TRIBUNA: Cristo e o oitavo dia

Por: José Gastón

TRIBUNA: Cristo e o oitavo dia

“Eu sou o Alfa e o Ômega, o primeiro e o último, o princípio e o fim.”
— Apocalipse 22,13

“Este é o dia que o Senhor fez: regozijemo-nos e alegremo-nos nele.”
— Salmo 118,24

“Eu sou o Primeiro e o Último, e o Vivente.”
— Apocalipse 1,17-18

O simbolismo das Sagradas Escrituras é insondável, porque Aquele que as inspirou é tão grande que nenhuma definição pode contê-lo; por isso se revela em uma multidão de imagens.

Há, no coração dos Evangelhos —no tempo pascal—, uma imagem eloquente de um Dia que não figura em nenhum calendário. Não porque não exista, mas porque o desborda tudo: é o oitavo dia. Este é, ao mesmo tempo, primeiro e último, origem e consumação; este dia não se deixa encerrar na sucessão ordinária do tempo. É o dia da Ressurreição, o Domingo, no qual todas as coisas começam de novo, se recapitulam.

Se se ler bem, o próprio Evangelho deixa entrever este mistério quando narra que Cristo se apareceu novamente a seus discípulos “oito dias depois” (Jo 20,26). Não se trata de uma indicação acidental, mas de uma chave. Este oitavo dia coincide, com magnífico e superlativo significado, com o primeiro: o dia em que o Senhor ressuscitou. Assim, o tempo já não avança simplesmente em linha reta, mas se recapitula. Volta, mas não se repete; retorna, mas sacralizado.

Em Cristo, o tempo se torna litúrgico. Já não é mera sucessão, mas círculo vivo: cada domingo é o primeiro, porque tudo recomeça; e é o oitavo, porque esse começo não pertence já à ordem antiga. É um início que não nasce do mundo, mas que desce sobre ele. Não é o reinício do mesmo, mas a irrupção do definitivo.

Mons. Juan Straubinger, ao comentar as aparições do Ressuscitado, sublinha que o primeiro dia da semana sinaliza o começo de uma realidade nova. Não se trata simplesmente de que algo volte a se pôr em marcha, mas de que a história é alcançada por uma Vida que não lhe pertence. A Ressurreição não restaura o mundo antigo: o inaugura de novo.

Por isso, a tradição cristã —com profundidade particular em Santo Agostinho— tem visto neste dia o símbolo do descanso eterno. O sábado representava o repouso após a obra; o domingo, em mudança, é o repouso que não terá fim: o dia sem ocaso.

Mas no mais profundo e abissal deste mistério late uma presença; este primeiro e último dia não é simplesmente um tempo: é o próprio Cristo. Ele é quem, ressuscitando, sacraliza o tempo desde dentro. Ele não só inaugura um dia novo: Ele é o Dia. Como proclama o Apocalipse, Ele é o Alfa e a Ômega, o princípio e o fim. Nele, todo começo encontra sua fonte e todo termo seu cumprimento.

Deste modo, a história deixa de ser um fluir disperso para se tornar cristocêntrica: não se dirige para Cristo como para um ponto longínquo, mas acontece já dentro Dele. É certo que há um fim para a história temporal: um termo para o qual tudo se encaminha. Mas esse fim não é incerto nem está aberto a qualquer desenlace, porque a vitória já foi de Cristo. Em outras palavras, a história não avança para uma resolução desconhecida, mas para a manifestação plena de uma vitória que já teve lugar.

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