Persignar-se ao entrar na igreja

Persignar-se ao entrar na igreja
Baptism of Christ by Jacopo Tintoretto, 1580s [Cleveland Museum of Art, Cleveland, Ohio]

Por Randall Smith

É provável que muitos dos leitores tenham presenciado batismos recentemente, especialmente se assistiram à missa da Vigília Pascal. Pela graça do Espírito Santo, parece que este ano fomos abençoados com um bom número de batismos. Oremos para que este dom imerecido continue e cresça como a proverbial semente de mostarda.

Essa oração devemos fazer também por nós mesmos, é claro, já que o nosso próprio batismo é como o desbaste e a preparação da «terra boa» na qual se plantam as sementes da graça. Mas devemos cooperar com essa graça para que o novo crescimento floresça. A purificação do batismo é apenas um primeiro passo e, em um sentido importante, um primeiro passo em direção à Cruz. O batismo nos dá a graça para carregar a Cruz.

Existe uma longa tradição na Igreja de conectar o batismo e a Cruz. Como escreve São Paulo em Romanos 6, «todos os que fomos batizados em Cristo Jesus, fomos batizados em sua morte», para que «assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, também nós caminhemos em uma vida nova».

Devemos dar morte ao «homem velho», diz Paulo em Efésios 4 —o «homem velho» com seu orgulho, sua cobiça e seu afã de domínio— e ressuscitar para nos revestirmos do «homem novo», recriado à imagem de Cristo. Mas Paulo não inventa as coisas por sua própria autoridade; está proclamando «o que ele mesmo havia recebido». Permita-me explicar.

O Papa Bento, em sua maravilhosa exposição sobre o batismo de Jesus em Jesus de Nazaré, levanta a pergunta que muitos se fizeram: se o batismo é uma confissão dos pecados e um despojamento da vida velha e pecaminosa para receber uma nova, isso é algo que Jesus podia fazer? Se Jesus não tinha pecado (e não tinha), por que se batiza? De fato, João Batista diz: «Sou eu que preciso ser batizado por ti, e tu vens a mim?». Mas Jesus responde: «Deixa agora; convém que assim cumpramos toda justiça».

«Ao ver os acontecimentos à luz da Cruz e da Ressurreição —escreveu Bento—, o povo cristão percebeu o que ocorreu: Jesus carregou sobre seus ombros o fardo da culpa de toda a humanidade; levou-o até as profundezas do Jordão. Inaugurou sua atividade pública colocando-se no lugar dos pecadores. Seu gesto inaugural é uma antecipação da Cruz». Ele «cumpre toda justiça» com seu «sim» total à vontade de Deus, mesmo até a morte na Cruz.

O Papa Bento destaca três aspectos do batismo de Jesus.

O primeiro é que, quando Jesus sai das águas: «O céu se abre sobre Jesus. Sua comunhão de vontade com o Pai, seu cumprimento de «toda justiça», abre o céu, que é essencialmente o lugar onde a vontade de Deus se cumpre perfeitamente».

O segundo aspecto é «a proclamação da missão de Jesus por parte de Deus Pai: não só pelo que faz, mas por quem é». Ele é o «Filho amado» que faz a vontade do Pai.

O terceiro aspecto da cena, finalmente, é a descida do Espírito Santo. Com isso, escreve Bento, encontramos que o mistério do Deus Trinitário «começa a emergir».

Para algumas pessoas, a doutrina da Trindade é um emaranhado confuso. Por que se preocupar com «três pessoas em um único Ser»? Não podemos simplesmente falar de «Deus»? Podemos, e o fazemos, mas então perdemos algo do caráter dinâmico interior de Deus.

É importante entender que Deus é uma comunhão trina de amor compartilhada por toda a eternidade entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Esse amor divino se estendeu a nós através do Filho, que assume nossa humanidade, «se faz carne» e habita entre nós. Trata-se de um amor transformador tão grande que pode transcender até mesmo o pecado e a morte.

«Convém a vós que eu vá», diz Jesus a seus discípulos. Como isso poderia ser melhor? Porque se Ele não for, então todo o mundo acorreria constantemente a Ele para pedir mais pão, mais curas, mais milagres.

Mas então nós não seríamos transformados. Nós devemos ser os «membros» do Corpo de Cristo no mundo. Nós devemos ser agora as mãos, os pés e os olhos de Cristo.

Não o fazemos sozinhos. A promessa de Cristo é que, quando tiver partido, enviará o Espírito Santo para «derramar a caridade em nossos corações», de modo que nós, como Ele, possamos «cumprir toda justiça»; nós também podemos ser instrumentos da vontade de Deus e do amor de Deus.

Mas não podemos ser esses instrumentos de amor se nos apegarmos ao «homem velho» do egoísmo, da cobiça e do afã de domínio. Essas coisas devem ser purificadas. E, no entanto, se fosse fácil, todo o mundo o faria. Se fosse fácil, Deus não teria tido que se sacrificar em uma Cruz.

No entanto, o que ocorre com essa entrega do nosso egoísmo —assumindo sobre nós essa pesada carga da Cruz— é que, embora no início sintamos seu peso, com o tempo, a Cruz que acreditamos estar carregando é na realidade a que nos levanta.

Por isso, quando você molha o dedo naquela pia de água benta ao entrar na igreja, lembra que somos um povo batizado, batizado na morte e ressurreição de Cristo.

Então você faz o sinal da Cruz e diz: «Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo». Ao fazer isso, pense conscientemente nisso ou não, você proclamou com esse gesto a essência da fé cristã —o batismo, a Cruz, o Deus Trino—, embora mal tenha cruzado o limiar da igreja.

Você repetiu o essencial; agora está pronto para entrar, ouvir e se integrar plenamente nessa comunhão à qual nos convida um Deus cujo amor pode chegar até o mais profundo da alma mais pecadora.

Sobre o autor

Randall B. Smith é professor de Teologia na Universidade de St. Thomas em Houston, Texas. Seu último livro é From Here to Eternity: Reflections on Death, Immortality, and the Resurrection of the Body.

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