O cardeal Raymond Leo Burke defendeu publicamente o título de Maria Corredentora, meses depois de o Dicastério para a Doutrina da Fé ter estabelecido na nota Mater Populi fidelis que a sua utilização resulta «sempre inoportuna» para expressar a cooperação da Virgem na obra da Redenção.
Burke pronunciou-se no domingo na catedral de São Bavão, em Haarlem (Países Baixos), durante uma intervenção dedicada à cooperação da Virgem Maria na obra salvífica de Cristo. Segundo relata The Catholic Herald, que afirma ter recebido do gabinete do cardeal uma cópia da sua intervenção, Burke afirmou expressamente: «A Santíssima Virgem Maria é Corredentora, ou seja, participa de maneira única na obra salvífica de Nosso Senhor».
O purpurado precisou imediatamente o sentido em que emprega o termo e subordinou-o à única Redenção operada por Cristo. «Nós, em virtude do Batismo e da Confirmação, somos corredentores, ou seja, participamos na obra salvífica de Nosso Senhor santificando a parte da sua vinha que Ele confiou aos nossos cuidados», indicou.
Burke insistiu ainda que esta cooperação não pressupõe qualquer insuficiência no sacrifício de Cristo. «Não é que o Sacrifício de Nosso Senhor seja de algum modo defeituoso. É perfeito e proporciona a graça divina e a vida eterna a todos os que se unem a Nosso Senhor no seu Sacrifício», explicou.
«O único que falta é a nossa participação de todo o coração no Sacrifício de Nosso Senhor, tomar cada dia a Cruz e segui-lo», acrescentou.
Burke: Maria coopera de maneira «insubstituível» na Redenção
Ao longo da sua intervenção, Burke recorreu à Escritura e à tradição teológica para explicar o lugar singular da Virgem na economia da salvação.
Ao comentar a profecia de Isaías, sustentou que a promessa divina «se cumpre, antes de tudo e da maneira mais perfeita, na vida da Santíssima Virgem Maria mediante a sua cooperação insubstituível no Mistério da Encarnação redentora».
Essa cooperação, acrescentou, está chamada a prolongar-se também na vida dos cristãos: «Deve cumprir-se em cada uma das nossas vidas como colaboradores, com a Virgem Mãe de Deus, na obra de Redenção do seu divino Filho».
As palavras de Burke adquirem especial relevância depois da publicação, no 4 de novembro de 2025, de Mater Populi fidelis, a nota doutrinal do Dicastério para a Doutrina da Fé sobre alguns títulos marianos relacionados com a cooperação de Maria na salvação.
O documento foi aprovado por Leão XIV a 7 de outubro de 2025 e ordenado para publicação. A nota reconhece expressamente que o título de Corredentora apareceu no século XV, que foi empregado por alguns pontífices e que são João Paulo II se referiu a Maria como Corredentora «pelo menos em sete ocasiões».
Recorda também que durante o pontificado de são Pio X o termo apareceu em documentos da Congregação dos Ritos e do Santo Ofício, e recolhe o emprego do título por Pio XI.
Mater Populi fidelis: o título é «sempre inoportuno»
Apesar de reconhecer estes antecedentes, o Dicastério presidido pelo cardeal Víctor Manuel Fernández chegou a uma conclusão contrária à conveniência de continuar a utilizar o título.
«Tendo em conta a necessidade de explicar o papel subordinado de Maria a Cristo na obra da Redenção, é sempre inoportuno o uso do título de Corredentora para definir a cooperação de Maria», estabelece o número 22 de Mater Populi fidelis.
Doutrina da Fé argumenta que o termo «corre o risco de obscurecer a única mediação salvífica de Cristo» e pode provocar «confusão e um desequilíbrio na harmonia das verdades da fé cristã». Segundo a nota, quando uma expressão requer explicações constantes para evitar interpretações incorretas, deixa de prestar um serviço adequado à fé do Povo de Deus.
O documento não nega, no entanto, a cooperação de Maria na salvação. Pelo contrário, afirma que o seu «sim» não foi uma condição meramente passiva e descreve a sua maternidade como «plenamente ativa» e unida ao mistério salvífico de Cristo como instrumento querido pelo Pai.
A diferença centra-se, portanto, na conveniência do título de Corredentora e na maneira de expressar teologicamente essa cooperação mariana.
Ratzinger e Francisco, entre os argumentos da nota
Mater Populi fidelis recolhe também a posição de Joseph Ratzinger. Em 1996, sendo prefeito da então Congregação para a Doutrina da Fé, respondeu negativamente a uma proposta para definir dogmaticamente Maria como «Corredentora» ou «Mediadora de todas as graças», ao considerar que o significado preciso dessas expressões não estava suficientemente claro e que a doutrina nelas contida não estava madura para uma definição dogmática.
Posteriormente, em 2002, Ratzinger manifestou publicamente as suas reservas sobre o termo por considerar que se afastava excessivamente da linguagem da Escritura e dos Padres e podia provocar mal-entendidos.
A nota recolhe igualmente as reiteradas objeções do papa Francisco, que rejeitou o título em várias ocasiões e sustentou que Cristo «é o único Redentor». Doutrina da Fé utiliza estas intervenções para reforçar o seu argumento a favor de preservar com absoluta clareza a singularidade da mediação redentora de Jesus Cristo.
A intervenção de Burke situa-se agora num sentido diferente relativamente à conveniência de empregar o título, embora o cardeal formule expressamente a cooperação de Maria como subordinada à obra perfeita e suficiente de Cristo.
O debate continuará previsivelmente em Roma. Burke participará no início de outubro numa conferência mariológica na qual, segundo os organizadores citados por The Catholic Herald, está previsto aprofundar novamente a questão de Maria Corredentora.