A 24 de julho de 1936, pelas ruas de Guadalajara, três carmelitas descalças foram perseguidas e abatidas a tiros. A mais velha tinha cinquenta e oito anos; as outras duas, apenas trinta. «Disparai-lhes, são freiras!». Não é preciso mais para conhecer o delito, a sentença e a causa da morte. Não perguntaram os seus nomes nem revistaram os seus bolsos nem verificaram se escondiam armas, documentos ou consignas; bastou reconhecer naquelas três mulheres, desajeitadamente disfarçadas com roupas seculares, algo que não tinham conseguido ocultar: eram religiosas. Não morreram pelo que tinham feito, mas pelo que eram; não formavam um comando nem levavam fuzis nem defendiam uma posição militar; defendiam, sem palavras, o direito de Jesus Cristo a possuir inteiramente um coração humano. As três morreram separadas por apenas alguns minutos e algumas centenas de metros, mas tinham percorrido juntas um caminho muito mais longo: o da fidelidade humilde, cotidiana e escondida. Porque o seu martírio não começou com os disparos: tinha começado muitos anos antes, na cela, no coro, no refeitório, na obediência aceita, na recreação fraterna, nas pequenas renúncias de cada dia. Impressionam os últimos minutos: os fuzis, os gritos, os corpos caídos na rua; mas aquelas mulheres, para a sua hora suprema, prepararam-se nas horas pequenas. Porque não se aprende a dizer sim diante de um pelotão se se viveu dizendo não a Deus no cotidiano; não entrega de uma vez o seu sangue quem regateou cada dia as pequenas gotas do sacrifício, nem sustenta o nome de Jesus entre disparos quem se envergonhou habitualmente d’Ele. Estas três sabiam que o martírio se alcança varrendo bem, guardando silêncio, chegando pontual ao coro, obedecendo sem dramatismo, aceitando a monotonia, sorrindo na recreação e recomeçando depois de cada fraqueza.
Maria Pilar, o perdão; Ângela, o silêncio; Teresa: Viva Cristo Rei!
O mosteiro de São José de Guadalajara mergulha as suas raízes na expansão inicial da reforma de Santa Teresa. A comunidade tinha sido fundada em Arenas de San Pedro em 1594 e transferiu-se para Guadalajara em 1619, sob o patrocínio da duquesa do Infantado. Procurando uma vida inteiramente escondida com Cristo em Deus, durante séculos gerações de mulheres atravessaram as suas portas para desaparecer do mundo com o afã de o salvar. Porque a clausura não é esquecimento indiferente; quem entra no Carmelo não abandona os homens: introduz-os na sua oração; retira-se da superfície para descer ao lugar onde se travam as verdadeiras batalhas. Em julho de 1936, a comunidade era formada por dezoito religiosas que viviam numa Espanha crispada, ferida pelo ódio ideológico, pela violência política e por uma hostilidade crescente contra a Igreja. Nos primeiros dias da Guerra Civil a perseguição religiosa manifestou-se com uma brutalidade que não distinguia entre combatentes e freiras, entre homens armados e mulheres encerradas atrás de uma grade. A 22 de julho Guadalajara caiu em mãos de forças revolucionárias e as carmelitas tiveram de abandonar precipitadamente o seu convento ante o temor certo de que fosse assaltado e incendiado. Vestidas à civil, saíram de duas em duas para se refugiarem em casas de famílias conhecidas. Para uma carmelita o hábito é memória de uma aliança, sinal visível de uma pertença, pobre libré da Virgem; aquelas mulheres tiveram de o substituir por outras roupas, mas sob o vestido secular permanecia intacta a sua consagração. Ao falar das «três carmelitas» parece que a sua santidade tivesse sido uniforme, como se fossem três figuras idênticas recortadas sobre o mesmo fundo. Mas a graça não fabrica cópias: Deus conduz cada alma por um caminho irrepetível. Eram três mulheres distintas por idade, caráter, formação e sensibilidade a quem o sangue uniu no final porque antes as tinha unido uma mesma vocação.
