, sustentou que a diocese havia realizado «uma investigação adequada», embora tenha acrescentado que o seu conteúdo corresponde exclusivamente à diocese e ao Vaticano.

Uma crise que Roma deverá avaliar

O caso do padre Tobias não constitui um episódio isolado, mas a manifestação de um modo de governo que teria permitido afastar um sacerdote sem garantir plenamente o seu direito de defesa enquanto outros clérigos com um historial problemático continuavam a ocupar responsabilidades pastorais.

A Santa Sé não anunciou até ao momento a abertura de nenhuma visita apostólica. No entanto, a difusão internacional da investigação e a proximidade da sucessão do cardeal Arborelius colocam a diocese de Estocolmo sob um crescente escrutínio. Se Roma decidir intervenir, o caso poderá tornar-se uma das investigações sobre governo episcopal mais relevantes dos últimos anos no norte da Europa.

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