Pe. José Juan Sánchez Jácome / ACN.- Não podemos sucumbir às tendências dos tempos modernos que buscam o chamativo, o sofisticado e o espetacular nos meios tecnológicos para assegurar um lugar, para obter o reconhecimento social e para se manterem vigentes, de acordo com a lógica do mundo.
No nosso caso, a Palavra de Deus não pode ser envolvida em imagens e símbolos poderosos para torná-la chamativa e posicioná-la na opinião pública. Em nosso afã de modernizar a Igreja podemos ficar apenas com a embalagem, as inovações e a imagem, em detrimento da própria riqueza da Palavra de Deus que não precisa de cores e apresentações modernas, mas de ser saboreada em si mesma.
Jesus não se deixava impressionar pelo caráter espetacular dos meios técnicos de seu tempo, mas se fixava no simples e imperceptível da natureza para explicar os mistérios do reino de Deus. Por isso, comparava a Palavra de Deus com uma semente, com uma diminuta semente que guarda um potencial de vida, frutos e beleza que vão se desdobrando por meio de um processo.
Essa diminuta semente podemos vê-la muitas vezes em franca desproporção com o império dos meios tecnológicos e os avanços científicos que oferecem resultados deslumbrantes, imediatos e a curto prazo em diferentes campos da vida.
Quando não reparamos no poder da semente e na dinâmica que tem a palavra de Deus, os cristãos muitas vezes podemos nos sentir ultrapassados e em desvantagem diante do barulho, do império e dos resultados imediatos que produzem esses meios poderosos e sofisticados.
A semente é o único que temos, mas é tudo o que temos. Com muita lucidez e contagiando-nos de esperança, o profeta Isaías aponta o poder da Palavra de Deus que não deixará de se cumprir:
“Assim como descem do céu a chuva e a neve e não voltam para lá, senão depois de embeber a terra, de fecundá-la e fazê-la germinar, a fim de que dê semente para semear e pão para comer, assim será a palavra que sai da minha boca: não voltará a mim sem resultado, mas fará a minha vontade e cumprirá a sua missão”.
Não se fala em termos de precisão, rendimento ou eficácia técnica, mas de uma promessa baseada no amor e no desígnio de salvação, o qual garante que a Palavra se cumpra apesar dos obstáculos e de qualquer adversidade. Na Bíblia fala-se, inclusive, de crescimento desta semente mesmo em condições adversas, assim como de beleza, abundância e colheita farta porque é uma Palavra que transforma a terra e o coração do homem. O Salmo 64 não se contenta em afirmá-lo, mas canta a bondade de Deus:
“Tu coroas o ano com teus bens, teus caminhos derramam abundância, estão verdes os pastos do deserto, as colinas adornadas de flores. Os prados se vestem de rebanhos, os vales se enfeitam de trigais. Tudo aclama ao Senhor. Tudo lhe canta”.
A Palavra é o único que temos, mas é tudo o que temos. Por isso, diante de sua beleza, potência e vitalidade temos que nos perguntar o que nos aconteceu, por que a vida do homem se complicou. O que aconteceu para que agora assistamos a um processo de decomposição social. O que teríamos que dizer a respeito da maldade que vai se difundindo em nossa sociedade.
Diante desta realidade que nos fere e nos preocupa é preciso reconhecer pelo menos dois fatores importantes. Em primeiro lugar, reconhecer que deixamos de semear. Não se tem semeado como é devido na família, na escola e na sociedade.
Talvez tenhamos deixado de semear e de crer no poder que tem essa semente diminuta para provocar uma colheita abundante. Deve-se semear a tempo e a destempo, sem esperar que se deem as condições adequadas. Como o semeador que semeia a lanço devemos aproveitar todas as oportunidades para anunciar a Palavra de Deus.
Para não deixar de semear é preciso recordar com gratidão todos os que semearam em nós. Semearam com a esperança de que chegariam os frutos espirituais à nossa vida. Talvez muitos de nós demoramos tempo para que florescesse a palavra, mas nossos semeadores vislumbraram esse momento.
Se sentimos a adversidade na hora de semear, se encontramos obstáculos e até censura, como nestes tempos, para falar de Deus, se parece que tudo continua igual apesar de pregar a Deus, não devemos desesperar e será necessário muitas vezes pensar em nosso caso pessoal.
