«Prefiro a prisão a apagá-lo»: detêm na Colômbia o diretor do documentário «Fábrica de crianças trans»

«Prefiro a prisão a apagá-lo»: detêm na Colômbia o diretor do documentário «Fábrica de crianças trans»

O documentarista mexicano Samuel Adrián, diretor de Colômbia: fábrica de crianças trans, foi detido no domingo, 13 de setembro, no aeroporto internacional El Dorado de Bogotá após regressar voluntariamente ao país, apesar de saber que pesava sobre ele uma ordem de prisão por se ter recusado a retirar conteúdos do seu documentário.

A sanção, ditada por um tribunal de Cali no âmbito de um incidente de desacato, estabelece dez dias de prisão e uma multa equivalente a 15 salários mínimos mensais colombianos. A Polícia Nacional esclareceu que não se trata de uma investigação penal nem de uma detenção por prática de crime, mas do cumprimento de uma decisão judicial resultante de uma ação de tutela.

Adrián conhecia a ordem antes de regressar à Colômbia. Do Panamá gravou um vídeo antecipando o que poderia acontecer e deixou clara a sua decisão: «Não cometi nenhum crime e não vou ficar de braços cruzados». Sobre a possibilidade de eliminar o documentário foi ainda mais categórico: «Prefiro a prisão a apagá-lo».

O documentário que deu origem à batalha judicial

Colômbia: fábrica de crianças trans investiga tratamentos e protocolos médicos relacionados com a chamada «transição de género» em crianças e adolescentes. Adrián questiona na produção a administração de bloqueadores da puberdade e tratamentos hormonais a menores e os critérios utilizados para aceder a estas intervenções.

O conflito judicial surgiu na sequência de uma ação de tutela apresentada pelo endocrinologista pediátrico Mario Angulo, mencionado no documentário e em conteúdos posteriores publicados por Adrián.

Angulo alegou violação dos seus direitos pela utilização da sua imagem e pelas afirmações feitas sobre a sua atividade profissional. Um tribunal de Cali ordenou a retirada de determinados conteúdos de circulação. Adrián recusou-se a fazê-lo e o incumprimento resultou no incidente de desacato pelo qual cumpre agora dez dias de prisão.

A Justiça colombiana, no entanto, não o condenou penalmente pelas teses expostas no documentário. A privação de liberdade decorre do incumprimento da ordem judicial que exigia a retirada do material.

Regressou à Colômbia sabendo que seria detido

Samuel Adrián não tentou fugir à medida. A sua esposa, Dania Sabrina, explicou esta terça-feira que o documentarista decidiu regressar ao país estando plenamente consciente das consequências.

«Samuel chegou à Colômbia consciente de que existia uma ordem judicial contra ele. Ele sabia que isto podia acontecer, mas mesmo assim decidiu regressar», indicou.

«Não chegou escondido nem fugindo da justiça. Chegou de frente e disposto a enfrentar este processo se fosse necessário», acrescentou.

A sua esposa explicou que a família permanece unida durante os dez dias de reclusão e pediu orações pelo documentarista. «Como família, dói-nos saber que Samuel se encontra privado da sua liberdade, longe de casa, dos seus filhos e de mim».

Defendeu também o motivo pelo qual Adrián decidiu manter o documentário apesar das consequências: «Se tudo o que está a acontecer servir para que mais pessoas voltem o olhar para eles, para que conheçam as suas histórias e para que se façam perguntas que muitos preferiram não fazer, então acreditamos que vale a pena».

México presta assistência consular

A Secretaria de Relações Exteriores do México confirmou que está a prestar assistência consular e acompanhamento a Samuel Adrián. Segundo a informação fornecida pela Chancelaria mexicana, o documentarista encontra-se em bom estado de saúde e a sua defesa jurídica já está a tratar do caso.

Adrián tinha solicitado publicamente a intervenção das autoridades mexicanas antes de aterrar em Bogotá, enquanto os seus advogados no México e na Colômbia preparavam a sua defesa.

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O caso chega até à Presidência da Colômbia

O presidente colombiano, Abelardo de la Espriella, defendeu publicamente a necessidade de discutir as questões levantadas pelo documentário e pediu ao Congresso que reveja o quadro aplicável aos procedimentos de «transição de género» em menores.

«O caso de Samuel Adrián, que hoje inicia 10 dias de privação de liberdade após denunciar tratamentos hormonais para a chamada mudança de sexo em menores e alertar para as suas possíveis consequências irreversíveis, deve abrir um debate nacional», afirmou.

De la Espriella exigiu legislar sobre os limites e proibições destes procedimentos e sustentou que existem lacunas decorrentes da interpretação do livre desenvolvimento da personalidade e da autonomia progressiva do menor.

«No meu Governo, as crianças são sagradas», afirmou o presidente.

A detenção ocorreu ainda apenas dois dias antes da conferência «O fim da fábrica de crianças trans na Colômbia», prevista para esta terça-feira, 15 de setembro, em Bogotá e liderada pelo escritor argentino Agustín Laje, na qual Samuel Adrián tinha previsto participar.

O mexicano regressou à Colômbia sabendo que podia passar dez dias privado de liberdade e decidiu manter o material que a Justiça lhe ordenou retirar.

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