Maria Pilar de São Francisco de Borja, chamada no mundo Jacoba Martínez García e nascida em Tarazona em 1877, a mais velha das três, foi a última de onze irmãos, oito dos quais morreram na infância, e os sobreviventes foram um sacerdote e duas carmelitas no mesmo convento. Quando chegou o martírio levava já muitos anos de vida religiosa, muitos dias aparentemente iguais, muitas fidelidades que ninguém tinha anotado. Porque a santidade costuma precisar de duração, nem tudo se resolve num entusiasmo inicial; há virtudes que só se adquirem depois de repetir durante décadas os mesmos atos de amor: depois de ir a matinas quando o corpo pesa; após aceitar uma correção ou perseverar na oração quando a alma não sente nada; sustentando a vocação quando perdeu toda a novidade sensível. O sangue de Maria Pilar não foi a improvisação de uma tarde heroica, mas a última linha de uma vida escrita lentamente. Nas suas conversas em comunidade tinha expressado como imaginava o martírio: se chegasse aquela hora, dizia, iriam cantando «Coração Santo, Tu reinarás». O reinado de Cristo não era para ela uma consigna política nem uma expressão decorativa, mas a certeza de que o Seu Coração traspassado venceria precisamente quando tudo parecesse derrotá-lo. Não pôde cantar aquele hino quando recebeu os disparos; pronunciou palavras ainda mais altas: «Viva Cristo Rei! Meu Deus, perdoai-lhes!» Ferida gravemente, caiu na rua. Ao verificar que ainda vivia, voltaram a disparar-lhe e foi ainda atacada com arma branca. Um guarda conseguiu levá-la primeiro a uma farmácia, depois à Cruz Vermelha e finalmente ao Hospital Provincial. Ali morreu segurando um crucifixo e repetindo o perdão para quem a tinha destroçado. Cabe uma interpretação política deste martírio? Concedamos: poderia gritar-se «Viva Cristo Rei!» com uma certa exaltação, mas só a graça permite acrescentar: «Perdoai-lhes». O Reino que Maria Pilar proclamava não se parecia com os reinos deste mundo: o seu Rei levava coroa de espinhos, o seu trono era uma cruz, a sua vitória consistia em amar quando o ódio parecia ter todas as armas. Maria Pilar não morreu amaldiçoando, mas intercedendo por Espanha; não pedindo castigo, mas misericórdia. Se tinham quebrado o seu corpo, não conseguiram inocular ódio no seu coração. Eis o triunfo autêntico do mártir: não simplesmente suportar a violência, mas impedir que a violência se apodere interiormente dele.
A irmã Teresa do Menino Jesus e de São João da Cruz (Eusebia García García), nascida em Mochales, de Guadalajara, em 1909, a segunda de oito irmãos, é a mais jovem das três mártires. Após ler a “História de uma alma” de Santa Teresa do Menino Jesus, entrou no Carmelo com 16 anos em 1925 e emitiu os votos solenes em 1930. O seu nome religioso cifra uma vocação estendida entre dois cumes do Carmelo: a infância espiritual de Santa Teresinha e a nudez de São João da Cruz. Da primeira aprendeu que a santidade consiste em entregar-se com confiança; do segundo, que o amor verdadeiro não reserva nada. De caráter forte, costumava dizer: “Não gosto das vidas dos santos em que só falam das suas virtudes, ocultando as suas faltas e combates. Quando eu morrer, não ocultem os meus defeitos para que brilhe mais a misericórdia de Jesus para comigo”. Antes da perseguição tinha expressado o desejo de morrer proclamando «Viva Cristo Rei!». E dizia que os mártires teriam no céu um amor particular aos seus algozes, porque estes lhes tinham aberto a porta da felicidade eterna, entregando o mártir à Vida. Só um coração completamente possuído por Cristo pode contemplar o inimigo não como alguém a quem odiar, mas como alguém por quem interceder. A 24 de julho, quando a situação da casa onde se refugiavam começou a resultar perigosa para quem as ocultava, Teresa ofereceu-se para procurar outro alojamento. Saiu acompanhada de Maria Pilar e Maria Ângela rumo a uma casa amiga da rua Francisco Cuesta, mas no caminho foram reconhecidas e uma miliciana alertou os demais: «Disparai-lhes, são freiras!» Maria Ângela caiu primeiro; Maria Pilar foi abatida depois; Teresa contemplou a morte de ambas, mas os disparos não a atingiram. Tentou refugiar-se, foi interceptada e um homem aparentou querer conduzi-la a um lugar seguro, mas dirigiu-a para o cemitério e outros milicianos juntaram-se ao grupo. Como tentassem dobrá-la e fazer com que gritasse uma consigna revolucionária, Teresa abriu os braços em cruz, pôs-se a correr e gritou com toda a força da sua juventude: «Viva Cristo Rei! Viva Cristo Rei!», enquanto uma descarga pelas costas acabava com a sua vida. Tinha desejado dar todo o seu sangue a Cristo e Cristo tomou-a a sério. A sua corrida final não foi uma fuga: corria para a morte, sim, mas na realidade corria para o Esposo. Abriu os braços para se parecer pela última vez com o Crucificado. Ela, que tinha vivido com os braços recolhidos na oração, ocupados no trabalho, cruzados sob o escapulário, abriu-os quando já não pretendia guardar nem uma só gota de sangue. No dia seguinte ao seu martírio, o seu tio sacerdote, Florentino García Andrea, foi detido na paróquia de São Pedro de Sigüenza, e fuzilado no lugar La Hortaza, caminho de Barbatona, ao amanhecer de 11 de agosto.
