TRIBUNA. As três verdades que a Bíblia ensinou antes da ciência

Por: Luis López Valpuesta

TRIBUNA. As três verdades que a Bíblia ensinou antes da ciência

No início do século XVII, Caravaggio pintou dois soberbos quadros sobre o Evangelista Mateus no instante em que toma a pena para oferecer ao mundo as suas recordações sobre Jesus. E em ambas as pinturas emerge uma figura sobrenatural, um anjo. Numa, parece que este mensageiro divino simplesmente lhe sussurra ao ouvido «palavras arcanas que a ninguém é permitido pronunciar» (2 Cor. 12,4). Na outra, segura-lhe a mão para guiar diretamente a sua escrita. Através de ambas as representações, o genial pintor italiano mostra-nos duas perspetivas sobre a divina inspiração das Sagradas Escrituras; uma, teologicamente admissível; a outra, incorreta. A primeira, cristã; a segunda, maometana (significativamente, o primeiro Mateus traz auréola, o segundo não).   

Este último quadro foi rejeitado pelos seus compradores, mas curiosamente não pelo frequente erro de eliminar a intervenção do espírito humano na redação do evangelho, mas porque lhes pareceu desrespeitosa a imagem do evangelista, com pés sujos e pernas nuas. Infelizmente esse quadro já não existe, pois foi destruído em 1945 por um bombardeamento aliado sobre o museu de Berlim que o abrigava, mas conservamos fotografias do mesmo. O outro que pintou, e que hoje podemos admirar no Louvre, desenha o antigo publicano com a pena na mão e os olhos voltados para o céu, onde um anjo parece falar-lhe. Embora com o mesmo estilo tenebrista do primeiro, o quadro apresenta figuras mais estilizadas e explica de maneira mais adequada a inspiração. O hagiógrafo eleva o olhar, e um (invisível) espírito ilumina e purifica a sua inteligência, para escrever «tudo e só o que Deus quer’. Este quadro, ao contrário do anterior, foi adquirido com entusiasmo por aqueles que o encomendaram ao feroz artista italiano, mas apenas porque a sua proposta era mais respeitosa com a figura do publicano Mateus, não pela sua rigorosidade teológica. De facto, segundo muitos críticos, a primeira das pinturas (a que já não existe) tinha maior força e mérito, embora os personagens, do ponto de vista da inspiração, evoquem mais Maomé e o péssimo espírito que lhe revelou o seu Corão.

Ora, que a Bíblia seja o único livro do mundo ao qual podemos qualificar como «divino», é uma verdade que, a meu ver, não se fundamenta apenas no conceito de inspiração, tal como os teólogos o têm vindo a desenvolver.  A inspiração, certamente, é o elemento sobrenatural (de fé) e o mais importante para avalar a autoridade da Escritura; é o que permite definitivamente conciliar a autoria de Deus com a ação do escritor humano. A este respeito têm sido dadas historicamente numerosas explicações a este complicado conceito, mas a meu ver, foi Santo Tomás quem com maior agudeza resolveu o problema, com a sua distinção entre causa principal e causa instrumental, de tal modo que o Espírito divino consegue, respeitando a liberdade e a capacidade do hagiógrafo, elevar a sua mente para que seja capaz de exprimir o que Deus quer comunicar-nos. 

A Constituição Dogmática Dei Verbum (1965) do Concílio Vaticano II sobre a «Divina Revelação», retomando a Dei Filius (1870) do Vaticano I, afirma com rotundidade, em primeiro lugar, a autoria divina, mas last but no least, a imprescindível cooperação humana, -também como verdadeira autoria-, o que supôs um acertado aprofundamento na definição dogmática do concílio anterior.

