O arcebispo de São Francisco, Salvatore Cordileone, considera que as restrições impostas pelo motu proprio Traditionis custodes não constituem uma política sustentável a longo prazo e alerta que poderiam levar alguns católicos a comunidades que não estão em plena comunhão com Roma.
As declarações foram feitas durante uma entrevista concedida a Raymond Arroyo no programa The World Over Live, depois de o cardeal Arthur Roche, prefeito do Dicastério para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, ter assegurado em uma entrevista ao The Tablet que Leão XIV não modificará Traditionis custodes nem restaurará o regime estabelecido por Bento XVI com Summorum Pontificum.
Risco para a unidade
Cordileone evitou especular sobre as intenções do Papa, embora tenha afirmado que a ênfase que Leão XIV tem colocado na unidade deveria refletir-se também na atenção pastoral aos fiéis vinculados à liturgia tradicional.
«Não sei até que ponto conhece o pensamento do Santo Padre, mas creio que uma coisa está clara para todos: o Santo Padre quer reunir a todos. Tudo gira em torno da unidade», afirmou.
Em seguida expressou sua principal preocupação sobre a manutenção das atuais restrições.
«Minha preocupação é que, se essas restrições permanecerem, as pessoas sentirão que não têm outra opção senão buscar alimento espiritual na forma mais tradicional como a Igreja celebra o culto».
O arcebispo acrescentou que a questão da unidade deve ser contemplada sob ambas as perspectivas.
«Creio que existe preocupação com a unidade em ambos os lados. Uma dessas preocupações é que, se as restrições permanecerem, as pessoas acabarão recorrendo a grupos que não estão em plena comunhão com a Sé de Roma».
Ao mesmo tempo, precisou que um acesso mais amplo à liturgia tradicional deve vir acompanhado da garantia de que quem participa dela permaneça plenamente unido à Igreja e aceite os ensinamentos do Concílio Vaticano II. Segundo explicou, essa tem sido, em linhas gerais, a experiência da Igreja nos Estados Unidos.
«Os jovens amam a tradição»
Cordileone foi além ao ser perguntado se Traditionis custodes constitui uma política viável a longo prazo.
«Para ser sincero, não creio que seja realista», respondeu.
O arcebispo fundamentou essa avaliação no crescente interesse das novas gerações pela tradição litúrgica da Igreja.
«Vemos a geração mais jovem. Todos amam a tradição. Amam a forma mais clássica como a Igreja celebra o culto».
Segundo explicou, esse interesse não se limita à celebração da Missa tradicional, mas alcança também celebrações do rito reformado realizadas com maior solenidade, música sacra e o sacerdote voltado ad orientem.
«Mesmo a forma atual da Missa, celebrada de maneira mais tradicional, com o sacerdote ad orientem, música sacra, grande solenidade e reverência, é o que desejam. Buscam essa profunda tradição».
Cordileone concluiu assegurando que se trata de um fenômeno que, em sua opinião, continuará crescendo.
«Isso é imparável. Tem atraído muitos jovens e continuará atraindo-os».
A resposta a Roche
As declarações do arcebispo de São Francisco respondem às afirmações feitas esta semana pelo cardeal Arthur Roche, que descartou que Leão XIV tenha intenção de reverter as restrições introduzidas pelo papa Francisco em Traditionis custodes ou de voltar ao regime de Summorum Pontificum.
Roche sustentou ainda que muitos bispos já concederam autorizações dentro do marco previsto pela normativa vigente e questionou as denúncias de perseguição formuladas por alguns grupos vinculados à liturgia tradicional. Também criticou o tom empregado por quem dirige ataques públicos contra responsáveis da Igreja.