Maria Ângela de São José chamava-se Marciana Valtierra Tordesillas. Tinha nascido em Getafe em 1906, a mais nova de onze irmãos, seis dos quais morreram crianças. Perdeu a mãe quando contava três anos, e por cuidar do pai não pôde entrar no Carmelo de São José até aos 24. A leitura da “História de uma alma”, de Santa Teresa do Menino Jesus, contribuiu para o despertar da sua vocação carmelitana. Desejando entrar no Jovem Carmelo do Cerro de los Angeles, cuja priora, Santa Maravillas de Jesus, por não ter vagas, a encaminhou para São José de Guadalajara, tomou o hábito em 1930, e emitiu os seus votos solenes em 1934, apenas dois anos antes de morrer. Nas recreações, ao falar-se do possível martírio, Maria Ângela considerava morrer por Cristo uma graça imensa, da qual se julgava indigna. E acrescentava: «É preciso alcançá-la com a fidelidade nas coisas pequenas». Quando saiu do portal da rua Francisco Cuesta foi a primeira a receber os disparos. Caiu mortalmente ferida e morreu ali, em silêncio. Não conhecemos uma frase final pronunciada por ela; talvez esse silêncio seja o seu último ensinamento. Nem todos os mártires morrem pregando, mas todos pregam morrendo. Em Maria Ângela, o seu corpo abatido dizia tudo o que era necessário: que preferiu morrer a envergonhar-se de ser esposa de Jesus Cristo. Tinham-na identificado como freira; isso bastou para a matar e isso basta à Igreja para a venerar.
A verdade histórica: o delito de gritar Viva Cristo Rei!
As carmelitas de Guadalajara não foram assassinadas no meio de um combate nem atingidas por disparos fortuitos: morreram por ódio à fé. A causa determinante da agressão foi a sua condição religiosa, reconhecida e denunciada expressamente. Essa realidade foi a que permitiu à Igreja reconhecer formalmente o seu martírio. A frase «são freiras» funcionou como acusação completa. Se noutras épocas teria provocado respeito, naquela tarde provocou a descarga. Por que resulta tão insuportável uma freira para uma ideologia totalitária? Porque uma contemplativa é uma mulher que se colocou fora do mercado dos poderes humanos; não pode ser comprada com honras, seduzida com promoções nem ameaçada com a perda de um futuro que já entregou. Vive de uma relação que o Estado não administra; obedece a uma autoridade que não nasce das urnas nem dos fuzis; ama um Esposo invisível, mas mais real para ela do que todos os chefes da terra. Uma freira de clausura parece indefesa, e precisamente por isso é perigosa para todo o poder que pretenda ser absoluto. Com a sua existência afirma que o homem não pertence ao Estado, que não se realiza unicamente mediante o que produz; que existe uma fecundidade que não é biológica e uma liberdade mais alta que a autonomia. Que há um Rei eterno diante de quem todos os poderes da terra são provisórios. Era preciso fazê-las desaparecer porque o totalitarismo não se conforma com expulsar Deus dos edifícios públicos; precisa de o expulsar da memória, da consciência, da linguagem e até dos corpos que lhe pertencem. As três carmelitas morreram porque as suas pessoas eram templos de uma Presença que não podia ser requisada.
