Pbro. José Juan Sánchez Jácome / ACN.- Durante este tempo de Páscoa, ao ver Cristo ressuscitado, experimentamos gozo, paz e fortaleza. Mas também, ao refletir na experiência dos discípulos ao se encontrarem com Cristo ressuscitado, recapacitamos sobre a situação que vivemos e sobre o estilo de Deus para ir promovendo nosso crescimento espiritual.
Vendo os discípulos, reconhecemos que também nós caímos na queixa, na impaciência e na falta de compreensão da pedagogia que Deus leva conosco. Chega o momento em que costumamos nos queixar de que Deus se foi de nós, de que já não nos escuta e de que nos esqueceu.
Trata-se de uma queixa porque se sente a dor e o vazio dessa experiência. Mas pode tratar-se também de um problema de impaciência e de falta de compreensão da pedagogia divina. Não sabemos confiar em Deus nem alcançamos a compreender a forma como Deus vai levando nossa vida. As coisas deste mundo têm seu próprio ritmo, mas a vida espiritual tem uma dinâmica diferente.
Neste tempo de Páscoa, Deus tem vindo respondendo, através de sua palavra, a essa queixa, à impaciência que sentimos e à falta de compreensão da pedagogia divina. Podemos considerar três respostas que a palavra de Deus tem vindo a assinalar.
Em primeiro lugar, muitas vezes não sentimos Deus não porque ele se foi, mas porque nos centramos na dor. Pode ser tão grande o sofrimento que não vemos nada mais, pois a dor eclipsa nosso olhar. Isso aconteceu com Maria Madalena, que, desbordada por sua dor, confunde Jesus com o jardineiro e com um anjo. Ali estava Jesus, mas sua dor não lhe permitiu vê-lo.
Não se trata de negar a dor, mas de não permitir que ela tenha a última palavra e que eclipse nosso olhar. Jesus lhe disse: “Mulher, por que choras?” Há dores que te cegam, que te impedem até de reconhecer as coisas que sempre amaste. Dessa maneira, Maria Madalena não se dá conta de que é Jesus mesmo quem lhe fala, e começa sua ladainha de súplicas: “Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu irei buscá-lo”.
Referindo-se à Madalena, refletia o P. Luigi Maria Epicoco: “Há perguntas que elevamos ao céu, soluções que propomos a Deus que, aos olhos de um observador externo, parecem meras palavras delirantes. Mas a tudo isso, Deus responde não com uma ‘explicação’, mas com uma ‘vocação’: ‘Jesus lhe disse: “Maria!”. Ela se voltou e lhe disse em hebraico: “Rabbuni!”, que significa “Mestre!”’. Ele nos chama pelo nosso nome, nos responde dirigindo-se a nós pessoalmente”.
Não se trata de fechar os olhos diante da dor do mundo, mas antes mudar de orientação, deixar de viver com o olhar cravado nas tumbas — inclusive nas tumbas interiores — e aprender a viver como ressuscitados. Com Cristo, aprendemos que nossa vida não está definida por nossos pecados, medos e derrotas.
Em segundo lugar, o pecado cometido leva os apóstolos a se descartarem. Foram covardes, o negaram, o deixaram sozinho e em situações assim, pensa-se que Deus não se aproximará mais de nossa vida. Quando pecamos e quando nos portamos de maneira miserável, nem sempre se espera que Deus seja bondoso. Não esperamos que Deus seja misericordioso quando cometemos injustiças. Talvez nesses momentos se espere o rejeição e nosso próprio pecado nos leva a nos descartarmos. Mas o Senhor ressuscitado nos surpreende fazendo-nos ver que quando menos o merecemos, Deus nos ama mais do que ninguém.
Em terceiro lugar, muitas vezes nossas queixas e impaciência refletem a necessidade de firmar uma vida de fé. Não basta manter uma atitude religiosa e buscar a Deus quando temos vontade de estar com ele. Minha fé depende de que tudo me saia bem e tudo tenha sentido, ou sou capaz de confiar mesmo quando não entendo? Essa é a questão mais importante: buscar a Deus, embora não tenhamos vontade; seguir a Deus, embora não entendamos tudo; ser fiéis a Deus, embora haja muitas adversidades ao nosso redor.
