A conferência do Cardeal Víctor Manuel Fernández sobre a “teologia contextual” suscita importantes questões teológicas e eclesiológicas, sobretudo no que diz respeito à interpretação da Notificação da então Congregação para a Doutrina da Fé sobre as obras de Jon Sobrino, publicada em 2006 sob a autoridade do então Cardeal Joseph Ratzinger.
Embora o Cardeal Fernández procure apresentar a Notificação como excessivamente restritiva ou desconectada da realidade pastoral latino-americana, uma leitura atenta do documento demonstra precisamente o contrário: a preocupação central da Congregação não era negar a importância dos pobres, da experiência histórica ou do contexto cultural, mas preservar a primazia objetiva da Revelação divina sobre qualquer mediação sociológica, política ou existencial.
A questão fundamental nunca foi se os pobres possuem ou não importância teológica. A tradição católica sempre o reconheceu. O próprio Evangelho coloca os pobres no centro da missão de Cristo. A doutrina social da Igreja, especialmente desde o Papa Leão XIII até o Papa Leão XIV, reafirma constantemente a opção preferencial pelos pobres.
O problema assinalado pela Congregação referia-se a uma inversão metodológica: quando a experiência histórica dos pobres deixa de ser objeto iluminado pela Revelação e passa a converter-se em princípio hermenêutico determinante da própria fé cristológica.
A Notificação de 2006 insistia corretamente em que “o lugar teológico fundamental é somente a fé da Igreja”. Esta afirmação não exclui a realidade histórica, mas recorda um princípio clássico da teologia católica: a Revelação divina precede ontologicamente toda experiência humana. A fé da Igreja não nasce da experiência histórica; é a experiência histórica que deve ser julgada, iluminada e purificada pela Revelação recebida dos Apóstolos.
Neste ponto, a posição da Congregação encontra sólido fundamento na Constituição Dogmática Dei Verbum, que ensina que o depósito da fé foi confiado à Igreja e transmitido apostolicamente. A teologia não cria a Revelação a partir da experiência humana; ela aprofunda a inteligência da Revelação já dada por Deus em Cristo.
O Cardeal Fernández cita a instrução Libertatis Conscientia para sustentar que a Congregação teria admitido anteriormente uma teologia “partindo de uma experiência particular”. No entanto, tal interpretação exige precisão.
A instrução de 1986 reconhece legitimamente que experiências históricas concretas podem ajudar a explicitar aspectos da Palavra de Deus ainda não plenamente percebidos. Não obstante, isso não significa conferir à experiência histórica o estatuto de norma constitutiva da fé. O próprio documento insiste em que toda reflexão deve permanecer rigorosamente subordinada à Revelação, ao Magistério e à tradição apostólica.
Existe, portanto, uma diferença decisiva entre:
- uma teologia iluminada pela experiência histórica;
- e uma teologia cuja normatividade nasce da experiência histórica.
A Congregação rejeitou a segunda hipótese.
Este ponto é particularmente importante porque certas correntes da teologia da libertação terminaram absorvendo categorias marxistas de análise histórica, nas quais a práxis social tende a converter-se em critério da verdade teológica. Foi precisamente contra esse risco que a Congregação interveio reiteradamente nos documentos Libertatis Nuntius e Libertatis Conscientia.
Além disso, a referência feita pelo Cardeal Fernández à frase de Bento XVI — “quem fecha os olhos ao próximo torna-se cego também diante de Deus” — não contradiz a posição da Notificação. Pelo contrário: Bento XVI jamais afirmou que o sofrimento humano pudesse substituir ou relativizar o fundamento revelado da fé. Em toda a sua obra teológica, Ratzinger insistiu vigorosamente na prioridade do Logos sobre a práxis, da Revelação sobre a experiência e da fé apostólica sobre construções sociológicas transitórias.
Também merece atenção o fato de que o próprio Fernández reconhece que posteriormente precisou reformular suas posições, reafirmando explicitamente que a fé da Igreja é “o fundamento mais sólido e profundo” para olhar os pobres como Deus os olha. Esta correção aproxima-se precisamente daquilo que a Congregação procurava salvaguardar desde o início.
Em síntese, a Notificação sobre Jon Sobrino não representou uma rejeição da opção preferencial pelos pobres, nem uma negação da dimensão histórica da teologia. Seu objetivo foi proteger a integridade da cristologia católica diante do risco de subordinar o mistério de Cristo a categorias históricas variáveis.
A tradição católica sempre reconheceu que os pobres evangelizam a Igreja, interpelam sua consciência e manifestam de modo privilegiado o rosto sofredor de Cristo. No entanto, eles não substituem a Revelação apostólica como fundamento constitutivo da fé. A Igreja contempla Cristo nos pobres precisamente porque antes o recebeu na Revelação transmitida pelos Apóstolos.
Separar a opção pelos pobres da prioridade da Revelação conduz inevitavelmente a uma redução sociológica do cristianismo. Pelo contrário, quando os pobres são vistos à luz da fé apostólica, a caridade e a justiça social encontram seu verdadeiro fundamento sobrenatural e cristológico.
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