(11) «A Santa Madre Igreja, segundo a fé apostólica, tem por santos e canónicos os livros inteiros do Antigo e do Novo Testamento, porque escritos pela autoridade do Espírito Santo, têm Deus como autor e como tais foram entregues à Igreja.  Mas na redação dos livros sagrados, Deus escolheu homens que, usando das suas próprias faculdades e meios, de modo que obrado Ele neles e por eles, escreveram, como verdadeiros autores, tudo e só o que Ele queria»

Mas como disse, sem recorrer a argumentos de autoridade sobrenatural, podemos mostrar razoavelmente até que ponto, neste conjunto heterogéneo de livros, escritos por numerosos autores de toda condição e ofício (desde reis e sacerdotes, a trabalhadores braçais, pastores, pescadores ou cobradores de impostos), durante vários séculos até ao I da nossa era -isto é, numa etapa que se qualificaria como pré-científica-, já se afirmavam verdades hoje maioritariamente aceites pelas distintas modalidades do saber científico, sem excluir as ciências empíricas mais rigorosas.  E isso não obedecia a que os hagiógrafos fossem especialmente inteligentes ou a que contassem com sofisticados meios técnicos para esquadrinhar a natureza das coisas, mas precisamente à sua condição de hagiógrafos, de recetores da Palavra de Deus, que não pode enganar nem ser enganado. É mais, como veremos, se o mundo intelectual moderno foi relutante em alguns casos a aceitar essas verdades, ao atribuir-lhes um selo científico, foi precisamente porque soavam demasiado bíblicas. Verdades, em definitivo, que a Bíblia exprimia numa linguagem popular, e até poética, mas cujo significado não difere das conclusões que, em numerosas ocasiões, se alcançou com a metodologia científica. Embora o nosso mundo seja cada vez mais irracional e alguns ressuscitem o disparate do velho averroísmo latino (podem existir verdades bíblicas e científicas contraditórias entre si), o certo é que Santo Tomás já nos ensinou que a verdade é uma só e que brota da aedequatio intellectus et rei. E que fé e razão são caminhos distintos mas que convergem no mesmo lugar, e que não podem ser vias contraditórias porque Deus é a origem de toda a Verdade.

São três, a meu ver, as verdades mais importantes que a Bíblia antecipou antes da sua verificação pela reflexão filosófica ou pelos procedimentos das ciências modernas.

A afirmação de um único princípio fundante; de um Deus único e absolutamente transcendente

Os antropólogos, com os escassos dados de que dispõem, discutem hoje a hipótese de se, nas origens do homem, se adorava um único Deus, e se essa piedade simples degenerou no politeísmo (ponto de vista bíblico). Variadas têm sido as respostas a tal problema, mas do que não cabe a mínima dúvida é o facto de que todas as religiões antigas eram politeístas (e os seus deuses se vinculavam a forças da natureza ou a paixões humanas), salvo a religião judaica (Deus único, transcendente, todo-poderoso e irrepresentável). É verdade que, embora monoteísta, esteve sempre tentada pela visão mais popular do henoteísmo -muitos deuses locais ou menores, mas um só Deus, YHWH-; desvio duramente condenado pelos profetas desde muito antes do exílio da Babilónia. Já em Dt. 32,17, Moisés associa os deuses estrangeiros aos demónios, e a partir do exílio e na etapa persa essa verdade fica fortemente consolidada. Só há um Deus transcendente, não tem imagem, e os deuses inferiores dos demais povos são demónios, isto é, criaturas criadas pelo Deus único, e rebeldes, apenas obrigadas a contragosto a não ultrapassar os limites impostos pelo Criador -veja-se Job. 1,4 e ss). 

Por outro lado, a reta razão também conduz ao monoteísmo, pela via da especulação filosófica. É muito chamativo que os primeiros filósofos gregos, que assumiram a não materialidade do primeiro princípio ou Arjé (isto é, os primeiros que em rigor fizeram metafísica), eram politeístas de cultura e coração. No entanto, do ponto de vista racional apontavam a uma unidade suprema com o conceito de Ser (Parménides), com a ideia de Bem, princípio superior da hierarquia das ideias (Platão), ou com a afirmação do Motor Imóvel, ao qual, pela sua perfeição e amor, tendem todas as criaturas como causa final (Aristóteles). E algo muito significativo: o primeiro princípio liga sugestivamente o elemento metafísico… e o moral. Dito de outro modo, pela sã razão, os gregos roçaram os confins do único, transcendente verdadeiro e santo Deus, embora não tenham chegado a admitir o seu papel na criação do universo, que estimavam eterno (tal como os físicos e astrónomos até ao século XX, diga-se de passagem). Por outro lado, aplicando simplesmente a regra mestra da navalha de Occam, (entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem, não multiplicar os entes sem necessidade), pode chegar-se à conclusão de que não podem existir dois ou mais seres com os atributos absolutos que o teísmo associa a Deus, pelo que Este tem de ser necessariamente único. 

