Uma profunda crise institucional eclodiu na Armênia entre o governo de Nikol Pashinyan e a Igreja Apostólica Armênia, a instituição religiosa mais antiga e respeitada do país, o que ameaça a unidade espiritual e cultural da nação. O conflito, que combina acusações pessoais, tentativas de reforma e pressão política, tem abalado um país onde a fé e a identidade nacional estão estreitamente entrelaçadas.
O primeiro-ministro Nikol Pashinyan intensificou nos últimos meses seus ataques contra o Catholicos de todos os armênios, Karekin II, solicitando abertamente sua renúncia e propondo mudanças estruturais na Igreja. Segundo o próprio Pashinyan, o chefe espiritual teria violado seus votos de celibato e se tornou um obstáculo para a modernização do país, embora ele mesmo negue que exista um conflito entre Estado e Igreja.
Uma Igreja milenar frente ao poder político
A Igreja Apostólica Armênia é uma instituição com mais de 1.700 anos de história, berço da cristianização do primeiro país oficialmente cristão do mundo. Sua influência transcende o meramente religioso: é um pilar da identidade cultural, moral e nacional armênia. A Constituição armênia reconhece esse papel “excepcional” e a protege formalmente.
Mas Pashinyan, firme defensor de uma Armênia laica e orientada para a modernização socioeconômica, vê na Igreja um poder paralisante. Ele impulsionou uma “folha de rota” para reformar a Igreja Apostólica, incluindo uma nova lei de governo eclesiástico, maior transparência financeira e a eventual eleição de um novo Catholicos segundo normas revisadas.
Escalada política e ataques pessoais
A disputa ultrapassou os limites institucionais e se tornou profundamente pessoal. O primeiro-ministro acusou publicamente Karekin II de violar seu voto de celibato e o apontou como um agente que obstrui os interesses do Estado, chegando mesmo a afirmar que sua permanência no cargo representa um “dano à segurança nacional”.
Essas afirmações foram amplificadas por membros de seu entorno, como sua esposa, que comparou alguns clérigos a “pedófilos” e descreveu o Catholicos em termos altamente depreciativos, o que desencadeou uma onda de indignação popular e uma profunda divisão interna.
Resposta da Igreja e apoios externos
Do Patriarcado de Etchmiadzin, a resposta foi firme. O Conselho Espiritual Supremo denunciou o que qualificou de “repressão” e de violações da autonomia canônica da Igreja, incluindo a omissão forçada do nome do Catholicos nas liturgias oficiais.
Além disso, líderes de outras Comunhões cristianas, como a Igreja Ortodoxa Síria, expressaram sua solidariedade com a Igreja Apostólica Armênia diante do que consideram uma interferência inaceitável do Estado em assuntos religiosos.
O confronto se intensifica às vésperas eleitorais
À medida que se aproximam as eleições parlamentares de 2026, a tensão escalou ainda mais. Pashinyan lançou campanhas para “devolver a Igreja ao povo”, que incluem prisões de sacerdotes, buscas em propriedades e até a exclusão da Igreja do acesso a certos mosteiros históricos.
Alguns analistas alertam que esse confronto pode aprofundar ainda mais as divisões sociais na Armênia, colocando em risco não apenas a estabilidade interna, mas também a coesão nacional em um país que fez de sua fé cristã um elemento central de sua identidade há séculos. Em um contexto em que a Igreja Apostólica Armênia continua tendo entre 80% e 90% dos fiéis da população, minimizar seu papel político e social poderia gerar uma fratura de consequências imprevisíveis.
Um conflito com ramificações culturais e civis
Esse choque entre Estado e Igreja não é apenas um confronto entre duas instituições, mas um sintoma mais profundo de uma Armênia que busca redefinir seu futuro após anos de crises, derrota militar frente ao Azerbaijão e desafios geopolíticos. A Igreja, por sua vez, reivindica seu papel como garante da memória histórica, moral e espiritual de um povo que se reconhece em sua fé há dezessete séculos.
A forma como esse conflito evoluir marcará não apenas a relação entre Igreja e Estado na Armênia, mas também a maneira como uma sociedade profundamente religiosa interpreta sua identidade nacional em tempos de provação.
Fonte: FSSPX News