A lealdade é descrita como o cumprimento do que exige a fidelidade e a honra. É uma, senão a maior, virtude por excelência que engloba muitas outras, como a retidão, a nobreza, a honestidade e o compromisso.
No entanto, essa mesma grandeza deve ser cuidada para não se confundir com amor cego, cumplicidade ou submissão irracional. É valorizada por todos, independentemente de seu credo, condição social ou coeficiente intelectual.
A política mexicana sempre conheceu o valor da lealdade, mas sobretudo em muitos governantes e em seu modo de exercer o mandato, a lealdade foi pervertida. Não pensamos apenas no Morena federal ou estadual; isso também acontece e já aconteceu em outras cores.
Já não é lealdade à Constituição, à lei, aos cidadãos ou mesmo aos de seu próprio partido político. É uma falsa lealdade, uma lealdade de grupo, de tribo e de cumplicidade, que se protege acima de qualquer denúncia, de qualquer escândalo e de qualquer prova de corrupção.
O mecanismo é conhecido e se repete. Surge uma denúncia por abuso de poder, por desvio de recursos, por nepotismo ou por vínculos com interesses obscuros. A opinião pública exige uma explicação. A oposição pede uma investigação. E em vez de sancionar, o governo federal fecha fileiras.
O presidente, o secretário, o coordenador parlamentar saem em defesa do acusado não com argumentos jurídicos, mas com argumentos políticos: é uma campanha midiática.
Essa falsa lealdade funciona como um seguro de impunidade. Enquanto o funcionário for útil, enquanto mobilizar votos ou controlar uma estrutura territorial, estará protegido.
Não importa quantas pastas de investigação existam na Procuradoria, que também foi cooptada pela mesma lógica de obediência. Não importa quantas reportagens jornalísticas documentem contratos sob medida, empresas fantasmas ou o enriquecimento e viagens inexplicáveis de familiares e amigos. A consigna é clara: os nossos não se tocam.
Assim se explica como personagens acusados de corrupção na Segalmex, um dos maiores escândalos de desvio de dinheiro público na história recente, não apenas não pisaram na prisão, como foram realocados em outros cargos.
Como funcionários acusados de assédio, de abuso sexual ou de violência de gênero foram mantidos como candidatos sob o pretexto de que eram vítimas de linchamento político. Como governadores e ex-governadores com Estados mergulhados na insegurança e na pilhagem foram premiados com embaixadas ou cargos no gabinete federal.
Essa proteção tem um custo institucional devastador. Primeiro, destrói o serviço civil. O que importa é a proximidade pessoal e a submissão. Cria-se uma burocracia de incondicionais que não sabe dizer não.
Segundo, normaliza a corrupção. Estabelece-se um duplo padrão moral: é imperdoável quando feito pelo adversário, mas é um erro menor quando feito por um companheiro. As falsas lealdades não são lealdades, são pactos de silêncio.
No final, esse sistema não protege ninguém. Cedo ou tarde, o acúmulo de denúncias, de abusos de poder e de corrupção transborda qualquer narrativa. A lealdade comprada com impunidade sempre termina em traição.
Lealdades equivocadas podem existir em qualquer âmbito, desde o pessoal (amigos, colegas, família), empresarial, institucional… Cabe a nós identificar lealdades equivocadas e não jogar o jogo delas, provocando-as ou guardando silêncio.