Falar dos mártires de 1936 exige verdade, serenidade e justiça: nem se honra os mortos manipulando a história nem se serve a reconciliação ocultando os crimes. Espanha tinha chegado a julho de 1936 dilacerada por confrontos sociais, políticos e militares, por violências procedentes de diversos setores e por uma incapacidade coletiva para preservar a convivência. Mas reconhecer a complexidade do contexto não leva a difuminar a especificidade da perseguição religiosa. Milhares de sacerdotes, religiosos, religiosas e seculares foram assassinados não por ações bélicas, mas pela sua identidade católica. Igrejas, imagens, arquivos e conventos foram destruídos. Vestir uma sotaina, possuir um crucifixo, esconder um sacerdote ou ter professado numa comunidade podia converter-se em sentença de morte. A Igreja, ao beatificar mártires, não canoniza uma guerra, um bando nem um projeto político; não declara santos todos os que morreram de uma parte nem nega os pecados cometidos por católicos, mas, após estudar vidas e mortes concretas, reconhece que determinadas pessoas foram assassinadas por ódio a Cristo e aceitaram a morte com fé, fortaleza e perdão. No caso de Guadalajara, a motivação ficou nua numa única exclamação: «São freiras». O substantivo continha o crime.
Santa Teresa desejou desde criança marchar para terra de mouros para derramar o sangue por Cristo. Quando compreendeu que não estava chamada a esse martírio exterior, converteu toda a sua vida em martírio de amor: morrer a si mesma, sofrer pela Igreja, entregar-se à oração e fundar pequenos «colégios de Cristo» onde umas poucas mulheres sustentassem o mundo desde a clausura. São João da Cruz não morreu violentamente, mas padeceu prisão, incompreensão, abandono e uma noite purificadora que fez de toda a sua existência uma oblação. Santa Teresinha confessou o seu desejo de padecer todos os martírios, embora soubesse que o seu verdadeiro martírio seria o do amor vivido na pequenez. As três carmelitas de Guadalajara reúnem essas três correntes. Em Maria Pilar aparece a firmeza teresiana e o zelo pelo reinado de Cristo. Em Teresa, a totalidade sanjoanista: não guardar nada, dar todo o sangue, sair de si para entrar em Deus. Em Maria Ângela, o caminho teresiano-lexoviense da fidelidade escondida. As três mostram que o Carmelo é trasunto do Calvário. O silêncio ensinou-as a escutar a voz do Esposo; a pobreza tirou-lhes apoios; a castidade unificou os seus corações; a obediência ensinou-as a não pertencerem a si mesmas; a clausura mostrou-lhes que só basta Deus. Assim, quando chegou a morte, já a tinham ensaiado. Só faltava o último ato de obediência.
As mártires de Guadalajara são um eco da escatologia do reinado de Cristo e da espiritualidade reparadora do Sagrado Coração. Maria Pilar imaginava a comunidade a caminho do martírio cantando «Coração Santo, tu reinarás». Teresa desejava morrer — e conseguiu-o — proclamando «Viva Cristo Rei!». Ambas as expressões pertencem ao clima espiritual de uma Espanha que tinha recebido com força a devoção ao Sagrado Coração e a doutrina do reinado social de Jesus Cristo. Mas convém compreendê-las bem. Cristo Rei não é um caudilho celestial posto ao serviço das nossas preferências temporais: o Seu Reino não se impõe com fuzis; não precisa de vingadores nem conquista praças: conquista corações. Ao gritar «Viva Cristo Rei!» enquanto era assassinada, Teresa mostrava que adoravam um Rei que vence deixando-se ferir e reina desde um madeiro. Maria Pilar uniu o grito de vitória ao perdão, sem o qual «Cristo Rei» pode converter-se numa consigna. O Sagrado Coração reinou porque três vítimas amaram até o fim. Reinou quando Maria Pilar perdoou. Reinou quando Maria Ângela calou. Reinou quando Teresa abriu os braços em cruz. Se os vermelhos dominavam a rua, Cristo reinava naqueles três corações. E o império do Seu Amor dura eternamente, enquanto qualquer controlo de uma cidade termina.
