TRIBUNA. O Senhor me ungiu para dar a liberdade aos cativos

Por: Luis López Valpuesta

TRIBUNA. O Senhor me ungiu para dar a liberdade aos cativos

Enquanto a cidade onde habito é notícia internacional por uma festa local —a Feira de Abril—, tão artificiosa e efêmera quanto desprovida de virtudes teologais e cardeais, o Vigário de Cristo partiu para a África para proclamar a Boa Nova de Jesus. E concluiu sua viagem no único país hispanófono do continente, uma antiga colônia espanhola, Guiné Equatorial, regida por décadas por um ditador de punho de ferro; mais concretamente, sua última visita foi a uma prisão dessa nação. Mas o notável foi que muitos de seus reclusos —meus irmãos na fé católica (e, sem dúvida, mais irmãos do que tantos neopagãos com os quais convivo e me cruzo dia a dia em minha mariana cidade)— celebraram sua vinda com um canto e uma dança que tocaram o coração de Leão XIV. Mas também —e de que modo— o meu.

No pátio dessa prisão, os presos executaram uma performance cuja letra rezava assim:

«Nosso Santo Padre, damos-te graças, ora por nossos pecados e nossa liberdade; arrependemo-nos de tudo o que aconteceu em nossas vidas; muitos fomos enganados pelo diabo e outros por más influências. Mas temos a esperança de recuperar nossa liberdade. Somos crentes, nunca seremos esquecidos conforme a lei, conforme a vontade de Deus. Nosso Santo Padre, damos-te graças, ora por nossos pecados e nossa liberdade».

Falavam de pecado, de arrependimento, do diabo e seus enganos, da liberdade, da esperança, da oração, do agradecimento, da vontade de Deus sobre suas vidas… em suma, do que é a própria essência do cristianismo, palavras que deixaram de ser ouvidas hoje na Europa e em nosso mundo ocidental. Ao concluir a dança-cançao, eu estava profundamente comovido, pois imediatamente associei esse momento a um dos passagens mais sublimes do Evangelho, narrado apenas por Lucas (Lc. 4, 16-30): o anúncio cristão da liberdade aos cativos.

Lembremos que o Senhor acabara de vencer o diabo em seu primeiro assalto, quando este o tentou no deserto. O pai da mentira lhe disse expressamente que tudo do mundo lhe pertencia. Às vezes imagino que o que foi mostrado ao Senhor naquele monte altíssimo foi uma paisagem semelhante ao Real da Feira —em cujo limite se situa significativamente a denominada rua do Inferno—; Real onde todo excesso e vício estabelece seus reais. Se Ele era —como dizia— o Filho de Deus, suas ações —pensou o diabo— deveriam ser tão espectaculares quanto as de um Júpiter; por isso, sua tentação se centrou no prazer, na fama e, acima de tudo, no poder. Mas, surpreendentemente, o divino Jesus era a antítese de tudo o que os vates gregos referiam de seus deuses. As Bem-Aventuranças nos apresentam o mundo de cabeça para baixo; em sua vida, Ele não tinha onde reclinar sua cabeça (Mt. 8, 20); não quis que se difundisse a notícia de suas curas (Mc. 8, 41-42), e menos ainda que o proclamassem rei (Jn. 6, 15); passou sua existência servindo aos demais (Mc. 10, 45), sem pausa até a morte, e uma morte de cruz, na qual cancelou o ato de acusação por nossos pecados (Col. 2, 14). Não deixou absolutamente nada para si: tudo o que era Seu nos entregou para sempre (seu Corpo, sua Alma, seu Sangue e sua Divindade); até lavou, como um servo, os pés daqueles que depois o abandonariam vergonhosamente (Jn. 13, 1-20). Ele preferia às prostitutas, aos pobres e aos mais desprezados de sua sociedade (porque creram Nele), e os antepunha aos ricos, aos sábios, a sacerdotes, escribas e letrados (que o rejeitaram) (Mt. 21, 31); Ele veio a nós, em definitiva, para libertar os cativos e necessitados (isto é, a todos os homens, sem exceção), e o conseguiu de um modo assombroso: resgatando-nos das duas piores escravidões que alguém pode padecer (mais mesmo que uma prisão da Guiné): uma, a do pecado, e outra —muito pior, e muito mais habitual—, a soberba de supor que estamos livres dele. Jesus carrega e destrói nossos pecados, mas, acima de tudo, não cessa de nos advertir do funesto erro de nos considerarmos justos. Daí a parábola do fariseu e do publicano no templo (Lc. 18, 9-14). Foi o pecador publicano —e não o justo fariseu— o único justificado.

Após a experiência do deserto, Jesus expôs na sinagoga de Nazaré —com palavras tomadas de Isaías— seu programa de ação salvadora:

«O Espírito do Senhor está sobre Mim;
porquanto me ungiu para dar a boa nova aos pobres,
enviou-me a curar os quebrantados de coração;
a proclamar a liberdade aos cativos,
e a vista aos cegos.
A pôr em liberdade os oprimidos
e a pregar o ano de graça do Senhor».

Aqueles presos da Guiné verdadeiramente tinham interiorizadas essas letras, talvez ouvidas durante a infância, na escola ou na igreja, ou em algum filme cristão que viram na televisão com suas famílias. Passou o tempo, suas vidas se torceram, e muito, mas a luz de Cristo —seu amor incondicional pelos pecadores— nunca se apagou em seus corações. Por isso, pôde se ativar novamente e com grande intensidade após a visita do sucessor de Pedro, daquele a quem o Senhor encomendou precisamente «confirmar na fé aos irmãos» (Lc. 22, 32).

Graças, em definitiva, querido Santo Padre Leão, por fazê-lo, por ir aonde ninguém em seu juízo são deseja estar, por cumprir a obra de caridade de visitar presos, por fortalecer a fé em Jesus e levá-lo a esses homens a verdadeira liberdade que nos trouxe Nosso Senhor. Assim como Jesus com o bom ladrão (Lc. 23, 43), presenteaste a esperança àqueles cujas más ações os haviam conduzido a perder a liberdade. Ou como eles mesmos reconhecem em sua canção, estão arrependidos de seus maus atos, instigados diretamente pelo diabo (com suas tentações), ou por más companhias (isto é, também pelo diabo, embora indiretamente). Mas, com tudo, o Senhor já nos assegurou que só podemos perder a liberdade pelo pecado (Jn. 8, 34), e creio que esses presos assimilaram muito bem essa profunda lição cristã. Desta maneira, a prisão —por ser muito dura, e mais pelo país que a alberga— se converte em um problema secundário para quem recebeu a paz e a liberdade interior, algo que só nos pode regalar a fé viva em Jesucristo. E foi o Papa quem o propiciou nesta viagem apostólica, que começou na pátria de um grande pecador —Santo Agostinho de Hipona— e conclui nesta prisão guineana, símbolo —quem o diria— da irreductível esperança cristã.

¡Que o Senhor te bendiga e te proteja, querido Santo Padre Leão!

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