Os judeus souberam esta Verdade muito antes dos melhores filósofos, mas não por reflexão, mas por revelação. O EU SOU O QUE SOU, que surgia de uma estranha sarça que ardia sem se consumir, não se manifestou a um sábio ou a um poderoso, mas a um pobre exilado do Egito nos tempos de Seti I ou Ramsés II; um refugiado numa tribo nómada do devastador deserto do Sinai, um ninguém. O nome judeu original de Deus, além disso, tem tanta riqueza conceptual que evoca de modo dinâmico o domínio absoluto Deste sobre o futuro, bem como a fidelidade inquebrantável ao seu povo –Emet- (por isso alguns, como faz a Bíblia do Urso de 1569, o traduziram como EU SEREI O QUE SEREI). Mas também tem a significação mais rigorosamente metafísica e ontológica do SER (a tradução dos LXX, século III a.C.). O que Santo Tomás definia como Puro Ato de Ser, aquilo com um poder tão infinito que pode fazer que as coisas sejam ou existam ex nihilo.  O Deus dos hebreus, deste modo, superou em tudo o que descreveram os filósofos pela simples razão de que os judeus o receberam tal como É, porque lhes foi manifestado plenamente por pura graça (não por mérito algum, Dt. 9,4). Os grandes sábios gregos só puderam aproximar-se com a sua inteligência às bordas do mistério dos mistérios, e de modo fragmentário e imperfeito. Mas pelo menos fizeram-no porque a razão os levava a isso, à Verdade.

O universo, composto de matéria, energia, espaço e tempo, tem uma origem, não é eterno

Como anteriormente anotámos, e embora pareça surpreendente, só foi bem entrado o século XX que os físicos e os astrónomos abandonaram o paradigma, sustentado desde sempre por ateus (Lucrécio, De rerum natura) da eternidade do universo (e isso apesar dos imensos problemas filosóficos que postular essa eternidade implicava). É sobejamente conhecido -mas convém ser trazido à colação- que o próprio Einstein rejeitava por desagradavelmente bíblica a ideia do início do cosmos; defendia por isso a estabilidade do universo, e até introduziu nas suas equações da relatividade geral a chamada «constante cosmológica«, para quadrar as suas teorias com essa ideia prévia. Mas como era um homem honesto, assumiu que estava enganado e retificou. «O pior erro da sua carreira científica» dizem que afirmou. 

Para se aperceber de tal erro, bastou que na década de vinte do século passado houvesse um padre belga (Lemaitre), que se baseou precisamente nas equações de Einstein, e também um astrónomo norte-americano (Hubble), que se limitou a olhar atentamente pelo seu telescópio. Deste modo mudou-se o paradigma e concluiu-se empiricamente que o universo não só se expandia (hoje sabemos até com maior velocidade, graças à denominada energia escura), mas que tinha um início, que alguns consideram absoluto (matéria, energia, espaço e tempo). Começo a que posteriormente se denominaria Big Bang, e que se acabaria datando em cerca de 13.500 milhões de anos, centena de milhão acima ou abaixo.

