Há um viés racista na forma de processar abusos da Igreja?

Há um viés racista na forma de processar abusos da Igreja?

Hubo um tempo em que os jesuítas espanhóis enviavam à Bolívia padres problemáticos como quem atira o lixo para longe de casa. A Bolívia funcionava como aterro eclesiástico: padres acusados que não desapareciam, mas eram realocados em paróquias pobres e indígenas onde ninguém perguntava demais e onde as vítimas jamais teriam acesso a Roma, a jornalistas internacionais ou a escritórios canônicos com capacidade de pressão. Décadas depois, quando essas vítimas começaram a falar, descobriram algo tão obsceno quanto os abusos: que sua dor mal existia para a instituição que dizia querer ouvi-la.

Esse padrão não desapareceu. No mundo eclesial ibero-americano atual, começa a se consolidar uma percepção incômoda: não todas as vítimas são tratadas igual, nem todos os casos ativam o mesmo sistema de resposta. E o mais inquietante é que a diferença não parece teológica nem jurídica, mas racial.

As vítimas do Sodalício, geralmente descendentes de europeus e provenientes de um alto estrato social no Peru, receberam um desdobramento institucional extraordinário: enviados pontifícios, comissões específicas, interlocução direta com Roma, pressão midiática internacional e uma arquitetura de atenção difícil de encontrar em outros casos. Ninguém discute aqui a gravidade do que denunciaram nem a legitimidade de seu reconhecimento. O problema aparece quando se compara com o outro lado do sistema.

Enquanto uns casos ativam mecanismos de máxima intensidade, outros mal geram silêncio administrativo.

As vítimas indígenas e mestiças de dioceses pobres em países como Bolívia e Peru levam anos enviando escritos a Roma sem obter resposta efetiva. Em muitos casos, nem mesmo confirmação de recebimento. Literalmente, nada. Não há canal estável, não há acompanhamento, não há estrutura visível de interlocução e à sombra de um suposto segredo na instrução não se fez justiça com muitíssimos casos desoladores.

Como vem denunciando InfoVaticana, em Chiclayo, três mulheres denunciaram com um relato muito sólido e comprovável perante Robert Prevost abusos sofridos quando eram meninas por padres diocesanos. Anos depois, os procedimentos seguem sem reparação efetiva nem fechamento claro. Os expedientes avançam a ritmo imprevisível, quando avançam. E entrementes, as vítimas convivem com a sensação de que o sistema não está desenhado para elas. Reduziram ao estado laical seu abusador (e a seu advogado canonista), e agora o quê, se seu abusador é leigo, já não procede reparação?, aplica esse critério às vítimas de Figari?

Em Huacho, as denúncias contra o bispo Antonio Santarsiero – até há poucas semanas Secretário Geral da Conferência Episcopal do Peru- por presuntos abusos sexuais e maus-tratos psicológicos foram remetidas ao Papa e ao Dicastério para a Doutrina da Fé mediante comunicações formais e carta notarial entregue na Nunciatura Apostólica. A resposta institucional, no entanto, não consta: nem confirmação de recebimento, nem comunicação, nem abertura formal notificada às denunciantes. Um bispo acusado em um testemunho consistente e sólido de forçar felatio a um seminarista procederá a celebrar ordenações sacerdotais nas próximas semanas. E as vítimas? até a data não só não receberam nem um só papel, mas foram apontadas publicamente em uma reunião com múltiplos padres.

O detalhe que torna insuportável a comparação

Se alguém coloca lado a lado um e outro panorama, a diferença não é de matiz. Em um caso, todo o aparato eclesial se mobiliza: há reuniões, há comunicados, há viagens, há jornalistas, há escritórios romanos atentos ao detalhe. No outro, não há nada. Nem uma carta. Nem uma ligação. Nem mesmo o trâmite mecânico, quase administrativo, de confirmar que o escrito chegou a seu destino.

As vítimas do Sodalício pertencem, em sua grande maioria, a um perfil social muito concreto: famílias brancas, acomodadas, limeñas, com sobrenome, com educação universitária, com acesso natural a jornalistas, a advogados e a bispos. São vítimas legítimas, e sua causa é justa. Mas também são vítimas que a instituição sabe ler, porque falam sua mesma língua cultural: a do catolicismo urbano.

As outras vítimas não cabem nesse mapa. As vítimas bolivianas, as de Chiclayo, a gente de origem modesta, sem mais capital que seu testemunho. As vítimas do seminário menor de Huacho são seminaristas e exseminaristas de província, sem estrutura midiática que os respalde. São fiéis cuja extração social e étnica não gera, por si só, nenhum reflexo institucional em Roma. Sua denúncia, por sólida que seja, não produz movimento. De onde vamos tirar recursos para indenizar o dano que lhes foi infligido? Do patrimônio do Sodalício parece que não, já que segundo explica Jordi Bertomeu o patrimônio do Sodalício não reparará a todas as vítimas da Igreja mas só às vítimas do Sodalício. Se abusaram de ti na serra da diocese de Chiclayo ou no seminário de Huacho, azar o seu. Só há recursos para os abusados por instituições ricas. Que critério absurdo é esse?

Essa correlação — vítima branca e acomodada, resposta institucional; vítima mestiça ou indígena, silêncio— se está repetindo com tal regularidade que já não é honesto seguir tratando-a como uma coincidência. O Código de Direito Canônico é, neste ponto, de uma clareza brutal. O cânon 208 proclama a igualdade fundamental de todos os fiéis. O cânon 221 reconhece a qualquer fiel o direito de reivindicar e defender seus direitos no foro eclesial competente. A acceptio personarum — a acepção de pessoas, o trato preferente por razão de origem, riqueza ou influência— está expressamente proibida na tradição canônica desde suas origens, e o Evangelho mesmo a reprova em termos especialmente duros quando aparece a Carta de Santiago.

Mas o Direito Canônico, como qualquer direito, vale o que valem suas aplicações concretas. E o que se está aplicando hoje na prática romana — não nos textos, mas nos fatos— é uma hierarquia implícita de vítimas. Há vítimas de primeira, cujas cartas se respondem, cujos representantes são recebidos, cujos casos geram visitadores apostólicos. E há vítimas de segunda, cujas cartas se acumulam sem abrir, cujos advogados são ignorados ou expedientados, cujos casos dormem em gavetas que ninguém tem interesse em mexer.

O mais doloroso é que essa hierarquia não se decreta nem se proclama. Funciona por omissão. Ninguém assina uma circular que diga «atienda-se preferentemente às vítimas brancas e acomodadas». Simplesmente se atendem essas, e as outras esperam. Esperam meses, esperam anos, esperam que alguém com sobrenome conhecido se interesse por seu caso para que algo se mova. Esperam que um jornalista internacional repare nelas. Esperam que um cardeal viajante as mencione de passagem em alguma conferência. Esperam que o acaso reproduza, em seu favor, a lógica seletiva do sistema.

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