A Nota Explicativa publicada este 2 de julho pelo Dicastério para a Doutrina da Fé (Prot. N. 99/2009), que declara consumado o delito de cisma, considera cismáticos e excomungados os fiéis leigos que aderirem formalmente à Fraternidade, declara inválidos os sacramentos da penitência e do matrimônio administrados por seus sacerdotes e exorta todo o povo de Deus «a abster-se de participar nas celebrações e atividades promovidas» por ela, tem uma consequência prática da qual ninguém em Roma parece ter feito o cálculo: em catorze nações do mundo, a única Missa tradicional que existia era a da Fraternidade. A partir de hoje, nesses países, o fiel que quiser assistir ao rito que santificou o Ocidente durante quinze séculos não tem, simplesmente, nenhum lugar para onde ir.
Digamo-lo com precisão canônica, porque o documento não a possui. A Nota é juridicamente fraca: não é um decreto penal, não declara excomunhões nominais de fiéis concretos e repousa sobre a categoria da «adesão formal» —tomada da Nota do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos de 1996— sem definir em nenhum momento que grau de vinculação a constitui. Assistir um domingo? Assistir habitualmente quando não há outra Missa tradicional em mil quilômetros ao redor? Batizar ali um filho? Sustentar economicamente uma capela? O texto não o diz, e a doutrina comum havia sustentado durante décadas que a mera assistência não constitui adesão ao cisma. Mas essa mesma ambiguidade, longe de tranquilizar, é a que produz o efeito de inquietação no fiel comum, que não é canonista, não pode saber se ao cruzar o limiar da capela se converte em cismático aos olhos de Roma, e esse temor —calculado ou não— basta para lhe causar um dano tremendo. É nos países onde a Fraternidade era a única porta onde esse mecanismo desdobra toda a sua crueldade.
O mapa mundial da desolação
O dado não é uma estimativa: procede do Latin Mass Directory, o censo internacional que registra exclusivamente as Missas segundo o Missal de 1962 celebradas com aprovação dos bispos —paróquias diocesanas, Fraternidade de São Pedro, Instituto de Cristo Rei e demais comunidades Ecclesia Dei—, cruzado com as listagens oficiais de capelas dos distritos da FSSPX na América do Sul, América Central e Caribe, África e Ásia. O resultado, continente por continente:
América: dez dos catorze países. É, com diferença, a região mais atingida:
- Peru. As três sedes autorizadas que existiam foram canceladas em 2022 em aplicação de Traditionis custodes: descenso de 100%, zero sedes. A Fraternidade atende Lima e várias cidades do interior. Na pátria de Leão XIV não resta uma única Missa tradicional autorizada.
- Costa Rica. Caso único no mundo: em julho de 2021 a Conferência Episcopal proibiu formalmente o rito antigo em todo o território nacional, decretando que «nenhum sacerdote está autorizado a continuar celebrando segundo a antiga liturgia». Só restava a missão da FSSPX em San José.
- Panamá. Os bispos se negaram sistematicamente inclusive a negociar. Os fiéis tradicionais, segundo testemunhos recolhidos por Rorate Cæli em 2024, chegaram a assistir à Missa em apartamentos, fazendas rurais e no sótão de um comércio, atendidos pela Fraternidade.
- Guatemala, Honduras, El Salvador e Nicarágua. Nenhum figura no diretório com uma única sede aprovada. Os quatro dependem dos oito sacerdotes da Casa Autônoma da América Central da FSSPX.
- Bolívia, Paraguai e Uruguai. Sem sedes autorizadas. A Fraternidade mantém priorado em Santa Cruz e capelas em La Paz e Cochabamba; capela em Assunção; e priorado em Montevidéu.
África: dois países.
- Quênia. Nenhuma sede autorizada no diretório. O priorado da Santa Cruz da FSSPX leva vinte anos em Nairóbi, com igreja e escola entre o bairro de Lavington e o subúrbio de Kawangware.
- Zimbábue. Sem sedes autorizadas. É uma das missões históricas do Distrito de África da Fraternidade.
Ásia: dois países. Os dois casos mais recentes, e talvez os mais reveladores do sentido da maré:
- Malásia. Perdeu sua única sede autorizada em 2024. A Fraternidade mantém capelas em Kuala Lumpur e em Sabah.
- Sri Lanka. Perdeu a sua em 2025. Resta a missão de São Francisco Xavier da FSSPX em Negombo.
À lista caberia acrescentar casos prováveis pendentes de verificação no terreno —Venezuela, ausente do diretório, ou Cuba— e os países visitados de forma itinerante pelos sacerdotes do distrito asiático da Fraternidade (Vietnã, Tailândia, Vanuatu), onde tampouco existe sede autorizada alguma.
E há uma segunda categoria que o mapa deixa à descoberto: os quase monopólios. Na África do Sul, sede do Distrito de África da FSSPX, o diretório registra uma única sede autorizada para todo o país; na Índia, outra. Ali onde a Fraternidade desdobra priorados, escolas e missões, a oferta autorizada é, no melhor dos casos, testemunhal.
Nações inteiras, não dioceses
Não falamos de dioceses, mas de países inteiros, em três continentes, onde a aplicação combinada de Traditionis custodes e da Nota de ontem produz um resultado que nem Paulo VI decretou jamais: a extinção total, juridicamente sancionada, da Missa de sempre no território de uma nação. O fiel peruano ou queniano que hoje quiser assistir ao rito tradicional tem três opções: tomar um avião, frequentar uma celebração que Roma lhe exorta a evitar sem lhe dizer a partir de que ponto sua assistência o converte em cismático, ou ficar em casa.
O contraste com o mundo rico é eloquente. A França conserva 224 sedes autorizadas e cresceu 29% desde 2021; os Estados Unidos superam as 450; a Alemanha passou de 36 a 85; a Suíça —o país de Écône— de 11 a 24. A purga não caiu sobre Paris, Munique ou Chicago: caiu sobre Lima, Tegucigalpa, Nairóbi e Colombo. Os catorze países da lista compartilham um traço: são pobres ou periféricos, exatamente as «periferias» que o magistério recente invocou sem descanso. Para a Missa tradicional, as periferias não existem.