Por Francis X. Maier
A maioria de nós vive pelo menos uma parte de nossas vidas no piloto automático. A maioria de nós também, mais cedo ou mais tarde, tropeça na famosa advertência de Albert Einstein: «Fazer a mesma coisa repetidamente esperando resultados diferentes é a definição de loucura». A maioria de nós ignora depois a advertência, porque poucos a ouvimos na primeira vez. Segundo se soube, as palavras de Einstein são apócrifas; na vida real, ele nunca as disse. No entanto, isso não as torna menos verdadeiras. E o que é mais importante, elas nos oferecem a oportunidade de considerar algumas pílulas-chave de sabedoria, ilustradas por Toonces, o gato que sabia dirigir um carro.
Quem era Toonces? Para quem é jovem demais para saber, ou velho demais para lembrar, Toonces era um convidado frequente no Saturday Night Live entre 1989 e 1993. Um felino com um talento singular, Toonces era o animal de estimação adorado de uma família humana comum que tinha uma fé inabalável em suas habilidades. O lugar para onde aquilo costumava levar está perfeitamente capturado no breve sketch de SNL «Marcianos», arquivado aqui.
Toonces foi uma criação do roteirista Jack Handey, um gênio da comédia. Podemos rir de Toonces e de suas palhaçadas porque capturam algo real sobre nós mesmos. Todos temos alguns hábitos irrefletidos; um padrão de erros repetidos estupidamente e escondidos em algum canto de nossas vidas. Cada um de nós é uma criatura imperfeita. E nossas imperfeições, de maneira maravilhosamente irônica, embora com muita frequência teimosa, nos unem em uma humanidade comum. Completamo-nos mutuamente em mais de um sentido. Acontece que Deus tem um agudo senso de humor.
O problema é o seguinte: nossas pequenas fraquezas pessoais, se houver o clima e o número adequados, tendem a fazer metástase em tumores maiores e menos divertidos.
Lembram daquele outro escritor, não tão engraçado, que sugeriu aquilo de «de cada qual segundo suas capacidades, a cada qual segundo suas necessidades»? Essa grande ideia em particular —tentada uma e outra vez, de maneira cada vez mais contundente ao longo do século passado com os mesmos resultados desagradáveis— custou cerca de 100 milhões de vidas. Milhões mais foram lançados a sistemas de trabalhos forçados. Uns 65 milhões morreram em consequência da revolução comunista chinesa, o «Grande Salto Adiante» e as turbulências da Guarda Vermelha. A modesta tentativa de reforma social de Pol Pot sepultou dois milhões de cambojanos. Isso, em uma população de sete milhões. E essa mesma e otimista grande ideia está sendo gestada atualmente, como a criatura de Alien, em algumas de nossas figuras políticas mais ruidosas e fastidiosamente «progressistas».
Por fortuna, os americanos não creem em utopias. Alguns de nós parecemos não crer em nada além de nós mesmos. Se por «nós» se entende nossas classes dirigentes secularizadas, somos pragmáticos em nossas convicções. Cremos que a felicidade é produto da máxima liberdade pessoal, da máxima autorrealização e da máxima abundância material.
Cremos que mais de qualquer coisa que queiramos, ou que pensemos que precisamos, sempre é bom. Por isso, mais dinheiro para orçamentos mais elevados é sempre a resposta a sistemas de escolas públicas evidentemente mal estruturados e integrados por conceitos errôneos, que produzem adultos semialfabetizados. Olhando para trás, isso também explica nossas ações em Vietnam. A solução sempre era mais tropas, mais bombardeios, mais programas de ajuda. Em efeito, mais do mesmo. Mais quantidade nos daria a vitória. Até que não foi assim.
«Nós» cremos, além disso, que os princípios políticos e religiosos costumam ser flexíveis. Frequentemente são apenas posturas que mascaram o apetite por alcançar uma posição moral superior ou um acordo melhor. Mas cremos especial, e inamovivelmente, no poder salvador da tecnologia.
Como argumentava o falecido estudioso dos meios de comunicação Neil Postman:
Os anúncios da televisão [americana] são uma forma de literatura religiosa. Comentar sobre eles com seriedade é praticar a hermenêutica, a ramo da teologia que se ocupa de interpretar e explicar as Escrituras. […] Nas parábolas dos anúncios televisivos, a causa fundamental do mal é a inocência tecnológica, o desconhecimento dos detalhes dos logros benéficos do progresso industrial. Esta é a fonte principal da infelicidade, da humilhação e da discórdia na vida. E as [nefastas] consequências da inocência tecnológica podem sobrevir em qualquer momento, sem aviso prévio e com toda a força de sua ação desintegradora.
No que diz respeito à tecnologia, nos convém ler São Paulo sobre a natureza da idolatria. Mas quando se trata de pontos cegos nacionais e de um déficit crônico de sabedoria, não estamos sós. A Argentina entrou em suspensão de pagamentos de sua dívida soberana nove vezes, «solucionando» o problema em cada ocasião com, essencialmente, as mesmas políticas falhas. Sob Chávez e Maduro, a Venezuela enfrentou a diminuição de seus rendimentos petrolíferos simplesmente imprimindo mais dinheiro e mudando o nome da moeda, várias vezes. Não é de estranhar, então, que a inflação tenha alcançado o milhão por cento.
Os exemplos similares são legião porque a realidade é implacável. Em todos os níveis da vida, desde o pessoal até o macro, o pensamento tolo e a falta de pensamento acarretam um preço e um interesse composto.
Então, aonde quero chegar com isso? Justamente aqui:
Peter Drucker, o falecido e grande guru dos negócios, apontou há muito tempo que todo fracasso contém as sementes do sucesso se aprendermos as lições corretas da experiência. O contrário também é verdadeiro. Todo sucesso leva as sementes do fracasso se as ignorarmos e não as abordarmos.
Como nação, possuímos uma riqueza e um poder impressionantes. Já os temos há três ou quatro gerações. É o tempo exato para esquecer de onde vieram e como. Assumimos que os merecemos. Imaginamos sua permanência. E esses delírios têm sido o vestíbulo, uma e outra vez, para o declínio de todo grande povo.
As nações surgem e caem. Tal é a natureza das coisas. Os cristãos sabíamos antes que nossa missão no mundo era converter o mundo; ser «algo diferente» do mobiliário da sala de exposição de uma cultura; ter paixão ao dar testemunho de Jesus Cristo. Mas isso era antes. Isso é agora. Com muita frequência, muitos de nós escolhemos uma espécie de narcolepsia moral em vez do zelo.
E Toonces —lembram de Toonces?— se compraz em nos mostrar, por meio de seu amigo canino Flippy o chihuahua, exatamente aonde pode conduzir um espírito inconsciente. Não tem de ser assim. Podemos ser verdadeiros discípulos novamente. Mas para isso se necessita uma nova conversão de coração em cada um de nós. E então, devemos agir em conformidade.
Sobre o autor
Francis X. Maier é membro sênior de estudos católicos no Ethics and Public Policy Center. É autor de True Confessions: Voices of Faith from a Life in the Church.