Morte na Sexta-feira Santa: Vittorio Messori, E.P.D.

Morte na Sexta-feira Santa: Vittorio Messori, E.P.D.
Vittorio Messori in his study in Desenzano, 2004 [source: Wikipedia]

Pelo Pe. Raymond J. de Souza

Uma morte na Sexta-feira Santa — mesmo para um gigante católico dos últimos cinquenta anos — fez com que se lhe prestasse menos atenção do que a merecida. Por outro lado, resultou bastante apropriado para o autor de Patì sotto Ponzio Pilato? (Padecera sob o poder de Pôncio Pilatos?).

Vittorio Messori, a poucos dias de completar 85 anos, faleceu na noite da Sexta-feira Santa do mês passado, encerrando uma das vidas católicas mais importantes das últimas gerações, uma vida que moldou a forma como as pessoas pensam sobre Cristo e sobre o Seu Vigário na terra. Messori deu uma forma definitiva ao modo como se ouvem as vozes dos papas e, portanto, ao papado em nosso tempo.

Os católicos conhecem bem o impacto que pode ter um jornalista convertido, ainda mais do que um teólogo talentoso. Os anglófonos têm G.K. Chesterton, Malcolm Muggeridge e Richard John Neuhaus, e os francófonos, André Frossard.

Messori cresceu em uma família italiana comunista e anticlerical, sendo um estudante do racionalismo que professava o agnosticismo. Em 1964, durante o recesso de verão de seus estudos universitários, experimentou algo parecido com uma conversão instantânea após ler o Evangelho de Mateus.

Aplicou seu racionalismo à sua recém-professada fé católica. O que a razão podia nos dizer sobre as afirmações católicas e sua coerência? Em uma época em que a apologética estava caindo em desuso, Messori dedicou-se, com a mentalidade e as habilidades de um jornalista, a um projeto que lhe consumiria mais de uma década.

Em 1976 publicou em italiano Hipóteses sobre Jesus, o fruto de seu trabalho, recorrendo à história, à razão, aos dados e à experiência para formular argumentos a favor da fé. Foi uma sensação que vendeu mais de um milhão de cópias na Itália e que foi traduzido em todo o mundo. Isso transformou Messori em uma figura cultural de primeira ordem: um jornalista católico, não simplesmente um jornalista. Tornou-se o principal apologista da Igreja na década de 1970, uma testemunha leiga que interpelava ateus, materialistas e comunistas sobre a razoabilidade da fé.

Em 2002, adotou a mesma abordagem em relação à paixão, examinando a evidência extrabíblica da crucificação e morte de Jesus em Padecera sob o poder de Pôncio Pilatos?

A maior influência de Messori, no entanto, não se deu com sua própria voz, mas em dois livros-entrevista que realizou: Relatório sobre a fé: Uma entrevista exclusiva sobre o estado da Igreja (1985) e, com o Papa João Paulo II, Atravessando o limiar da esperança (1994). O formato de livro-entrevista, hoje habitual para os altos prelados, foi um gênero que Messori não inventou, mas elevou.

Em 1984, André Frossard havia publicado Não tenham medo (em francês), fruto de extensas conversas com São João Paulo, o Grande. O livro teve pouco impacto.

Ao mesmo tempo que se lançava o livro de Frossard, Messori persuadiu o cardeal Joseph Ratzinger a sentar-se durante vários dias para conceder entrevistas sobre o estado da Igreja, cerca de vinte anos após o Vaticano II. O prefeito da doutrina, e figura mais importante da Cúria Romana, foi implacável em suas francas críticas a uma série de tendências lamentáveis, rejeitando o que mais tarde chamaria de «hermenêutica da ruptura» e até mesmo utilizando a inflamável palavra «restauração».

João Paulo II havia convocado um «sínodo extraordinário» para outubro de 1985 a fim de avaliar as luzes e sombras do período pós-conciliar. Este daria origem ao Catecismo da Igreja Católica de 1992. A entrevista de Messori com Ratzinger fixou os termos do debate, para frustração daqueles progressistas que perceberam que o livro de Ratzinger era um ponto de inflexão.

«Este é um sínodo sobre um concílio, não sobre um livro!», protestou o cardeal Godfried Danneels da Bélgica. Era, mas o livro forneceu o roteiro do sínodo.

Messori propôs uma entrevista televisiva sem precedentes com João Paulo II para o décimo quinto aniversário do pontificado em 1993. O Santo Padre aceitou, mas a entrevista nunca chegou a ser realizada. João Paulo II ficou com as perguntas que Messori queria lhe fazer e lhe entregou respostas por escrito para que fizesse com elas o que considerasse melhor. O resultado foi Atravessando o limiar da esperança, um fenômeno editorial que colocou o Papa em conversa com milhões de pessoas. As perguntas de Messori não versavam sobre as supostas controvérsias que sempre levantam os jornalistas. Perguntou sobre a oração do Papa, sobre outras religiões, sobre a esperança e o sentido.

A edição papal a título pessoal explodiu a partir de então. João Paulo II escreveria uma breve memória para o quinquagésimo aniversário de sua ordenação sacerdotal —Dom e mistério (1996)— e depois mais duas. Enquanto isso, o cardeal Ratzinger faria dois livros-entrevista com Peter Seewald, depois outro enquanto era Papa e mais um após a abdicação.

O Papa Bento XVI escreveria seus três livros de teologia bíblica, Jesus de Nazaré, sendo Papa, e o Papa Francisco geraria dezenas de títulos: tantos livros-entrevista que era difícil contar.

Messori mudou assim a forma como os papas falavam ao mundo, diretamente por meio dos jornalistas. O pontificado de Francisco plasmou-se com maior precisão na entrevista que concedeu em agosto de 2013 ao Pe. Antonio Spadaro do que em Evangelii gaudium, publicada alguns meses depois.

As coletivas de imprensa a bordo de aviões de Francisco e as entrevistas improvisadas fora de Castel Gandolfo com Leão podem gerar problemas desnecessários — como o próprio Bento descobriu a bordo do avião papal —, mas a Igreja nunca encontra o equilíbrio adequado até que primeiro o supere.

Há duas semanas, o Vaticano celebrou seu Dia Mundial das Comunicações Sociais anual, que antes se centrava no jornalismo, mas que ampliou seu enfoque nos últimos anos. A mensagem oficial de Leão instava a preservar «as vozes e os rostos humanos»:

Nossos rostos e vozes são traços únicos e distintivos de cada pessoa; revelam a própria identidade irrepetível de alguém e são os elementos definidores de cada encontro com os outros.

Messori nos deu as vozes dos papas de maneira direta e sem filtros por meio de um encontro pessoal: a entrevista. Messori antecipou assim nosso momento cultural saturado de entrevistas, onde nos podcasts e no YouTube todo mundo entrevista todo mundo sem fim. O mundo também luta para manter seu equilíbrio.

A obra de Messori foi uma bênção, assim como sua devota vida católica. Morreu no dia em que Jesus padeceu sob o poder de Pôncio Pilatos. Que conheça agora a luz da ressurreição.

O Pe. Raymond J. de Souza é um sacerdote canadense, comentarista católico e membro sênior de Cardus.

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