O Calvário ficou sozinho. As vozes que blasfemavam se calaram, roucas. O Mestre morreu. Sua Mãe, João, Madalena, outro punhado de mulherzinhas, choram, exaustos. E então surgem duas figuras que o Evangelho não apresenta como heróis ruidosos, mas como homens de valentia serena e eficácia pontual, discreta, sem aspavientos. José de Arimateia e Nicodemo não pertencem ao grupo dos Doze; não seguiram publicamente o Senhor, mas creram. E agora, quando o mundo foge ou zomba, eles agem.
Com uma coragem nascida do amor, José de Arimateia, nobre conselheiro, que também esperava o Reino de Deus, entrando onde Pilatos, pediu o corpo de Jesus, audacter, palavra latina que contém toda uma teologia da coragem cristã. Não é temeridade, mas valentia que brota da amizade quando já não há nada a perder. José se expõe: se identifica e se compromete, porque pedir o corpo de um ajusticiado por sedição era se declarar, colocando-se do lado do condenado, arriscando a honra e a posição.
E Nicodemo, aquele que ia de noite falar com Jesus, sabe agora também comparecer à luz dos fatos. Com sua fidelidade maturada na sombra, aparece levando a bagatela de cem libras de mistura de mirra e aloés. Desmesura régia: cem libras; peso de reparação amorosa. A noite de Nicodemo se tornou aurora: sua fé, que começou trêmula e covarde, amadureceu em uma entrega sem reservas.
Dois varões e três serviços domésticos e urgentes, três delicadezas cheias de ternura viril: escada, sudário e sepulcro. Para desencravar o Corpo, havia que subir e sustentar o peso morto do Amor crucificado, com reverência e cuidado trêmulo. Depois o envolvem em lençóis com os aromas, segundo era costume entre os judeus enterrar. Com mãos decididas e suaves tocam o Corpo sagrado, o perfumam, o honram, em gesto quase litúrgico. E depois, Arimateia o põe em seu sepulcro novo, que havia escavado na rocha. José não dá o que lhe sobra, mas o melhor: renuncia ao que havia preparado para si, para que seu Senhor repouse.
E eis então, a Senhora, a Virgem Mãe, consolada por peitos valentes. Ao receber seu Filho morto, junto a Ela esses dois homens agem como cavaleiros da dor. O que Lhe dizem? O Evangelho cala suas palavras mas releva seu agir: sustentam Maria com seu serviço, a confortam com sua presença e Lhe oferecem o que têm. Quando tantos fugiram, esses fundadores da Ordem do Santo Sepulcro, José de Arimateia e Nicodemo, são, de certo modo, os primeiros cavaleiros cristãos, não de espada ou penachos, mas de fidelidade e decisão. São valentes quando ninguém dá a cara, generosos quando tudo parece perdido. Delicados, discretos, firmes, decisivos, são homens de alma mariana: seu serviço se ordena a Maria, a consolar a Senhora do Maior Dor. Sem discursos, ensinam uma forma de cristianismo viril, elegante, cavalheiresco.
Quando chega, na vida da Igreja e na de cada um, essa noite em que Cristo parece derrotado, esquecido, silenciado, mais que discursos se precisam gestos de homens como eles: homens que, audacter, deem um passo à frente; que, embora custe, peçam o Corpo de Cristo, e o cuidem, e o honrem, acompanhados por Sua Mãe.