Mas é que essa mesma conclusão científica -origem e não eternidade- deduz-se indiciariamente das Escrituras: Beresit bara Elohim/No princípio criou Deus… (Gen.1, 1). Embora maioritariamente se admita que o verbo hebraico «Bara» implica uma criação em sentido estrito (do nada), também há quem questione essa tradução deste solene versículo com que principia a Bíblia, e pressuponha, com Gn. 1,2 (e com Sab. 11,17) a existência de matéria prévia, à qual Deus dá forma e da qual faz emergir a vida. Mas mesmo concedendo essa segunda leitura haveria que esclarecer, em primeiro lugar, que, se tivesse existido desde sempre essa «matéria primordial», só seria possível por estar fundada na vontade do Deus transcendente e omnipotente (isto é, do Deus judeu), o qual sustém tudo e sem o qual nada existiria, porque o material não é causado por si mesmo. Santo Tomás admitia, como não contrária à razão, a hipótese da eternidade das coisas, mas sempre necessitando da ação criadora-conservadora de Deus (ou como expressou Santo Agostinho «omnicreantem et omnitenentem). Enquanto nas teogonias antigas os deuses emergiam como produtos secundários do caos eterno e se submetiam pacientes ao Fado, na Bíblia Deus todo-poderoso é anterior a tudo e governa sem constrições externas, com a força da sua Palavra, esse mesmo caos, ao qual aporta luz e razão para criar o mundo. «Faça-se«. 

E em segundo lugar e mais importante: a interpretação desse versículo inicial, deve ter em conta as regras hermenêuticas fixadas na Dei Verbum, e que são «o conteúdo e unidade de toda a Sagrada Escritura, a tradição viva da Igreja e a analogia da fé». E avançando na leitura bíblica, chegamos a um dos cumes da pedagogia da Revelação, onde se confirma precisamente a verdade da creatio ex nihilo, afirmada pela boca de uma humilde e analfabeta mulher, mãe de sete filhos martirizados (2 Mac. 7, 22-28). Assim fecha a Bíblia, com este emotivo episódio, a discussão sobre o princípio absoluto do nosso universo, e coincide ainda com aquilo que proclamou Nosso Senhor: «Eu te louvo, Pai, Senhor do Céu e da terra porque ocultaste estas coisas aos sábios e discretos, e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim o quiseste» (Mt. 11,25).

A história não é cíclica mas linear e progressiva

E a terceira grande Verdade que nos reporta a Bíblia coincide com o conceito moderno de História, a sua linearidade. Por supuesto que não queremos dizer que a história bíblica tenha sido redigida de acordo com a metodologia atual da historiografia científica. Obviamente não; como destacaram grandes biblistas, o modo de redigir a história por parte do hagiógrafo bíblico é muito semelhante ao de outros povos do Oriente Próximo, e também ao dos gregos, mas com uma diferença capital: a direção divina. 

Primeiro ator da história é a Providência de Deus: «EU SOU o que anuncio o que há de vir e os meus planos se cumprirão» (Is. 46, 9). O homem, sendo livre, não poderá impedir que se realize a Vontade divina, que se resume em salvar aqueles que se acolham a Ele. Essa direcionalidade implica algo verdadeiramente revolucionário, e é a convicção de que a humanidade -não só os judeus- há de alcançar, pelos caminhos que Deus estabeleça e nos momentos que determine, uma meta final que os profetas entenderam como o Dia de YHWH, onde tudo se transformaria. E até Jerusalém, a cidade dos conflitos sem conta nem fim, alcançará a paz perpétua: «será habitada sem sobressaltos (…) e as nações que atacaram Jerusalém subirão de ano em ano para se prostrarem perante o Rei YHWH Sabaoth, e para celebrar a festa dos tabernáculos» (Zac. 14, 11 e 16). Mesma visão finalista e linear temos nós, cristãos, só que o Dia do Senhor coincidirá com a Segunda Vinda de Cristo e a implementação definitiva do seu Reino. A Jerusalém a que acederão os pagãos é metáfora da abertura do Evangelho aos gentios e da sua salvação. A história, portanto, tem um termo, um fim definitivamente glorioso. É direcional. 

