O Vaticano esclarece a polêmica sobre a condecoração ao embaixador iraniano

O Vaticano esclarece a polêmica sobre a condecoração ao embaixador iraniano

A Santa Sé reagiu às interpretações difundidas por vários meios iranianos sobre a recente condecoração atribuída ao embaixador do Irão junto à Santa Sé, Mohammad Hossein Mokhtari. Tanto o gabinete de imprensa vaticano como a embaixada dos Estados Unidos junto à Santa Sé esclareceram que não se tratou de um reconhecimento extraordinário concedido pessoalmente pelo Papa Leão XIV, mas de uma distinção protocolar que os embaixadores acreditados junto à Santa Sé recebem habitualmente após cumprirem pelo menos dois anos de serviço diplomático.

O esclarecimento chega após a controvérsia gerada nas redes sociais e nos meios internacionais a partir de informações publicadas pela imprensa estatal iraniana, que apresentaram a entrega da Grande Cruz da Ordem Piana como um gesto singular de apoio do Pontífice ao diplomata iraniano e até à política externa de Teerão. Algumas dessas publicações afirmavam que o Papa havia distinguido o embaixador pelos seus esforços “em favor da paz, do diálogo e das relações bilaterais”.

Infovaticana informou ontem sobre a concessão desta distinção ao representante iraniano, recolhendo tanto o contexto diplomático habitual deste tipo de reconhecimentos como a controvérsia suscitada pelo momento político em que se produziu. Naquela informação, já se indicava que a Ordem de Pío IX costuma ser concedida de maneira ordinária a embaixadores acreditados junto à Santa Sé após alguns anos de serviço, embora vários meios iranianos tenham tentado apresentar o gesto como um sinal político significativo de Leão XIV no meio das tensões internacionais relacionadas com o Irão.

Agora, tanto a embaixada norte-americana junto à Santa Sé como o próprio Vaticano precisaram publicamente o caráter rotineiro da condecoração. “Contrariamente a algumas informações, o Papa Leão não concedeu uma honra especial exclusiva ao embaixador iraniano junto à Santa Sé”, indicou a delegação diplomática norte-americana nas redes sociais. “Esta condecoração é concedida a todos os embaixadores acreditados junto à Santa Sé após mais de dois anos de serviço e é uma prática habitual há muitos anos”.

Treze embaixadores receberam a mesma distinção

Conforme explicou Vatican News, o ato teve lugar no passado dia 12 de maio no Vaticano, coincidindo com o aniversário da eleição pontifícia. No total, treze diplomatas receberam as tradicionais condecorações reservadas a embaixadores com mais de dois anos de missão junto à Santa Sé.

A cerimónia foi presidida pelo monsenhor Paolo Rudelli, substituto para os Assuntos Gerais da Secretaria de Estado, que entregou as insígnias e os pergaminhos correspondentes aos diplomatas distinguidos com o título de Cavaleiro ou Dama de Grande Cruz da Ordem Piana.

Os diplomas estavam assinados pelo cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano, e a entrega não foi realizada pessoalmente pelo Papa Leão XIV, outro dos pontos que havia sido exagerado por alguns meios iranianos.

O que é a Ordem de Pío IX

A condecoração entregue ao embaixador iraniano corresponde à Ordem de Pío IX, também conhecida como Ordem Piana, uma das principais ordens de cavalaria pontifícias.

A ordem foi criada originalmente pelo papa Pío IV em 1560 e restaurada posteriormente pelo beato Pío IX em 1847. Atualmente, conta com distintos graus, sendo a Grande Cruz a categoria que costuma ser concedida a embaixadores acreditados junto à Santa Sé ou a leigos distinguidos por serviços relevantes.

Embora tecnicamente existam outras ordens pontifícias de rango superior —como a Suprema Ordem de Cristo ou a Ordem da Espora de Ouro— ambas levam décadas praticamente inativas. Na prática, a Ordem de Pío IX é hoje a mais alta distinção diplomática ativa da Santa Sé.

Entre as personalidades que receberam esta condecoração figuram o rei Juan Carlos I de Espanha, o rei Alberto II da Bélgica, o rei Carlos XVI Gustavo da Suécia e recentemente o rei Carlos III do Reino Unido.

A controvérsia política em torno do reconhecimento

A polémica não surgiu tanto pela concessão da ordem em si, mas pelo contexto político em que se produziu e pela interpretação que vários meios iranianos fizeram. Segundo recolheu EWTN News, a agência estatal iraniana IRNA afirmou que o Vaticano havia concedido ao embaixador iraniano “a mais alta honra diplomática do Vaticano” em reconhecimento aos seus esforços por promover “a coexistência pacífica, a sabedoria, a tolerância e o diálogo inter-religioso”.

Algumas publicações iranianas chegaram mesmo a ligar a condecoração às recentes declarações de Leão XIV contra a escalada militar no Médio Oriente e às suas críticas às ações bélicas dos Estados Unidos e de Israel.

A embaixada norte-americana insistiu ainda que o reconhecimento “não implica apoio nem oposição a nenhuma política ou país” e sublinhou que embaixadores anteriores dos Estados Unidos junto à Santa Sé também receberam exatamente a mesma condecoração protocolar.

Desta forma, o Vaticano tratou de desativar as interpretações políticas surgidas após a difusão das notícias nos meios iranianos, num contexto internacional especialmente delicado e marcado pelas crescentes tensões no Médio Oriente.

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