O Papa reivindica proteção e acolhimento para os menores migrantes e refugiados: «Cada criança possui uma dignidade infinita»

O Papa reivindica proteção e acolhimento para os menores migrantes e refugiados: «Cada criança possui uma dignidade infinita»
GRAFCAN5123. LA LAGUNA (TENERIFE), 12/06/2026.- El papa León XIV saluda a varios niños durante su visita este viernes al centro de primera acogida 'Las Raíces' de Tenerife. EFE/ Ramón De La Rocha

O papa Leão XIV centrou nos menores migrantes e refugiados a sua mensagem para a 112.ª Jornada Mundial do Migrante e do Refugiado, que a Igreja celebrará no próximo dia 27 de setembro sob o lema «Até mesmo um só destes pequeninos». O Pontífice alerta para a especial vulnerabilidade das crianças afetadas por guerras, pobreza, violência, tráfico, exploração e deslocamentos forçados, e apela a agir tanto nos países de origem, para combater as causas que as obrigam a partir, como nos países de trânsito e destino, onde pede que se garanta a sua proteção e acolhimento.

Na mensagem, datada de 11 de agosto e publicada esta sexta-feira pela Santa Sé, Leão XIV insiste em que «cada criança, cada ser humano, possui uma dignidade infinita» e apela às comunidades cristãs para que integrem migrantes e refugiados «como membros de pleno direito da família eclesial». O Papa pede também às instituições civis que promovam a reunificação familiar e evitem separações traumáticas, e defende que o debate deve passar da «mera gestão dos fluxos migratórios» para a proteção dos direitos humanos. Entre os direitos fundamentais dos menores menciona expressamente «a vida, a educação e um nível de vida que lhe permita crescer e desenvolver-se plenamente».

Deixamos a seguir a mensagem completa de Leão XIV: 

Queridos irmãos e queridas irmãs:

Ano após ano, a Jornada Mundial do Migrante e do Refugiado convida-nos a centrar a nossa atenção em diferentes aspetos do complexo fenómeno migratório. Nesta 112.ª Jornada, o lema «Até mesmo um só destes pequeninos» chama-nos a prestar atenção aos menores que são diretamente afetados pela experiência da migração e da fuga, à preocupação por eles e à promessa do Senhor de que quem «acolhe uma criança como esta em meu nome, acolhe-me a mim» (Mc 9,37).

Menores deslocados: uma realidade complexa de vulnerabilidade

Os menores são os mais vulneráveis dentro dos fluxos migratórios mundiais. São rostos concretos, histórias únicas, que apelam à nossa consciência. Cada ano, milhões de crianças e adolescentes veem-se obrigados a abandonar a sua terra por causa de guerras, pobreza, violência, desastres ambientais e outras tragédias; e, lamentavelmente, o seu número continua a aumentar. As responsabilidades económicas, políticas e militares deste desastre são imensas. O sofrimento não se limita ao deslocamento, há crianças muito pequenas que perderam os pais, irmãos, irmãs e amigos, e que são testemunhas de uma violência indescritível. Outras, separadas durante longos períodos dos seus familiares, tentam reunir-se com eles, vivendo, entretanto, a angústia da distância. Há também menores que enfrentam a viagem junto dos pais, mas expostos a condições extremas e traumáticas. Por último, não podemos esquecer a trágica situação dos que são separados dos pais por causa da repatriação.

A este panorama, já de si dramático, somam-se outras tragédias: as mortes ao longo das rotas migratórias, o tráfico e a exploração, o recrutamento de menores para a sua participação em conflitos armados, a violência sexual, os casamentos forçados e as atrocidades sofridas ou presenciadas durante o percurso. A sua dignidade é pisada de demasiadas formas.

papa Francisco, na mensagem por ocasião da Jornada Mundial do Migrante e do Refugiado de 2017, dedicada ao tema «Migrantes menores de idade, vulneráveis e sem voz», recordava que estes «encontram-se desprotegidos por três motivos: porque são menores, estrangeiros e indefesos; por diversas razões, são forçados a viver longe da sua terra natal e separados do afeto da sua família».

Não obstante, no meio de tanta escuridão, não falta a luz da solidariedade: pessoas, famílias, instituições civis e comunidades eclesiais decidem não desviar o olhar para outro lado (cf. Lc 10,29-37). Pensemos nas famílias que abrem as portas das suas casas para devolver a estes menores o calor de um lar, nos educadores das comunidades de acolhimento, nos voluntários e nos trabalhadores que, cada dia, nas rotas e nas nossas cidades, se dedicam a curar as feridas invisíveis destes pequeninos. Com o seu compromisso, dão testemunho de que o amor pode vencer a indiferença.