Saboreio de martírio, feminilidade indobrável e pudor sob as balas
As carmelitas falavam do martírio nas recreações conventuais, enquanto costuravam, conversavam e se animavam mutuamente, numa pedagogia comunitária martirial: umas alimentavam a fé das outras; a mais velha partilhava o seu ardor; a jovem confessava o seu desejo; a mais tímida recordava a necessidade de ser fiel no pequeno. A caridade cristã é assim: emprestar fé a quem vacila, memória a quem esquece, esperança a quem se cansa e valentia a quem teme. As nossas três mártires levavam dentro as palavras das suas irmãs: Maria Ângela tinha ouvido falar do perdão; Teresa, a organista, tinha escutado cantar o reinado do Coração; Maria Pilar tinha contemplado o ardor das jovens. Quando saíram juntas, levavam consigo a fé de toda a comunidade. Isto interpela as nossas famílias, paróquias, seminários e conventos. De que falamos quando estamos juntos? Ajudamo-nos a desejar a santidade ou confirmamo-nos mutuamente na mediocridade? Alimentamos a valentia ou cultivamos o medo e a contemporização do politicamente correto, também no eclesial, tão descafeinado hoje e tão longe da parrésia apostólica e martirial? As nossas conversas tornam mais fácil ser fiel a Cristo ou mais cómodo afastar-se d’Ele? Aquelas recreações prepararam mártires; muitas conversas atuais preparam desertores, apóstatas silenciosos ou piedosos burgueses.
As três mártires oferecem ainda uma reflexão necessária sobre a liberdade e a dignidade da mulher. Frequentemente apresenta-se a vida religiosa como negação da autonomia feminina. Imagina-se a freira como uma mulher anulada por uma estrutura, privada de experiências e submetida a regras que lhe impedem realizar-se. Mas quem foi realmente livre naquela tarde? Os homens e mulheres submetidos ao ódio coletivo, incapazes de olhar três pessoas sem as reduzir a uma etiqueta, ou as religiosas que tinham escolhido conscientemente a Quem entregar a sua vida e permaneceram fiéis quando a escolha lhes custou sangue? O mundo pretende libertar a mulher de todos os vínculos, exceto daqueles que o próprio mundo lhe impõe. Aceita que entregue o seu corpo ao mercado, à moda, ao prazer ou à produtividade e não compreende que o entregue a Deus. As três descalças de Guadalajara foram assassinadas porque, fora do projeto ideológico que as rodeava, tinham tomado uma decisão irreversível e escandalosa: não estar disponíveis para nenhum outro absoluto que não Jesus Cristo.
Teresa mostrou uma extraordinária firmeza quando um homem tentou tomá-la pelo braço. Não aceitou uma falsa proteção que comprometesse a sua liberdade e a sua consagração: caminhou desconfiada, repetindo o nome de Jesus, até compreender a armadilha e responder abrindo os braços em cruz. Não foi uma mulher passiva: foi uma mulher consagrada. Porque se a passividade se deixa utilizar, a consagração imola-se, não se deixa possuir.
A agonia de Maria Pilar, estendida no balcão de uma farmácia, com um rim ao descoberto, contém um detalhe delicado e terrível: ao ouvir falar a Dona Maria Carrasco, dizia-lhe: “Não me deixe, senhora, que não me toquem; perdoai-lhes, Senhor!” No meio de dores extremas, conservava o pudor de uma mulher que tinha pertencido toda a sua vida a Cristo. O seu pudor cristão não era medo do corpo, mas consciência da sua grandeza. Para a carmelita, o corpo não é algo que se possa manipular sem respeito: foi consagrado; jejuou, velou, trabalhou, ajoelhou-se e recebeu a Sagrada Comunhão. É o corpo de uma esposa de Cristo e templo do Espírito Santo.
A nossa época fala continuamente do corpo e, no entanto, raramente o trata como sagrado. Exibe-o, modifica-o, comercializa-o, medicaliza-o, explora-o e deita-o fora. Estas mártires recordam que o corpo cristão possui uma dignidade que nem sequer a violência pode abolir. Os disparos destruíram os seus corpos, mas não os profanaram interiormente, porque a dignidade não depende de que o agressor a reconheça: depende de Deus, que a depositou em nós.
