Boas perguntas

Boas perguntas
Cristo entregando las llaves a san Pedro, de Guido Reni, c. 1620-25 [Louvre, París]

Por P. Paul D. Scalia

O próximo beato Fulton Sheen disse uma vez, com sua habitual perspicácia: «As perguntas de Deus são mais satisfatórias do que as respostas do homem». (É uma variação da frase de seu amigo G. K. Chesterton: «Os enigmas de Deus são mais satisfatórios do que as soluções do homem»). O Evangelho de hoje (Mateo 16, 13-20) dá testemunho desta verdade. Deus não faz perguntas porque precise das respostas, mas porque nós precisamos refletir sobre elas e encontrar nelas mais fruto espiritual do que podem oferecer as respostas humanas.

Nosso Senhor levou seus apóstolos ao território pagão de Cesareia de Filipe. É um lugar mais calmo porque está livre dos escribas e fariseus. Pode falar abertamente sem ter que lidar com suas armadilhas. Este tempo de instrução mais explícita centra-se em duas perguntas a seus apóstolos: «Quem diz o povo que é o Filho do Homem?» e «E vós, quem dizeis que sou eu?».

Quem diz o povo que é o Filho do Homem? A resposta a esta primeira pergunta revela imediatamente quão insatisfatórias podem ser as respostas do homem: «Uns, que João Batista; outros, que Elias; outros, que Jeremias ou um dos profetas». João, Elias e Jeremias assemelhavam-se todos a Cristo porque apontavam para Ele. As multidões confundem uma semelhança com nosso Senhor mesmo. Isso não é mais que opinião religiosa.

Assim, a primeira pergunta revela nossa necessidade de instrução divina. Por nós mesmos buscamos e tateamos atrás do Deus verdadeiro, percebendo-o debilmente e, de muitos modos, aproximando-nos da verdade. Mas inevitavelmente nos apegamos a imagens ou compreensões falsas d’Ele. Os ídolos dos pagãos são um exemplo óbvio.

Mas nós —que, como as multidões, seguimos, observamos e ouvimos Jesus durante algum tempo— também podemos nos equivocar. Temos ideias e opiniões sobre Ele que se afastam, em maior ou menor grau, da verdade sobre Ele. Tudo isso significa, não que não creiamos, mas que nossa compreensão d’Ele precisa de uma purificação e iluminação constantes. Em suma, não queremos ser como as multidões, extraviando-nos na mera opinião religiosa.

O que nos leva à segunda pergunta: E vós, quem dizeis que sou eu? Esta pergunta provoca afirmações doutrinais profundas sobre Jesus e sua Igreja. Mas, em vez de precipitar-vos para a doutrina mesma, consideremos seu propósito. Jesus não faz a pergunta como se fosse um exame catequético ou uma prova teológica. É um chamado pessoal de seu Sagrado Coração a seus seguidores. Deseja que seus amigos e colaboradores mais próximos saibam Quem é. Todo coração humano o deseja, é claro. Quanto mais o Sagrado Coração de nosso Senhor.

Não podemos responder com exatidão por nós mesmos. A resposta de Pedro —«Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo»— não é humana, mas divina: «Porque não te foi revelado pela carne nem pelo sangue, mas por meu Pai que está nos céus». Diferente das multidões, por sua fé Pedro não tem uma opinião religiosa sobre Jesus. Tem a verdade, e o pronunciá-la alegra o Coração de nosso Senhor.

Com Pedro, recebemos do Pai a capacidade de confessar a fé verdadeira. A nossa não é a resposta de um homem, mas a revelação de Deus; não nossa própria descoberta, mas o dom do Pai. Só o Pai nos dá a fé verdadeira com a qual consolamos o Sagrado Coração de seu Filho.

Isso também nos ensina algo sobre a Igreja. Fundada sobre Pedro e sua resposta divinamente inspirada, a Igreja proclama não só sabedoria humana, mas sobretudo a doutrina salvadora revelada pelo Pai. A Igreja está presente no mundo não como uma ONG nem como uma participante a mais nas discussões internacionais sobre o desenvolvimento humano integral. É a voz autorizada de Deus. Sim, a Igreja é «perita em humanidade» (Paulo VI). Mas só porque possui a fé que «purifica a razão» (João Paulo II).

Mas voltemos à dimensão pessoal deste intercâmbio. A doutrina nos é dada não simplesmente para que possamos estar teologicamente certos, mas, ainda mais, para que possamos orar retamente. O tio Screwtape sabe quão propensos somos à oração equivocada. Teme que reconheçamos a natureza subjetiva de nossos pensamentos e imagens de Deus, que oremos «Não ao que eu penso que Tu és, mas ao que Tu sabes que és de Ti mesmo».

Somos pobres de espírito, e não sabemos orar como convém. O Pai se revela por meio de seu Filho para que possamos orar a Ele como Ele é e não como o imaginamos. A doutrina da Igreja é salvífica porque nos dá a compreensão reta de Deus e nos permite estar em relação reta com Ele, orando retamente, dizendo com Pedro: Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo.

Esta doutrina salvadora é dada em último termo para que possamos adorar retamente. O que explica por que há certa solenidade e até cerimônia em toda esta cena. Sem o ensino autoritativo da Igreja, não podemos adorar «em espírito e em verdade» (João 4, 24). «Se Deus não se revela, o homem se aferra ao vazio» (cardeal Ratzinger).

A mente moderna se rebela contra a autoridade, vendo nela só opressão e escravidão. Esta passagem nos lembra que a autoridade dada a Pedro e, por extensão, à Igreja está ordenada a que entremos plenamente —e com abandono— naquela relação reta e salvadora com Deus, que é a única verdadeira libertação e liberdade.

Sobre o autor

O p. Paul Scalia é sacerdote da diocese de Arlington, Virgínia, onde serve como vigário episcopal para o clero e pároco de Saint James em Falls Church. É autor de That Nothing May Be Lost: Reflections on Catholic Doctrine and Devotion e editor de Sermons in Times of Crisis: Twelve Homilies to Stir Your Soul.

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