Até mesmo um só destes pequeninos

Esta dramática realidade faz-me pensar nas palavras de Jesus que interpelam profundamente a consciência de cada um: «Quem acolhe uma criança como esta em meu nome acolhe-me a mim» (Mt 18,5). Não é uma questão de números nem de estatísticas. O Evangelho convida-nos a não fazer cálculos: até mesmo um só. Cada criança, cada ser humano, possui uma dignidade infinita. É imagem e semelhança de Deus (cf. Gn 1,26), é presença do Senhor. Diante de cada menor migrante, somos chamados a realizar um ato de humanidade e de fé: na criança, de facto, podemos acolher e encontrar o Senhor. Este apelo torna-se ainda mais premente à luz desta outra afirmação do Senhor no Evangelho de Mateus: «fui forasteiro e hospedaram-me» (Mt 25,35).

Lamentavelmente, os menores migrantes veem-se mais facilmente relegados à invisibilidade, por carecerem de adultos que os protejam e apoiem. É necessário intervir nos países de origem para eliminar as possíveis causas que os obrigam a fugir, além de oferecer proteção e acolhimento nos países de trânsito e de chegada. O clamor dos menores deslocados eleva-se hoje para Deus, tal como o que se ouve no livro do Êxodo: «Vi a opressão do meu povo no Egito e ouvi as suas queixas contra os opressores; conheço os seus sofrimentos. Desci para o libertar» (Ex 3,7-8). Deus ouve e, para libertar, interpela com força a consciência e a ação de cada um de nós, tal como fez com Moisés. Não podemos permanecer indiferentes, nem habituar-nos a tanto sofrimento.

Um apelo à responsabilidade de todos

Até mesmo um só destes pequeninos chama-nos, na nossa vida pessoal, a abrir os olhos e o coração para escutar em profundidade a sua história, os seus medos e os seus sonhos, superando essa indiferença que reduz o ser humano a um dado estatístico que não nos afeta diretamente. É um convite a reconhecer a criança na sua dignidade, ainda antes que na sua condição de “migrante”, e a proteger os seus direitos fundamentais: à vida, à educação e a um nível de vida que lhe permita crescer e desenvolver-se plenamente do ponto de vista físico, mental, espiritual, moral e social.

Até mesmo um só destes pequeninos chama-nos, na vida eclesial, a converter a hospitalidade de um conceito abstrato numa prática pastoral constante. Não podemos limitar-nos a delegar esta tarefa a instituições ou associações dotadas de um carisma específico: diante dos rostos concretos que nos interpelam no dia a dia, toda a comunidade cristã está chamada a senti-los como seus próprios filhos e a aproximar-se da história concreta de cada um. É necessário animar as comunidades cristãs a integrar e valorizar os refugiados e imigrantes como membros de pleno direito da família eclesial, promovendo novos itinerários educativos e espirituais, inclusive personalizados, que superem a lógica do puro assistencialismo. Em particular, é fundamental prevenir a solidão, o isolamento e a rejeição, que não poucas vezes afetam também os filhos dos migrantes, e promover dinâmicas de encontro e integração nas quais os jovens do território e os jovens imigrantes possam fortalecer-se juntos, num caminho de respeito mútuo, solidariedade e amizade.

Até mesmo um só destes pequeninos, no âmbito das diferentes religiões, recorda-nos que a vulnerabilidade dos mais pequenos não conhece fronteiras confessionais e une-nos numa responsabilidade humanitária e espiritual partilhada. Torna-se um terreno fértil para um diálogo inter-religioso concreto, no qual os crentes, inspirando-se no próprio sentido da transcendência, cooperem na criação de redes de proteção. As comunidades de fé estão chamadas a criar espaços nos quais cada menina e cada menino sejam respeitados e valorizados nas suas respetivas identidades culturais, prevenindo assim o risco de radicalização por parte de grupos extremistas. Proteger um menor significa, em última instância, custodiar a marca divina impressa nele.

Até mesmo um só destes pequeninos, no contexto das instituições civis, insta-nos a reafirmar o princípio do interesse superior do menor. As instituições públicas e privadas estão obrigadas a colocar no centro a proteção e a dignidade de cada criança e adolescente. Isto implica a adoção de instrumentos jurídicos eficazes de proteção, promovendo a reunificação familiar e evitando os traumas da separação. É urgente uma mudança de perspetiva: é preciso deslocar o eixo do debate da mera gestão dos fluxos migratórios para a proteção plena e imediata dos direitos humanos, adotando «uma resposta coordenada, solidária e eficaz, capaz de garantir proteção, acolhimento e oportunidades reais de integração a quem migra» (Discurso ao Parlamento espanhol, Madrid, 8 de junho de 2026).

Encomendemos os menores migrantes e refugiados à proteção maternal de Maria Santíssima, que, junto de são José e de Jesus, ainda criança, conheceu a crueldade da violência de Herodes e o drama do exílio no Egito (cf. Mt 2,13-15); que seja Ela quem acompanhe os seus passos e ajude as nossas comunidades a tornarem-se sinais vivos e credíveis do Evangelho.

Vaticano, 11 de agosto de 2026, memória de Santa Clara de Assis.

LEÃO PP. XIV

Ajude a Infovaticana a continuar informando