A beatificação: liberdade joanopablista e atualidade
São João Paulo II beatificou as três carmelitas a 29 de março de 1987, na praça de São Pedro. Aquela celebração teve uma importância histórica singular: foram as primeiras mártires da perseguição religiosa de 1936 elevadas aos altares. O Papa apresentou-as à Igreja juntamente com outras grandes figuras espanholas — os Beatos Marcelo Spínola e Mosén Sol — e exortou os fiéis a viver e testemunhar a fé coerentemente na sociedade. A data marcou uma mudança decisiva, pois durante décadas a memória dos mártires da Cruzada espanhola — agora se diz absurdamente «do século XX» — tinha ficado envolta em feridas políticas, interpretações contrapostas e silêncios interessados. A beatificação não pretendia reabrir uma guerra; vinha libertar as vítimas da utilização ideológica e situá-las no seu verdadeiro lugar: diante do altar de Deus.
João Paulo II não proclamou vencedores uns espanhóis contra outros, mas três cristãs que perdoaram, não apresentando-as como combustível para o ressentimento, mas como remédio para a reconciliação. Porque o mártir recorda a verdade do crime, mas não perpetua o ódio. A memória cristã não é amnésia: sabe quem matou, por que matou e como morreu a vítima, mas leva essa verdade até a cruz, onde a justiça não fica negada e a misericórdia não se torna sentimentalismo.
No Angelus posterior, João Paulo II pediu que a vida dos católicos espanhóis sintonizasse com a vontade de Deus e que fossem testemunhas de Cristo na sociedade. E estendeu expressamente a sua saudação e bênção aos Carmelos de Espanha.
As três carmelitas são beatas virgens e mártires e a sua memória litúrgica própria é a 24 de julho, data do seu martírio. Ainda não canonizadas, esperamos um reconhecimento universal que, sem acrescentar nada à sua glória no céu, estenderia o seu culto a toda a Igreja. É preciso invocá-las, conhecê-las, pedir a sua intercessão, para que o seu testemunho saia dos limites da memória local.
Se Compiègne possui Bernanos e Poulenc e a guilhotina francesa se converteu em literatura universal, a de Guadalajara — apesar da precoce semblança nada menos que de Cristina de Arteaga — é uma história menos conhecida. Não é hora de estas três mulheres deixarem de ser apenas «as mártires de Guadalajara» para se converterem em mestras espirituais de toda a Espanha? Ao morrerem porque a sua condição cristã era visível, ensinam-nos que a fé não pode reduzir-se a sentimento privado. Hoje tolera-se com relativa facilidade uma fé encerrada na consciência, desde que não afete as decisões, à linguagem, à moral nem à vida pública. Aceita-se que alguém «tenha as suas crenças» desde que viva como se não as tivesse. As carmelitas não pronunciavam discursos políticos; a sua só existência tornava pública a soberania de Deus. O católico de hoje não precisa de procurar provocações nem adotar uma agressividade imprópria do Evangelho, mas também não pode camuflar indefinidamente a sua pertença a Cristo. Chega um momento em que é preciso deixar-se reconhecer. Se não por um hábito, por uma decisão honrada, uma palavra limpa, a recusa de participar numa injustiça, a fidelidade ao matrimónio, a defesa da vida, a forma de tratar o débil, a valentia de persignar-se, o modo de perdoar. Também hoje pode ouvir-se, com outros acentos: «É cristão». A questão é se essa identificação nos envergonha ou nos honra.
Porque não se improvisa a valentia. Gostaríamos de pensar que seríamos heroicos numa perseguição. Mas o martírio não transforma magicamente uma alma negligente. Quem não sabe renunciar a um conforto dificilmente renunciará à vida; quem cala sempre por medo ao juízo social não falará facilmente diante de um tribunal; quem guarda rancor por uma pequena ofensa não perdoará espontaneamente a quem lhe dispara. A grande graça prepara-se mediante a fidelidade no pequeno e cada jornada oferece um treino para o martírio: levantar-se quando corresponde; cumprir o dever sem aplausos; dominar uma palavra áspera; renunciar a uma curiosidade; guardar pureza no olhar; confessar a fé sem jactância; perdoar antes de deitar-se; rezar quando não apetece; ser fiel à Santa Missa; não negociar com a consciência. Talvez nunca nos peçam o sangue, mas todos estamos chamados a entregar a vontade. E talvez custe mais morrer cada dia a si mesmo do que morrer uma só vez.
