O cardeal Pierre revisita seu legado nos Estados Unidos e defende a continuidade entre Francisco e Leão XIV

O cardeal Pierre revisita seu legado nos Estados Unidos e defende a continuidade entre Francisco e Leão XIV
Cardinal Christophe Pierre . Concistoro in St Peter, for creation new cardinals. Vatican City 30 September 2023//AGFEDITORIAL_AGF1070/Credit:Maria Laura Antonelli / A/SIPA/2309301803

A ponto de concluir sua missão como núncio apostólico nos Estados Unidos após quase uma década no cargo, o cardeal Christophe Pierre concedeu uma extensa entrevista na qual repassa alguns dos principais acontecimentos de sua trajetória diplomática, reflete sobre o legado do papa Francisco, avalia o pontificado de Leão XIV e expressa sua visão sobre a situação da Igreja estadunidense e o contexto internacional atual.

Em uma conversa publicada pelo National Catholic Register, o diplomata francês, que regressará a Roma para assumir novas tarefas a serviço da Santa Sé, recordou que durante boa parte de sua missão em Washington propôs-se uma tarefa muito concreta: «Durante a maior parte de minha missão, minha tarefa foi explicar o papa Francisco aos Estados Unidos e explicar os Estados Unidos ao papa Francisco».

Uma vida a serviço da diplomacia vaticana

Pierre deixa para trás uma carreira diplomática de quase meio século, com destinos em países tão diversos como Nova Zelândia, Moçambique, Zimbábue, Cuba, Brasil, Haiti, Uganda, México e Estados Unidos.

Durante esses anos enfrentou situações especialmente complexas, desde a crise da aids na África até a violência política no Burundi ou as negociações para garantir a liberdade religiosa no México. Desde sua chegada a Washington em 2016, percorreu grande parte do território estadunidense para conhecer de primeira mão a realidade das dioceses e ajudar o Santo Padre na nomeação de novos bispos.

Ao recordar esta etapa, o cardeal destacou especialmente a acolhida recebida pelos católicos estadunidenses. «Visitei a maioria das dioceses. Estive quatro ou cinco vezes no Alasca, no Havaí, na Califórnia, na Flórida… A beleza e a diversidade do país são extraordinárias», afirmou.

Aparecida e a visão de Francisco

Para o purpurado tem grande importância o Documento de Aparecida, elaborado pelo episcopado latino-americano em 2007 e cuja redação esteve marcada pela participação do então cardeal Jorge Mario Bergoglio.

Segundo Pierre, quando chegou aos Estados Unidos descobriu que muitos responsáveis eclesiais mal conheciam aquele texto, que considera fundamental para compreender o pontificado de Francisco.

«Em Aparecida, os bispos viram a ruptura na transmissão da fé e dos valores, a fragmentação da sociedade e os desafios da modernidade. Compreenderam que era necessário recomeçar a partir de Cristo», explicou.

Para o cardeal, o encontro supôs «um ponto de inflexão deste século» e permitiu desenvolver uma nova reflexão evangelizadora que posteriormente encontrou continuidade na exortação apostólica Evangelii Gaudium.

Leão XIV, em continuidade com Francisco

Pierre também se referiu ao atual pontificado, rejeitando qualquer interpretação de ruptura entre Francisco e Leão XIV.

«Quando se ouve o Santo Padre, vê-se uma total continuidade com o que começou Francisco», assegurou.

O cardeal destacou a insistência de Leão XIV no Concílio Vaticano II e sublinhou que o próximo consistório estará dedicado precisamente a refletir sobre Evangelii Gaudium, um dos documentos programáticos mais importantes do pontificado anterior.

Em uma das afirmações mais chamativas da entrevista, definiu o novo Pontífice como «antes de tudo, um bispo latino», apesar de ter nascido nos Estados Unidos, devido à profunda influência que sua experiência pastoral na Hispano-América teve em sua visão da Igreja.

Da mesma forma, descreveu tanto Francisco quanto Leão XIV como figuras proféticas. «O profeta é quem anuncia o Evangelho no mundo de hoje. Leão não quer se tornar um político. Quer anunciar a boa notícia de Cristo», afirmou.

A Igreja estadunidense e o risco da ideologização

Ao longo da conversa, Pierre retomou algumas reflexões que já havia formulado no passado sobre a vida eclesial nos Estados Unidos.

O núncio considerou que durante anos parte do catolicismo estadunidense ficou excessivamente condicionado pela lógica do confronto político.

«De certo modo, o catolicismo nos Estados Unidos se converteu em uma espécie de partido político», assinalou. A seu juízo, o risco de qualquer ideologia consiste em reduzir a complexidade da realidade a um único conjunto de ideias e terminar vendo o adversário como um inimigo.

No entanto, também quis destacar os aspectos positivos da Igreja norte-americana. «Não conheço outro país onde a contribuição dos católicos à sociedade seja tão extraordinária», afirmou ao referir-se à rede de paróquias, hospitais, universidades e obras educativas erguidas por gerações de fiéis.

O cardeal mostrou ainda uma avaliação especialmente positiva do sistema educativo católico estadunidense, que considera uma das grandes conquistas históricas da Igreja no país.

O caso Viganò, uma questão que continua sem compreender

Entre os momentos mais difíceis de sua etapa em Washington, Pierre mencionou a crise provocada por seu predecessor, o arcebispo Carlo Maria Viganò, que em 2018 pediu a renúncia de Francisco e que posteriormente foi excomungado.

Embora tenha evitado aprofundar na polêmica, reconheceu que continua sem entender as decisões adotadas pelo antigo núncio.

«Respeito-o, mas continuo desconcertado. Não consigo compreender a posição deste meu irmão», confessou.

O cardeal explicou que continua considerando Viganò um irmão no episcopado e admitiu que este episódio foi uma das experiências mais dolorosas de sua trajetória eclesial.

Paz, diplomacia e diferenças com Washington

Na parte final da entrevista, Pierre abordou a situação internacional e confirmou que recentemente manteve conversas com responsáveis do Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

Segundo explicou, existem diferenças significativas entre a visão diplomática da Santa Sé e algumas orientações da política exterior estadunidense.

O cardeal insistiu em que a principal mensagem de Leão XIV desde o início de seu pontificado tem sido a defesa da paz. «A primeira palavra que Leão XIV utilizou desde o balcão foi “paz”», recordou.

Em referência aos conflitos atuais, rejeitou que a guerra possa se converter em um instrumento de negociação. «Não se vai à guerra para negociar. Negocia-se para evitar a guerra», afirmou.

Pierre expressou também sua preocupação com o que considera uma crescente tendência a privilegiar a força sobre o diálogo nas relações internacionais, uma evolução que, a seu juízo, contrasta com a tradição diplomática defendida historicamente pela Santa Sé.

Após quase dez anos em Washington, o cardeal deixa os Estados Unidos convencido de que a missão da Igreja continua sendo anunciar o Evangelho em meio a um mundo cada vez mais polarizado, mantendo sempre abertas as vias do diálogo e a busca da paz.

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