Organizações de direitos humanos e coletivos de familiares, encabeçados pela Anistia Internacional, pediram à Assembleia Geral da ONU a criação de um “mecanismo extraordinário” diante da crise de desaparecimentos no México, um crime que persiste porque a impunidade o alimenta e porque parte da sociedade aprendeu a conviver com a ausência.
No entanto, há um ângulo que raramente ocupa o centro do debate público: as consequências espirituais de quem faz desaparecer outra pessoa contra sua vontade. A tradição cristã chama certos pecados de “clamores que chegam ao céu”. O primeiro é o sangue de Abel. “Que fizeste? A voz do sangue de teu irmão clama a mim desde a terra”, diz o Gênesis.
Fazer desaparecer alguém não é apenas privá-lo de liberdade, é impedir o luto, roubar o nome, negar o túmulo e condenar uma família a uma espera que não termina. Quem comete ou encobre esse ato não se limita a ferir o próximo; mutila a si mesmo. A consciência, se não se apaga completamente, torna-se um tribunal sem trégua. Caim não encontrou paz no exílio, seu castigo foi vagar marcado. O desaparecedor contemporâneo pode comprar silêncio, proteção ou esquecimento social; não pode comprar a quietude da alma.
Essa ferida interior tem uma lógica precisa. O mal reiterado adormece a sensibilidade moral até que a voz que reprova deixa de ser ouvida. Então o perpetrador não apenas fez desaparecer outro, começou a desaparecer como sujeito ético. Vive do segredo, teme a verdade, encerra-se em uma solidão que nenhuma cumplicidade compensa. Embora evada a justiça humana, permanece prisioneiro do que sabe.
A fé cristã não romantiza essa ruína, o homicídio voluntário e a cooperação nele são pecados graves. Tampouco a reduz a um veredicto de condenação irreversível. Afirma, com a mesma seriedade, que a conversão é possível, mas não barata, exige verdade, reparação e o reconhecimento de que nenhuma estratégia de terror, estatal ou criminal, fica fora do olhar de Deus.
Diante desse abismo, a Igreja católica tem reconhecido, às vezes tarde, às vezes com luzes e sombras históricas, que não pode limitar-se a lamentar. Na América Latina, paróquias e comunidades religiosas têm funcionado como espaços de acolhida quando o Estado falhava. Na Colômbia, o episcopado comprometeu-se a colaborar na busca de restos mortais, precisamente porque muitas paróquias administram cemitérios e conhecem territórios onde o conflito semeou covas. No México, a Conferência do Episcopado convocou as igrejas a abrir suas portas às famílias buscadoras, acolhê-las nas celebrações, nomear os desaparecidos na oração, facilitar “caixas de paz” para informações anônimas e acompanhá-las de forma permanente. Congregações religiosas adaptaram seu carisma e converteram casas de comunidade em albergues para quem percorre o país escavando a terra. Em dioceses do norte, párocos fizeram da escuta um ministério concreto, não substituem a promotoria, mas impedem que a dor fique órfã de comunidade.
Há aqui um núcleo pastoral que merece ser sublinhado. Nomear o desaparecido na liturgia não é um gesto piedoso menor, restitui, ao menos simbolicamente, a dignidade que o crime quis apagar. Receber uma mãe buscadora no átrio é afirmar que a Igreja não teme o grito de quem pede verdade. Oferecer um espaço seguro para uma pista anônima é apostar, com realismo e prudência, que a consciência de algum testemunho ainda não se extinguiu completamente. O papa Francisco formulou com uma frase que não caduca. O desaparecimento gera “a presença permanente de uma ausência”. E acrescentou outra, igualmente severa, uma sociedade não pode sorrir para o futuro tendo seus mortos escondidos.
Isso não absolve as omissões eclesiais do passado nem converte cada paróquia em um tribunal. Converte, sim, o templo no que nunca deveria ter deixado de ser, casa dos feridos. O desafio atual não é apenas denunciar o desaparecimento como crime de lesa-humanidade, mas sustentar uma presença que não se fatigue quando as câmeras se apagam.
Por isso, exige-se propor uma nova pastoral da dor, uma que console sem anestesiar, que acolha sem instrumentalizar e que reivindique a memória de milhares que não estão. Consolar é acompanhar a espera sem vender milagres baratos. Acolher é abrir a porta, a cadeira e o ouvido. Reivindicar a memória é dizer os nomes, exigir a busca, defender o direito ao sepultamento e não permitir que o esquecimento se disfarce de pacificação porque o clamor de Abel continua subindo. A pergunta não é se Deus o ouve. A pergunta é se nós, ainda, estamos dispostos a responder porque os desaparecimentos forçados têm profundas consequências espirituais.