As três mártires ensinam-nos que o perdão não apaga a verdade. Maria Pilar não disse que não tivesse acontecido nada. O seu corpo estava despedaçado, sabia quem a tinha atacado e perguntava com a simplicidade desconcertada da inocência que mal lhes tinha feito. Mas perdoou. O perdão cristão não declara justo o injusto; não converte o assassino em inocente nem dispensa do dever de reparar; mas renuncia a devolver ódio por ódio e entrega o juízo definitivo a Deus. Espanha precisa desta lição para não construir memória sem perdão nem pedir perdão sem verdade. As nossas mártires unem ambas as coisas. A verdade: foram assassinadas por serem freiras; e o perdão: morreram sem odiar. Só sobre essas duas colunas se pode construir uma reconciliação que não seja nem propaganda nem esquecimento.
Pilar, Teresa e Ângela recordam-nos que Cristo deve reinar primeiro dentro de nós. Se é fácil aclamar Cristo Rei, não o é tanto permitir-lhe governar. Ele reina quando domina o nosso orgulho e ressentimento, a nossa sensualidade, as nossas ambições, a nossa língua. Não reina verdadeiramente em quem grita o seu nome e se recusa a cumprir os seus mandamentos. Teresa proclamou «Viva Cristo Rei!» depois de uma vida de obediência; Maria Pilar, perdoando. Aí está a medida. Antes de pedir que Cristo reine nas leis, devemos perguntar-nos se reina nas nossas casas; antes de lamentar que a sociedade o rejeite, devemos examinar quantas estâncias do nosso coração permanecem fechadas para Ele. Porque o reinado social de Cristo começa numa consciência ajoelhada.
As três mártires tinham nascido em lares cristãos e recebido uma fé suficientemente forte para amadurecer em vocação. A documentação oficial da causa sublinha precisamente o valor do ambiente familiar cristão na formação e crescimento da fé. Hoje pedimos vocações, mas educamos os jovens como se a entrega total fosse uma desgraça; queremos sacerdotes, mas não o nosso filho; freiras, mas não a nossa irmã. Admiramos os mártires quando já estão nos altares, embora talvez tivéssemos tentado dissuadi-los quando bateram à porta do convento. Uma Igreja sem famílias generosas acaba por ser uma Igreja sem altares atendidos, sem conventos vivos e sem missionários. As vocações não caem do céu como meteoritos; crescem onde se reza, se fala da consagração, se ama a Santa Missa e os pais compreendem que os filhos lhes foram confiados, não entregues em propriedade.
Cristo merece toda a vida!
A morte das carmelitas desmonta três grandes mentiras modernas. A primeira, que a religião enfraquece a mulher: aquelas três mulheres foram mais livres e mais fortes do que aqueles que as rodeavam armados. A segunda, que a clausura afasta da realidade: quando chegou a hora mais real da sua existência, estavam preparadas para a enfrentar. A terceira, que a fé divide e gera ódio: quem morreu por Cristo foi quem perdoou, enquanto quem pretendia construir uma sociedade sem Deus disparou sobre mulheres indefesas. Se a ideologia pede ódio, a fé dá perdão. A ideologia exige consignas, gastas e sofísticas, e a fé responde com o nome de Jesus. A ideologia chega a tirar a vida e, em troca, a fé dá a eternidade.
As três carmelitas de Guadalajara morreram sem tribunal nem sentença. Foi um martírio desordenado, de rua, brutal. E é que a santidade não se desenvolve em cenas perfeitas: não há tempo para preparar as palavras, adotar uma postura solene, reunir a comunidade; às vezes Deus chega no meio do caos e uma bala interrompe a frase, uma porta não se abre, um suposto protetor converte-se em ameaça, a irmã que caminhava ao teu lado cai ao chão. Então, só resta o que levavas dentro: Maria Ângela, silêncio; Maria Pilar, perdão; Teresa, o nome de Cristo. Saiu delas o que vivia nelas.
