Convém começar por entender o que disse exatamente José Enrique Escardó e por que isso importa, porque não estamos diante de um crítico a mais de Jordi Bertomeu. Escardó é o primeiro denunciante público da violência do Sodalício —desde o ano 2000—, o sobrevivente mais visível do caso e a voz que encabeçou as vítimas durante um quarto de século. É também o homem que em 2025 saiu em defesa de Robert Prevost contra as acusações de encobrimento em Chiclayo, qualificando-as de «absolutamente falsas» e atribuindo-as a uma campanha do próprio Sodalício para impedir que chegasse a ser Papa. E é, finalmente, parte do mesmo entorno de vítimas que não faz muito tempo pedia a Roma que respaldasse o comissário. Quando alguém com essa folha de serviços rompe publicamente com Bertomeu, não assistimos a uma crítica: assistimos ao desmoronamento do aval que legitimava moralmente todo o processo.
A ruptura, além disso, é explícita e vai ao osso. Escardó sustenta que o papa Francisco lhe assegurou que assinaria tudo o que lhe pedisse em relação a Bertomeu, e que o comissário, sabendo disso, «em nenhum momento aceitou nem a mais mínima sugestão de uma vítima»; que faz «o que ele quer»; e que o que quer é «tornar-se conhecido para ser promovido na Igreja enquanto engana as vítimas». A acusação não é teológica nem doutrinal: é operativa. Acusa de não ouvir precisamente o homem que personifica o «canal de escuta». Convém afastar a folhagem retórica —que Escardó chame a Igreja de «a instituição mais corrupta da Terra» é uma hipérbole de lesado que cada um ponderará como quiser—, porque a censura concreta sobrevive sem ela, intacta: o gestor da reparação instrumentaliza aqueles a quem diz reparar.
E há ainda algo mais devastador. Reafirmando-se como primeiro denunciante, Escardó afirma que a supressão do Sodalício «foi apenas nominal», que a estrutura continua operando «com outros nomes e testas de ferro» e que as escutas e reparações são «baldes de água fria para acalmar algumas vítimas e enganar a opinião pública». É, palavra por palavra, o diagnóstico que meios como este vêm documentando há meses —o emaranhado patrimonial intacto, Figari vivo e sustentado, nenhuma real abertura do véu societário—, mas formulado agora a partir do único lugar que nenhuma campanha pode deslegitimar: o da vítima fundacional. Quando coincidem no diagnóstico o denunciante histórico e o meio crítico, embora cheguem por caminhos opostos, ao gestor que fica no meio já não lhe resta narrativa.
Porque o que Escardó acrescenta não cai no vazio. Cai sobre um expediente que Roma conhece de sobra e que não deixou de engrossar. O comissário que conseguiu que um Francisco idoso e debilitado assinasse uma ameaça de excomunhão contra os dois leigos que o haviam denunciado —decreto que o próprio Papa revogou de próprio punho ao compreender o disparate jurídico que lhe haviam colocado diante—. O comissário em cujo entorno surge uma denúncia falsa contra um sacerdote crítico vinte e dois dias depois de este ter levantado a voz, com uma suposta vítima que nem assinou o documento nem conhecia sua existência. O comissário que, fora do microfone, despacha o país que investiga como «uma selva» onde cada um «se vira como pode». O instrutor que foi, sucessivamente, redator do relatório, autor das notas de imprensa da Nunciatura, juiz de facto e liquidante daquilo que ele mesmo havia investigado: fiscal, juiz, algoz e notário de sua própria obra. E, enquanto isso, uma das associações afetadas o leva aos tribunais na Espanha, com audiência marcada para 22 de junho. Não é uma suspeita acumulada: é um padrão documentado.
E aqui está o que de verdade surpreende, porque não é Bertomeu. Funcionários com mais apetite de protagonismo que solidez técnica sempre existiram; é uma espécie conhecida e, no fundo, menor. O que resulta extremamente difícil de explicar é o empenho de Leão XIV em sustentá-lo. Falamos do Papa que conhece o Peru melhor que nenhum pontífice recente —vinte anos de pastoral, o bispado de Chiclayo incluído—, que tem o expediente completo sobre a mesa, que viu ruir até mesmo o respaldo das próprias vítimas e que, ainda assim, em novembro nomeou três comissários adjuntos precisamente para reforçar a gestão questionada. Prevost recebeu, dos críticos, dos canonistas e agora do primeiro denunciante do caso, exatamente o mesmo conselho convergente: que este comissário prejudica mais do que repara. E decidiu, contra todos eles, mantê-lo. Que um pontificado que cimentou boa parte de seu crédito antiabusos sobre o caso Sodalício se obstine em conservar a única figura que o está erodindo é, simplesmente, a pergunta sem resposta de todo este assunto.