A fé doa um olhar profundo e nos permite reconhecer a presença de Deus em lugares e momentos inesperados, como o apóstolo João que no lago chega a gritar: “É o Senhor!”, ao reconhecer que aquele homem que os esperava na margem era Jesus, depois de ter conseguido a pesca milagrosa. A fé é desenvolver essa sensibilidade de João para assinalar emocionados o Senhor que está conosco.
Diz o papa Francisco que: “Nessa exclamação: ‘É o Senhor!’, está todo o entusiasmo da fé pascal, cheio de alegria e de assombro, que contrasta fortemente com o desconcertamento, o desânimo, o sentimento de impotência que se haviam acumulado no ânimo dos discípulos”.
Não se precisa de uma experiência sensorial ou de um milagre, mas do olhar profundo que dá a fé e que leva João a contagiar os apóstolos de alegria, uma vez que reconhece Jesus.
A fé tornará possível que reconheçamos a Deus em nossa vida, apesar dos erros que cometemos e das quedas que possamos ter. A fé não é um depósito de doutrinas, é algo vivo, que sempre quer crescer e se desenvolver. O Senhor sempre estará te estimulando para que tua vida cristã cresça e se torne mais bela.
Por isso, se desperta em teu coração o desejo de crescer, se sentes vontade de amar mais, se desejas ter uma fé mais alegre ou mais comprometida, é o Senhor que está batendo à tua porta. Não sufocar esses impulsos divinos, não os esconder, não os apagar. Vêm de Deus que te ama e quer te dar algo melhor.
Deus sempre está atuando em nossa vida. Quando dá vontade de rezar, quando se sente o desejo de perdoar, de ajudar os demais, de começar uma nova vida, de superar as escravidões que livremente aceitamos. Quando não ficamos indolentes nem indiferentes diante da dor e do mal que há no mundo. Quando nos perguntamos o que temos que fazer para levar luz diante de tanta escuridão, para pôr amor onde prevalece o ódio, para anunciar a verdade onde reina a mentira.
Cada vez que experimentamos essas vontades de crescer, de nos comprometermos e de fazer o bem, trata-se de dizer, como João: “É o Senhor!”. Não é que sejamos bons, mas que o Espírito de Deus nos impulsiona. Se tenho bons pensamentos e quero fazer o bem, se tenho vontade de rezar, se há uma força que me levanta em meus desânimos e quedas, se quero perdoar e começar de novo: “É o Senhor!” que está atuando em minha vida.
É bom gritar como João para reconhecer que Deus segue atuando. Quando quisermos regressar ao Senhor e perdoar e fazer bem as coisas, não reprimamos esse impulso do Espírito para que nós digamos como João: “É o Senhor!”.
O mesmo que nós experimentamos, é preciso reconhecê-lo quando vemos o compromisso de outros irmãos e a dedicação de tantas pessoas para anunciar a Deus e construir o reino, apesar de tanta violência e escuridão que há no mundo.
O grito de João: “É o Senhor!” se parece com o estremecimento que nós podemos sentir quando, na dura luta da vida, intuímos que o Senhor está na entrega dos irmãos, embora não nos tivéssemos dado conta. O Senhor está nas pessoas que estão pendentes de nós e cujo amor só se nos faz patente quando desapareceram. Na comunidade cristã que, com todo o peso de suas limitações, nos oferece o pão da Palavra e da Eucaristia. Nos que, sem alardes publicitários, compreenderam que já é hora de arrimar o ombro para que se abra caminho a justiça. Nos que são fiéis à sua vocação matrimonial ou consagrada sem que ninguém o vá saber jamais. Nos que, podendo ganhar mais à base de mentir, se mantêm na verdade.
É o Senhor atuando em nós e impulsionando a outros. O amor faz João mais perspicaz que os demais e a Pedro mais veloz, que de imediato se lança à água para chegar o mais rápido possível ante o Senhor. Assinala São Josemaría Escrivá: “Pedro é a fé. E se lança ao mar, cheio de uma audácia de maravilha. Com o amor de João e a fé de Pedro, até onde chegaremos nós?”