Guadalajara conserva os lugares daquele percurso, com o seu traçado urbano convertido em via-sacra: a rua Francisco Cuesta, o entorno de São João de Deus, a ponte de São António, o caminho do cemitério. Lugares pelos quais hoje circula a vida diária sem talvez advertir que ali caiu sangue martirial. O cristianismo possui a capacidade misteriosa de transformar a geografia. Uma calçada em que alguém morre por Cristo converte-se em memória; um hospital, em santuário; o caminho ao cemitério, em via-sacra. Não seria inútil que os católicos de Espanha peregrinassem mais a esses lugares. Viajamos longe à procura de emoção religiosa e às vezes ignoramos os santuários de martírio que temos ao lado. Espanha está semeada de conventos, valetas, muros e cemitérios onde alguém pronunciou pela última vez o nome de Jesus. Não para cultivar ressentimentos ou reabrir trincheiras de ódio aos perseguidores, mas para pedir valentia, fechar feridas na verdade e aprender dos mártires a perdoar.
Em 1941, os restos das mártires foram recuperados da fossa comum e levados ao mosteiro de São José. Hoje repousam junto ao altar-mor, sob as imagens daquelas três mulheres que um dia saíram da clausura obrigadas e vestidas à civil, ocultando a sua identidade e voltaram publicamente reconhecidas como mártires. Fugiram procurando refúgio e regressaram para se converterem elas mesmas em refúgio de quem pedisse a sua intercessão. Saíram como fugitivas e regressaram como vencedoras.
Espanha precisa de olhar para estas mulheres porque hoje padece outras formas de perseguição e de cobardia. Não nos ameaçam com fuzis, mas com o ridículo; não nos levam ao cemitério, mas podem levar-nos à irrelevância social; não nos exigem gritar «Viva o comunismo», mas instam-nos constantemente a repetir os «dogmas culturais» da temporada. E muitos católicos, cedendo antes de que ninguém lho peça, ocultam a fé, suavizam a doutrina, pedem desculpa pela moral do Evangelho, falam de «valores» sem nomear Cristo, querem ser aceites a qualquer preço, votar em qualquer partido, flertar em qualquer ambiente.
As mártires de Guadalajara não foram agressivas: não provocaram nem insultaram nem procuraram a morte. Mas, quando a morte chegou, não compraram uns minutos mais de vida ao preço de negar o Esposo. Essa é a questão que colocam: Há algo que não estejamos dispostos a vender? Existe em nós uma fidelidade não negociável? Ou bastaria um olhar irónico, uma perda económica, um título hostil ou uma ameaça profissional para que escondêssemos o escapulário da alma?
Deus quis que as três morressem de modo distinto. Maria Ângela caiu em silêncio. Maria Pilar teve tempo para perdoar. Teresa correu proclamando Cristo Rei. Três formas de uma mesma confissão. O silêncio diz: pertenço-te. O perdão diz: amo como Tu. O grito diz: reinas sobre mim. Nem todos estamos chamados a uma mesma exteriorização da fé. Há santos silenciosos, santos que consolam e santos que proclamam. Mas em todos deve existir a mesma raiz: uma pertença absoluta a Jesus Cristo. A Igreja de hoje precisa dessas três graças: o silêncio de Maria Ângela diante do ruído vazio; o perdão de Maria Pilar diante do ressentimento; a valentia de Teresa diante da apostasia vergonhosa.
Se naquela manhã tinham vestido roupas seculares para ocultar que eram freiras, ao entardecer, o seu sangue devolveu-lhes o hábito. O martírio vestiu Maria Ângela de silêncio, Maria Pilar de misericórdia, Teresa de fortaleza. As balas rasgaram os seus vestidos emprestados, mas deixaram a descoberto a sua verdadeira identidade de esposas de Cristo. Nada mais. Nada menos. Mulheres que tinham entregado a vida antes de que ninguém viesse lha tirar. Por isso, quando chegaram os disparos, encontraram muito pouco que arrebatar: as suas vidas já pertenciam a Cristo. E o que se pôs definitivamente nas suas mãos pode ser ferido, perseguido, despedaçado e enterrado, mas não pode perder-se. As ruas de Guadalajara ouviram durante uns segundos o fragor do tiroteio; o Carmelo continua a ouvir o silêncio de Maria Ângela, o «perdoai-lhes» de Maria Pilar, o «Viva Cristo Rei!» de Teresa. Três açucenas ceifadas. Três lâmpadas acesas diante do Cordeiro. E um pulsar para o nosso tempo: Cristo merece toda a vida!