Porque a história não está determinada por um fado fatal que a faz dar voltas perpétuas de modo cíclico, mas segue um padrão linear, regido pela sábia e bondosa mão de Deus com o único fim de salvar. A natureza circular (e pessimista) da conceção da história das nações pagãs -o seu auge, decadência, afundamento, novo começo etc-, pode explicar-se pela sua visão religiosa de um universo sem princípio nem fim, eterno, e regido pelo destino inexorável -as sinistras Moiras-, nos antípodas da otimista cosmovisão bíblica. Perante essa visão deprimente, a Bíblia marca um caminho progressivo, misterioso mas aberto, que inspirou a moderna historiografia. Os historiadores (desde o século XVI e sobretudo a partir do século XIX, com o ateu Auguste Comte à cabeça), acreditavam que a história, sendo linear e progressiva, tendia a um maior aperfeiçoamento da humanidade, para um homem mais científico, racional e civilizado (e por supuesto menos religioso).  Mas chegou o século XX -com as suas guerras mundiais, com o Holocausto, as bombas atómicas, o Gulag ou os genocidas experimentos sociais do comunismo-, e ficou patente a estúpida ingenuidade (ou algo pior) destes «intelectuais» que acreditaram que o progresso técnico levaria consigo um maior desenvolvimento moral. Esqueciam o que a Bíblia nos recorda recorrentemente: que existe o pecado original, que afeta homens, e as suas estruturas sociais e históricas; que com a força da Graça podemos vencê-lo, e que o homem deve lutar sem tréguas e com todas as suas forças pelo bem, a justiça e pelo Reinado de Cristo, embora não sejamos mais que servos inúteis e exclusivamente a Ele pertença a Glória. Com Ele ou sem Ele, a história sempre avança, só que com Ele nos dirigimos para o bem e sem Ele para o mal. E em qualquer dos dois casos sob o seu domínio e Providência, de tal modo que quanto maior desesperança percebemos, a sua Palavra nos assegura: 

«EU SOU YHWH, teu Deus, o que te toma da mão e te diz: não temas que Eu estou contigo» (Is. 41,13).

 

Após este rápido repasse à sabedoria da Bíblia para iluminar tanto os caminhos do homem (individual e histórico), como os trilhos da filosofia e da teologia natural (e até da ciência), uma conclusão se impõe: não nos encontramos perante um livro mais, mas perante o Livro. Uma breve biblioteca que, além disso, nos proporciona a quem amamos a grande literatura, algumas das páginas mais extraordinárias e gratificantes da história em poesia, drama ou reflexão sapiencial, embora isso seja o menos. A Bíblia nunca teve a pretensão de buscar, com brilhantes tropos literários, a beleza pela beleza (de facto, alguns dos seus textos são muito áridos), mas de nos expor a crua verdade do homem, a sua rutura com Deus e, apesar disso, a bondosa vontade de Deus, revelado como Abba, de o buscar e salvar o que estava perdido (Lc. 19,10-1 Tim. 2,4). Não quis detalhar-nos o devenir de cada civilização ou a natureza das coisas, mas focar a realidade pessoal ou coletiva (de ontem, de hoje e de sempre) a partir do olhar do único Deus verdadeiro, com uma vontade explicitamente salvífica. Porque isso é o que nos anuncia a Bíblia em cada página, em cada frase, em cada letra: Vinde a Mim os que estais cansados e sobrecarregados, que Eu vos aliviarei (Mt. 11,28). Mas também a Bíblia é o livro politicamente incorreto por excelência, e em ambos os Testamentos nos adverte, sem adoçar nunca o relato, acerca da responsabilidade que assumimos na nossa existência e avisa-nos das nefastas consequências de não transitar ou abandonar essa senda que o nosso Criador nos traçou (Sir. 15,17 ou Mt. 7,13-14). Por tudo isto, pela sua marca divina, é lógico que tenha antecipado (embora não fosse este o seu objetivo) aos feitos dos muitos sábios que no mundo têm sido, como nos confirma a personificada Sabedoria no Livro dos Provérbios:

«A vós, ó homens! clamo, e a minha voz aos filhos de Adão.

Aprendei, ó simples, prudência, e vós, insensatos, aprendei cordura.

Ouvi, pois coisas excelentes anuncio, e a abertura dos meus lábios profere coisas retas,

pois a minha boca sussurra a Verdade, e abominável aos meus lábios é o ímpio.

Sinceros são todos os ditos da minha boca, não há neles coisa torcida nem perversa.

Todos eles são cabais para o inteligente, e retos para quem encontrou a ciência.

(Prov. 8, 4-9).

 

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