Cada 22 de maio, quando a primavera está madura e o ar cheira a rosas quentes e a trigo dourado, a Igreja nos apresenta uma figura distante e próxima: a italiana da Úmbria Rita de Cássia (1381-1457), mulher de carne ferida, de lágrimas silenciosas e de paciência heroica. Por isso é uma das santas mais queridas do povo cristão.
Rita não é apenas advogada dos casos impossíveis: é a santa da cozinha onde uma mulher chora em silêncio e do quarto onde um casamento esfria; é a confidente das mães que sofrem pelos filhos; das viúvas que se sentem sozinhas; de tantas mulheres boas que não tiveram a vida sonhada e, no entanto, continuaram a buscar a Deus. Porque Rita foi tudo: menina, esposa, mãe, viúva e freira. E em cada um desses estados buscou a mesma coisa: a Deus.
A menina das abelhas
Sendo bebé, enquanto dormia numa cesta no campo, umas abelhas pousaram na sua boquinha deixando mel nos lábios sem lhe fazerem mal. Como se Deus tivesse querido anunciar desde o início que aquela boca não tinha nascido para a amargura, mas para destilar doçura: o mel da paz e da paciência; o das palavras que curam. Não deixa de ser significativo que Rita tenha nascido numa família conhecida precisamente por reconciliar inimigos: os seus pais eram chamados “os pacificadores de Jesus Cristo”.
Há crianças que nascem em lares onde se grita continuamente, se critica ou se fere. Rita nasceu numa casa onde se tentava apagar o ódio. Talvez por isso toda a sua vida consistirá numa longa tarefa de reconciliação.
Que falta faz hoje esse mel! Vivemos tempos de palavras ásperas, de redes sociais transformadas em trincheiras, de famílias onde quase não se fala sem ferir. Mas ainda há mulheres que sustentam o equilíbrio de uma casa com a sua doçura silenciosa. Ninguém as aplaude nem as canoniza, embora se pareçam muito com Santa Rita…
A esposa que não teve um marido fácil
Rita sonhava ser religiosa, mas, obedecendo aos pais, casou-se jovem com Paolo Mancini, homem difícil e violento. E Rita conheceu a decepção: soube o que é amar alguém complicado; viveu discussões, humilhações, medos e noites longas. No entanto, não respondeu com ódio, não deixou que o mal do outro destruísse a própria alma.
Rita foi convertendo pouco a pouco o marido, não com discursos intermináveis, mas com a perseverança humilde de quem reza, espera e ama sem ingenuidade. Após anos de convivência, Paolo mudou profundamente. Não todas as histórias terminam bem na terra. Mas Rita recorda-nos que ninguém está definitivamente perdido enquanto existir alguém que reza e ama de verdade.
Também os esposos devem olhar para ela, porque Rita não é apenas padroeira das mulheres sofredoras; é também espelho incómodo para muitos homens. Diante da brusquidão masculina, ela opõe a fortaleza serena; a fidelidade paciente diante do egoísmo. Diante da violência, essa dignidade silenciosa que acaba por desarmar.
A mãe que quis salvar a alma de seus filhos
Quando assassinaram o marido, a tragédia pareceu devorar tudo. Os filhos quiseram vingar-se: era a lógica daquela Úmbria medieval de bandos e sangues enfrentados. Rita preferiu chorar filhos mortos antes que filhos assassinos: pediu a Deus que não permitisse aos filhos mancharem-se com outro crime. Pouco depois morreram ambos.
Ao mundo moderno isto escandalizará, mas uma mãe cristã sabe que a alma dos filhos vale mais que o sucesso, o orgulho ou mesmo a própria vida temporal. Hoje há mães devastadas porque veem os filhos consumidos pelo ódio, pelas drogas, pela violência, pela superficialidade ou pelo vazio moral. Santa Rita compreende-as: ela quis educar filhos bons, mas saíram-lhe feridos, agressivos, confundidos. Como tantas mães de hoje. No entanto, não deixou de lutar por eles.
A viúva que chamou a uma porta fechada
Depois de perder o marido e os filhos, Rita quis entrar no convent<|eos|>