Satué promete colaboração com a justiça no caso do sacerdote acusado em Málaga

Satué promete colaboração com a justiça no caso do sacerdote acusado em Málaga

O bispo de Málaga, José Antonio Satué, compareceu esta sexta-feira perante os meios de comunicação apenas três dias antes do início do julgamento contra o sacerdote de Vélez-Málaga acusado de agredir sexualmente quatro mulheres durante anos. O processo começará na segunda-feira na Audiência Provincial de Málaga e o sacerdote enfrenta um pedido de 72 anos de prisão.

Numa intervenção cuidadosamente preparada, Satué quis transmitir uma imagem de colaboração com a justiça e de proximidade em relação às vítimas, ao mesmo tempo que tentou desvincular a diocese de qualquer acusação de encobrimento ou negligência.

“Peço perdão em nome da Igreja a todas as pessoas que nesta e noutras situações semelhantes não encontraram na Igreja a compreensão e o apoio que deveriam ter recebido”, afirmou o bispo.

A diocese nega ter feito vista grossa

Um dos pontos centrais do julgamento será determinar se a diocese de Málaga tem responsabilidade civil subsidiária no caso. Sobre esta questão, Satué deixou clara a posição da defesa diocesana.

“Os nossos advogados vão defender que à diocese de Málaga não deveria ser exigida tal responsabilidade”, assegurou, argumentando que a diocese “não propiciou nem favoreceu nem fez vista grossa quando se conheceram as gravíssimas acusações”.

As declarações do bispo chegam depois de meses de interrogações sobre como atuou a diocese desde que começaram a ser conhecidos os primeiros indícios contra o sacerdote.

Segundo publicou El País, foi a então companheira sentimental do sacerdote quem descobriu em 2023 um disco rígido com milhares de fotografias e vídeos de mulheres aparentemente narcotizadas e agredidas sexualmente entre 2017 e 2020. Parte do material estava arquivado em pastas identificadas com os nomes das vítimas.

O caso começou em Melilla

A denunciante conheceu o sacerdote em 2022 na paróquia de Santa María Micaela, em Melilla. Ela colaborava na vida paroquial e atravessava uma situação pessoal complicada. Com o tempo ambos iniciaram uma relação sentimental, descumprindo o sacerdote o compromisso de celibato.

Meses depois, enquanto conviviam na residência paroquial, a mulher encontrou o disco rígido que acabaria originando a investigação policial.

Várias das mulheres identificadas pelos investigadores declararam posteriormente não recordar nada das cenas fotografadas. Algumas relataram que, durante reuniões ou festas ligadas ao ambiente do sacerdote, este insistia em oferecer-lhes bebidas antes de perderem a consciência.

A transferência do sacerdote e a reação do bispado

A mulher recorreu inicialmente ao vigário da diocese em dezembro de 2022 para alertar sobre as imagens encontradas no computador do sacerdote. Segundo El País, o vigário recomendou-lhe denunciar os factos e falou posteriormente com o próprio padre.

Pouco depois, o sacerdote solicitou a sua transferência de Melilla alegando “motivos de saúde”. A diocese destinou-o então às localidades malaguenhas de El Burgo e Yunquera.

Com o passar dos meses, a denunciante tentou também contactar o bispado para explicar o ocorrido, embora, segundo o jornal, não tenha conseguido ser recebida. Finalmente recorreu a contactos policiais do seu círculo, o que permitiu ativar a investigação da Unidade de Família e Atenção à Mulher (UFAM).

A investigação continua aberta e os agentes continuam a analisar o abundante material informático apreendido ao sacerdote. Não se descarta o aparecimento de novas vítimas.

A diocese promete reparar as vítimas se houver condenação

Apesar de rejeitar qualquer responsabilidade subsidiária, Satué anunciou que a diocese está disposta a colaborar economicamente na reparação das vítimas se o sacerdote for finalmente condenado.

“A Igreja católica assumiu o compromisso de reparar as vítimas de abusos por parte de sacerdotes mesmo quando os tribunais não obriguem”, afirmou.

O bispo explicou ainda que em setembro de 2023 foi aberto um processo canónico para esclarecer os factos, embora tenha ficado suspenso à espera da resolução judicial civil. Recentemente, acrescentou, foi pedido ao tribunal da Rota de Madrid que instrua o procedimento para “garantir a independência” do processo eclesiástico.

Um caso que volta a abalar a Igreja espanhola

Antes da sua detenção, o sacerdote gozava de uma presença notável em ambientes paroquiais e confrarias tanto de Málaga como de Melilla. Diversos testemunhos destacam a sua intensa atividade pastoral e a sua capacidade para dinamizar atos religiosos e convivências.

O sacerdote foi detido em setembro de 2023 em Vélez-Málaga e desde então permanece em prisão preventiva. Recusou-se a prestar declarações à polícia.

O julgamento que começará na segunda-feira não só determinará a possível responsabilidade penal do acusado. Também voltará a colocar sob pressão a atuação das dioceses espanholas perante as denúncias de abusos e a rapidez com que reagem quando surgem os primeiros indícios.

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