A tentação de instrumentalizar a liturgia

A tentação de instrumentalizar a liturgia

Há uma tentação moderna que consiste em crer que a liturgia precisa dizer algo mais do que aquilo que já diz. Como se a Missa, por si só, não bastasse. Como se o sacrifício de Cristo oferecido ao Pai precisasse ser reforçado com uma mensagem acrescentada, com uma estética de impacto, com uma cenografia capaz de traduzir as urgências do momento.

A Igreja, no entanto, sempre entendeu a liturgia de outro modo. A Missa não é uma representação. Não é um ato de comunicação institucional. Não é uma performance espiritual a serviço de uma causa, por nobre que essa causa possa parecer. A Missa é o Santo Sacrifício. E tudo o que nela entra —o templo, o altar, o ambão, os vasos sagrados, os paramentos— fica subordinado a esse fim.

Por isso uma casula não é uma tela. O altar não é uma instalação artística. O presbitério não é um palco. E o sacerdote não se reveste para expressar uma sensibilidade, mas para desaparecer atrás de Cristo.

A recente celebração pontifícia em Lampedusa volta a colocar uma questão que a Igreja deveria levar a sério. A casula preparada para Leão XIV foi explicada como uma peça carregada de referências ao Mediterrâneo, à viagem migratória, ao sangue derramado no mar, à memória dos que morreram nessas águas e à esperança. Também o altar e o ambão foram apresentados a partir de chaves semelhantes: o mar, a migração, a dor, a redenção.

A intenção pode ser compreendida. Ninguém discute que os mortos no Mediterrâneo possam e devam ser encomendados a Deus. A Igreja reza pelos defuntos, acompanha os que sofrem e oferece o sacrifício de Cristo pela salvação do mundo. Sempre o fez.

O problema surge quando essa intenção deixa de ser uma intenção da Missa e passa a configurar a própria forma visível da liturgia. Uma coisa é celebrar a Eucaristia por aqueles que morreram no mar. Outra, bem distinta, é converter a casula, o altar e o espaço celebrativo em uma linguagem cênica construída para recordar essa tragédia.

A diferença não é menor. É teológica.

A liturgia tem um fim próprio: a adoração de Deus e a atualização sacramental do sacrifício de Cristo. Tudo nela deve conduzir a esse centro. Quando os elementos litúrgicos começam a funcionar como suportes de uma mensagem humana, embora seja moralmente legítima, a ordem se inverte. Já não é o drama humano que se eleva até o altar para ser redimido por Cristo; é o altar que se adapta ao drama humano para representá-lo.

Aí está o risco.

Durante séculos, a Igreja desenvolveu uma linguagem litúrgica estável, reconhecível e universal. A cruz, o Cordeiro, o Alfa e o Ômega, o pelicano, a videira, o incenso, as cores litúrgicas, a nobreza dos tecidos, a orientação do templo, o silêncio e o canto não nasceram para comentar a atualidade. Nasceram para expressar o mistério.

Essa linguagem não precisava de uma nota de imprensa para ser compreendida. Uma casula com uma cruz fala imediatamente de Cristo. Um altar consagrado fala do sacrifício. Um cálice fala do Sangue redentor. Não porque sejam símbolos pobres, mas porque pertencem a uma tradição viva que não depende da intenção subjetiva do artista nem do acontecimento da semana.

A arte contemporânea funciona de outro modo. A obra precisa de explicação. O artista propõe um relato. O espectador deve conhecer as chaves de interpretação para acessar o significado. Isso pode ter sentido em um museu. Mas a liturgia não é um museu, nem a Missa uma instalação conceitual.

Quando uma casula requer vários parágrafos para explicar o que quer dizer, talvez esteja dizendo demais. E quando diz demais, impede que fale o único verdadeiramente necessário: o mistério de Cristo morto e ressuscitado.

A Igreja não é indiferente ao sofrimento do mundo. Precisamente porque não o é, leva-o ao altar. Mas leva-o para oferecê-lo a Deus, não para convertê-lo em cenografia. A liturgia não precisa imitar a linguagem do teatro nem da performance para ser próxima. Sua força não está em representar nossas feridas, mas em colocá-las diante da Cruz.

O sacerdote se reveste porque já não age em nome próprio. A casula cobre o homem para manifestar Cristo. Se o ornamento chama a atenção sobre a mensagem do designer, sobre uma causa social concreta ou sobre uma leitura simbólica demasiado circunstancial, deixa de cumprir plenamente sua função. A beleza litúrgica não está chamada a impor-se, mas a servir. Não deve distrair, mas conduzir. Não deve explicar o mundo, mas abri-lo a Deus.

Também o espaço celebrativo importa. Um estádio pode ser utilizado por necessidade para uma grande Missa. A Igreja já celebrou em praças, campos, explanadas e aeroportos. Mas mesmo aí deve esforçar-se por criar um âmbito sacro, não uma plataforma de evento. Se a disposição lembra mais um palco teatral do que um espaço de adoração, a mensagem visual dilui a natureza do rito.

A questão de fundo não é estética. É espiritual.

A liturgia não precisa ser atualizada a golpes de símbolo contemporâneo. É sempre atual porque torna presente o eterno. Essa é sua grandeza. Essa é também sua exigência.

A Igreja pode e deve rezar pelos migrantes, pelos mortos no mar, pelos pobres, pelas vítimas da guerra e por todos os que sofrem. Mas não deve esquecer que a primeira caridade da liturgia consiste em ser liturgia: culto divino, sacrifício, louvor, adoração.

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