Quanta gente semeou em nós e quanto esperaram para que chegassem os frutos. Possivelmente demoramos muito tempo para que se visse nossa mudança. Muitos semearam em nós e, embora não se visse o resultado, não se desanimaram porque confiaram incondicionalmente no poder da palavra.
A fé é como uma semente que age em nós mesmo quando não nos damos conta ou quando não somos capazes de corresponder a ela. Por isso, não devemos deixar de semear e, se falaste de Cristo aos outros e te rejeitaram, ora e espera. A semente já foi semeada. Assim, embora pareça que não há resultados e a palavra tenha sido rejeitada, nunca se deve dar uma alma por perdida.
Glória Fuertes o explica desta forma: “Quando todas as esperanças estavam enterradas, todas as fontes secas, todas as perguntas caladas, todos os fogos apagados, então, no meio da noite, a fraca força de uma semente rompeu a crosta da terra”.
Há uma segunda coisa que precisamos considerar: a palavra tem suas etapas para chegar a florescer. Por isso, Jesus descreve de maneira magistral o processo que leva uma semente, para nos fazer ver o processo que a palavra de Deus leva em nosso coração.
A palavra de Deus não é mágica, não oferece resultados imediatos, é tão modesta como uma semente que precisa de um processo em nosso coração. Como gostaríamos de ver resultados imediatos, mas nos cabe fazer nosso trabalho e o resto deixar a Deus, como o camponês que semeia e espera pacientemente que vá crescendo e florescendo essa semente.
Os frutos não virão por nossa capacidade, engenho e inteligência. Esta obra é de Deus. O semeador faz seu trabalho, mas não sabe como cresce a semente. Jesus nos anima a fazer o que nos cabe, deixando sempre a Deus o mais importante desta obra: o crescimento e a colheita.
Estamos acostumados aos resultados imediatos, mas na vida espiritual as coisas não funcionam assim. É preciso ter paciência, é preciso esforçar-se e saber que o mais difícil é o que Deus realiza, para não cair na tentação do pessimismo e do derrotismo porque as coisas não mudam como se gostaria.
A providência de Deus age mais de acordo com os ritmos da natureza do que com os ritmos da produção industrial. É preciso aguardar, desfrutar cada etapa, esperar o surgimento dos brotos, a semente, os frutos e a própria colheita.
Dizia Roberto L. Stevenson: “Não julgues cada dia com base na colheita que obtiveste, mas pelas sementes que plantaste”. A tempestade é capaz de dispersar as flores, mas não está em condições de danificar as sementes. As perseguições e os desafios que a Igreja enfrentou ao longo dos séculos não conseguiram frear o crescimento da semente, pois a semente que semeamos leva germes de Deus, como reflete Frei César Valero:
“As raízes, as essências, estão aí. Dois mil anos de fé e de martírio não são fáceis de suprimir. Nem mesmo por decreto-lei. E em qualquer lugar e momento rebrotam com vigor. Por isso é tão importante continuar semeando, embora muitas vezes a sensação seja de que o fazemos sobre asfalto. Cada palavra é uma semente, e se a semente leva germes de Deus não se perderá jamais; talvez nossos olhos não o vejam, mas seu fruto chegará”.
Muitos cristãos continuam sendo perseguidos, ameaçados e assassinados por viver sua fé. Mas apesar dos perigos que têm que enfrentar confiam na vitalidade da semente que continuará florescendo, mesmo nessas situações desafiadoras, como dizia Bernardo Stamateas:
“Quando os problemas vierem te enterrar, lembra que és semente. Só estão te semeando; germinarás e sairás à superfície novamente e darás fruto porque terás amadurecido”. Assim também o confirma o impactante testemunho de um cristão em Gaza: “Nos enterraram, mas não sabiam que éramos sementes”.
Deus continua nos confiando sua palavra. Não esperemos apenas a chegada dos frutos, mas de uma grande colheita que nos levará também a admirar a obra de Deus, como se percebe na reflexão de Chesterton: “Se as sementes semeadas em terra negra podem chegar a se tornar rosas tão belas, o que não pode vir a ser o coração do homem em seu longo caminho rumo às estrelas?”