Aquele velho espírito religioso

Aquele velho espírito religioso
Thomas à Kempis by Sir George Reid [Aberdeen Art Gallery, Aberdeen, Scotland]

Por Michael Pakaluk

Pergunto-me se não nos é exigida uma maior sobriedade em relação ao nosso uso das redes sociais. E, se for o caso, quem nos vai dizer isso? Hoje em dia, eliminou-se grande parte do que era severo e disciplinador na aceitação pública da nossa fé. Isso parece estranho quando, aparentemente, nunca antes se tinha necessitado tão desesperadamente dessa disciplina.

Para entender a que me refiro, basta abrir as páginas do clássico espiritual A imitação de Cristo, de Tomás de Kempis. Santa Teresinha de Lisieux memorizava capítulos inteiros deste livro. O Papa Bento XVI chamou-o de “esse texto dourado da espiritualidade”. Santa Teresa de Ávila ordenou que se colocasse um exemplar em cada convento que fundou.

No seu capítulo sobre o amor à solidão e ao silêncio, Tomás escreve:

Muitíssimos grandes santos evitavam a companhia dos homens sempre que lhes era possível e escolhiam servir a Deus no retiro. “Quantas vezes estive entre os homens”, dizia um escritor, “voltei menos homem”. Frequentemente verificamos que isso é verdade quando participamos de conversas longas. É mais fácil calar-se completamente do que não falar em excesso. Ficar em casa é mais fácil do que estar suficientemente em guarda enquanto se está fora. Qualquer um, pois, que aspire a viver a vida interior e espiritual deve afastar-se, com Jesus, da multidão… Ninguém se apresenta com segurança diante do olhar público a menos que primeiro desfrute da escuridão. Ninguém fala com segurança a menos que ame guardar silêncio.

Permitam-me “operacionalizar” este ensinamento, como diria um cientista social moderno. Devemos dizer que ninguém deveria passar mais minutos nas redes sociais durante o dia do que já dedicou à oração? Ou consideremos a oração como se fosse uma renda financeira: não tens permissão para gastar tempo falando, exceto o que tenhas ganho rezando. “Levanta os teus olhos para Deus no céu e reza pelos teus pecados e deficiências”, diz Tomás no final do capítulo.

Por outro lado, parecemos ter esquecido as advertências tradicionais contra a ociosidade. Definitivamente, a ociosidade não é o estado de não ter nada para fazer na Internet. São Jerónimo diz: “Esteja sempre fazendo algo, para que o diabo te encontre sempre ocupado”.

Mas estás “fazendo algo” no seu sentido quando estás lendo publicações ou publicando tu mesmo? Suponhamos que há uma única tarefa, dever ou trabalho que sabes que tens pendente. Fazer qual destas duas coisas —essa tarefa ou essa publicação— seria realmente “fazer algo”? Se ler para teu filho, aperfeiçoar-te em alguma disciplina concreta, arrumar algo, ligar para um familiar ou amigo permanece por fazer, então a atividade na Internet que não produz nada de valor corresponde exatamente à definição de “ociosidade”.

Santo Tomás de Aquino e outros grandes escritores espirituais ensinam que a ociosidade implica não apenas estar “desocupado”, mas também afastar-se de um bem conhecido.

Newman falou com severidade sobre algo que chamou de “superficialidade de opiniões” (viewiness) no prefácio de sua Ideia de uma universidade. Repetimos, talvez com demasiada facilidade, o sentido de suas linhas iniciais ali, sobre como uma universidade existe principalmente para formar estudantes e não para fazer avançar o conhecimento. Mas continuamos lendo para ver como se horrorizaria se a formação universitária levasse ao que ele desprezava como essa constante necessidade de opinar sobre tudo?

No entanto, a que outra coisa poderia levar se cada postura é aprovada com a nota máxima e se se assume que cada estudante, em cada ensaio que entrega, teria razoavelmente algo “original” para dizer?

Um homem intelectual, tal como o concebe o mundo atual, é alguém cheio de “opiniões” sobre todos os temas de filosofia e sobre todos os assuntos do dia. Quase se considera uma vergonha não ter uma opinião instantânea sobre qualquer questão, desde a Vinda Pessoal até a Cólera ou o Mesmerismo. Isso se deve em grande medida às necessidades da literatura periódica, hoje tão demandada.

Soa familiar? Há mais:

A cada trimestre, a cada mês, a cada dia, deve haver uma oferta, para o deleite do público, de teorias novas e luminosas sobre temas de religião, política externa, política interna, economia civil, finanças, comércio, agricultura, emigração e as colônias. A escravidão, os campos de ouro, a filosofia alemã, o Império Francês, Wellington, Peel, Irlanda: tudo deve ser analisado, dia após dia, pelos chamados pensadores originais. Assim como o convidado de um grande homem deve oferecer suas boas histórias ou canções no banquete vespertino, ou o orador de plataforma exibe seus dados contundentes ao meio-dia, o jornalista tem a severa obrigação de improvisar seus pontos de vista lúcidos, suas ideias norteadoras e suas verdades resumidas para a mesa do café da manhã.

Para nós, o algoritmo substituiu o jornal na mesa do café da manhã como aquilo que exige uma postura fresca e quente conforme a agenda.

O antídoto de Newman era o que ele chamava de “estudo crítico”, o qual concebia como o produto de um programa rigoroso, uma sequência de disciplinas exigentes sob o olhar de um tutor estrito: gramática, matemática, cronologia, geografia e “composição métrica”.

Em qual destas tens prática, mesmo que em um nível elementar?

E nem sequer abordamos o discurso que fomenta a inveja, a ira ou a malícia. Ou os pecados de injustiça cometidos com a palavra, como a murmuração, a fofoca ou a zombaria. Ou os pecados contra a verdade, como a jactância, a hipocrisia e a lisonja. E talvez uma atenção séria a todos esses pecados, que costumam ser menores, teria servido como muro de contenção e salvaguarda para alguém que hoje se encontra preso em escravidões verdadeiramente demoníacas, como a pornografia.

A religião de antes nos pedia ser estritos na busca do silêncio e da oração, em cuidar com quem nos juntávamos, que bem estávamos alcançando e em que tipo de pessoa nos estávamos tornando. A Internet tornou todas essas preocupações ainda mais urgentes. Quem nos vai dizer isso?

“Mas eu vos digo que de toda palavra ociosa que falarem os homens, prestarão contas dela no dia do juízo”. (Mateus 12, 36)

John Henry Newman por William Thomas Roden, c. 1874 [Manchester Art Gallery, Manchester, Inglaterra]

Sobre o autor

Michael Pakaluk, especialista em Aristóteles e Membro Ordinário da Pontifícia Academia de Santo Tomás de Aquino, é professor de Economia Política na Escola de Negócios Busch da Universidade Católica da América. Vive em Hyattsville, Maryland, com sua esposa Catherine, também professora na Escola Busch, e seus filhos. Sua coleção de ensaios, The Shock of Holiness (Ignatius Press), já se encontra disponível. Seu livro sobre a amizade cristã, The Company We Keep, está disponível através da Scepter Press. Foi colaborador em Natural Law: Five Views, publicado pela Zondervan no mês passado de maio, e seu livro mais recente sobre o Evangelho foi publicado pela Regnery Gateway em março, Be Good Bankers: The Economic Interpretation of Matthew’s Gospel. Podes segui-lo no Substack em Michael Pakaluk.

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