Grech evita travar o Caminho Sinodal alemão e sugere uma convergência com o Sínodo mundial

Grech evita travar o Caminho Sinodal alemão e sugere uma convergência com o Sínodo mundial
Cardinal Mario Grech talks to reporters during a press conference for the closing of the 16th general assembly of the synod of bishops, at the Vatican's press room in Rome, Saturday, Oct. 28, 2023. (AP Photo/Andrew Medichini)/AJM102/23301716059081//2310282219

O cardeal Mario Grech, secretário-geral do Sínodo dos Bispos, evitou marcar distâncias em relação ao Caminho Sinodal alemão e deixou aberta a possibilidade de uma futura convergência entre o processo impulsionado na Alemanha e o Sínodo mundial sobre a sinodalidade promovido a partir de Roma.

Durante o 104º Congresso Católico Alemão realizado em Würzburg, Grech afirmou que tanto o Caminho Sinodal alemão quanto o processo sinodal universal têm “o mesmo protagonista: o Espírito Santo”, segundo informou Katholisch.de. Questionado sobre uma eventual integração entre ambos os processos, respondeu: “Veremos”.

As declarações surgem enquanto a Igreja na Alemanha continua a aguardar a aprovação definitiva do Vaticano para a criação de um órgão sinodal permanente a nível nacional, uma das principais propostas resultantes do Caminho Sinodal e que tem suscitado objeções doutrinais e canónicas por parte de Roma.

“A sinodalidade não é uma luta de poder”

Nesse contexto, Grech insistiu numa visão da sinodalidade afastada de modelos parlamentares ou de simples dinâmicas de votação. Durante uma mesa-redonda dedicada à sinodalidade como princípio estrutural da Igreja, o cardeal sublinhou que o processo sinodal não pode reduzir-se a lutas internas de poder nem a decisões tomadas apenas por maioria.

“A sinodalidade não deve ser entendida como uma luta de poder nem como uma simples decisão segundo o princípio da maioria”, afirmou. Em seguida, insistiu em que o centro do processo deve ser “a escuta comum do Espírito Santo”.

Para explicar essa ideia, Grech recorreu à imagem da Igreja como uma “sinfonia de comunhão”, na qual o Espírito Santo não cria “uma soma de opiniões”, mas uma verdadeira “harmonia”. Segundo explicou, o sentido mais profundo da deliberação sinodal não consiste simplesmente em votar, mas em permitir que o Espírito atue dentro das relações entre os membros da Igreja.

Na mesma linha, o cardeal recordou que “não existe Igreja universal sem Igrejas locais, nem Igreja local sem Igreja universal”, uma afirmação interpretada por numerosos observadores como uma mensagem indireta contra possíveis desenvolvimentos autónomos do processo alemão.

Grech defende diferentes “ritmos” na aplicação de reformas

Durante o debate também surgiu a questão das diferenças de velocidade entre distintas Igrejas locais na aplicação de reformas sinodais.

Grech reconheceu que existem Igrejas que avançam mais lentamente e outras que precisam de “um impulso”, embora tenha evitado apresentar o caso alemão como um problema particular.

“Lamentavelmente concentramo-nos apenas na Alemanha, mas a Igreja tem uma visão muito mais ampla”, afirmou.

O cardeal acrescentou ainda que o desafio consiste em “caminhar juntos”, respeitando “na medida do possível o ritmo de todos”.

A questão do papel da mulher irrompe no debate

Durante o turno de intervenções, uma estudante de teologia, Finja Miriam Weber, membro da Assembleia Sinodal alemã, questionou a metáfora da “sinfonia” utilizada por Grech e perguntou “que instrumentos pode tocar cada um” dentro da Igreja, acrescentando que, como mulher, sabe que determinados papéis lhe estão vedados apenas por ser mulher.

Grech respondeu afirmando que “Jesus é o compositor” e que “o Espírito Santo é o maestro” dessa sinfonia eclesial. Posteriormente, o cardeal dirigiu-se pessoalmente a Weber e disse-lhe: “Precisamos de pessoas como você”.

Nemet reconhece as “feridas” do Caminho Sinodal alemão

No mesmo encontro participou também o cardeal de Belgrado, Ladislav Nemet, que afirmou que a Igreja alemã é uma “Igreja forte” dentro da Igreja universal.

Ao mesmo tempo, reconheceu que o Caminho Sinodal deixou “feridas” em outras Igrejas locais, especialmente na Europa de Leste, onde algumas conferências episcopais utilizaram o caso alemão como argumento para se distanciarem da sinodalidade.

Nemet pediu ainda para evitar interpretações em termos de “preto e branco” e reclamou que se destaquem mais os aspetos positivos do processo sinodal do que os conflitos públicos entre bispos.

O Vaticano continua sem responder sobre o Conselho Sinodal

O Congresso Católico de Würzburg realizou-se enquanto continua a incerteza sobre o futuro do chamado Conselho Sinodal alemão, concebido como uma estrutura permanente de participação de bispos e leigos no governo da Igreja na Alemanha.

Embora durante o ato tenham sido formuladas perguntas diretas sobre a aprovação vaticana desse organismo, os representantes de Roma evitaram responder de forma concreta.

O presidente da Conferência Episcopal Alemã, monsenhor Heiner Wilmer, presente também no encontro, expressou a sua confiança em que finalmente possa alcançar-se um acordo com o Vaticano.

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