Na solenidade do Sagrado Coração de Jesus, dia em que a Igreja celebra tradicionalmente a Jornada pela Santificação Sacerdotal, o papa Leão XIV dirigiu uma mensagem aos sacerdotes de todo o mundo, na qual os exorta a redescobrir a centralidade de Cristo em seu ministério e a viver a santidade sacerdotal a partir da união com o Coração de Jesus.
A mensagem, divulgada nesta sexta-feira pela Santa Sé, constitui uma profunda reflexão sobre a identidade sacerdotal em um momento marcado pela secularização, pelas divisões internas e pelo cansaço pastoral que afeta numerosos presbíteros.
Deixamos a seguir a mensagem completa:
Caríssimos irmãos sacerdotes:
No dia em que a Igreja contempla o Coração traspassado de seu Senhor, do qual brota uma fonte inesgotável de paz e unidade para todo o gênero humano, dirijo sobretudo a mim mesmo e a todos vocês as palavras que Deus dirigiu ao povo de Israel: «Sede santos, porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo» (Lv 19,2; cf. 1 P 1,16). Este chamado divino atravessa os séculos, ressoando também hoje com força para todo crente e, com exigência particular, para nós sacerdotes. A santidade não é uma opção entre tantas nem um ideal abstrato; diz respeito à própria identidade de cada pessoa que deseja participar da vida do Ressuscitado.
Santidade e participação no mistério de Cristo
Deus nos convida a participar de sua mesma santidade. Quando nos chama a ser santos porque Ele é santo, indica-nos o caminho a seguir: deixar-nos modelar segundo seu Coração. E para nós, caríssimos irmãos, este chamado é particularmente radical. O Senhor prometeu: «Dar-lhes-ei pastores segundo o meu coração, que os apascentarão com ciência e prudência» (Jr 3,15). A santidade que nos é pedida é um abandono confiante: deixar-nos transformar por seu Santo Espírito. No entanto, precisamente aqui surge a grande paradoxo de nossa vida sacerdotal: somos chamados a participar da mesma santidade de Deus, mas levamos este tesouro em vasos de barro (cf. 2 Co 4,7), somos limitados e imperfeitos, muitas vezes marcados por fraquezas e cansaços, às vezes por feridas. Como pode um coração humano, tão vulnerável, responder a um chamado tão alto? O sacerdote vive esta tensão, mas sabe onde encontrar paz: no lado aberto do Senhor Jesus.
Um caminho de união
A união de nosso coração com o Coração de Cristo não é uma experiência reservada a alguns eleitos, mas um caminho sacramental, eucarístico, que se realiza no cotidiano. Caríssimos irmãos, na Ordenação fomos configurados com Cristo, mas é necessário reavivar sempre em nós o dom da graça por meio da celebração cotidiana da Eucaristia, da oração, da meditação da Palavra de Deus e do serviço humilde aos irmãos e irmãs. Permanecemos unidos a Cristo em tudo: no que fazemos e no que nos acontece diariamente. A santidade, então, em vão buscada com esforços isolados, revelar-se-á pelo que é: correspondência à graça que nos precede, nos sustenta e nos transfigura. Não existem, de fato, compartimentos estanques em nossa humanidade. A oração, o ministério, as relações, o cansaço, as alegrias e os fracassos, inclusive o tempo aparentemente perdido ou o amor que parece desperdiçado, tudo se torna um lugar privilegiado da revelação de Deus e de seu amor infinito.
O sacerdote que tem um coração íntegro, simples e puro é contemplativo na ação, misericordioso, fiel na prova e alegre na entrega de si. O mundo tem grande necessidade de pastores que não ofereçam apenas palavras ou programas, mas o testemunho vivo de um coração reconciliado, difundindo o bom odor da santidade de Cristo. Uma vida sacerdotal sólida e configurada com o Coração de Jesus é sinal crível de unidade, de paz e de misericórdia. Assim, em um tempo marcado por divisões e medos, podemos ser construtores de paz, testemunhas da ternura do Bom Pastor, que sabe reunir o que está extraviado e curar o que está ferido, e nosso zelo não é agitação, mas o transbordamento de um amor que «é êxtase, é saída, é doação, é encontro» (Francisco, Carta enc. Dilexit nos, 28).
O Coração de Cristo é o coração dos santos
A resposta à vocação de ser santos não está tanto no esforço de ascese e perfeição, que é necessário, mas na adesão confiante ao amor revelado no Coração traspassado de Jesus. O apóstolo João nos faz contemplar o lado aberto do Crucificado (cf. Jn 19,34), onde Deus nos mostra definitivamente como Ele é santo: não na distância inacessível de uma perfeição separada, mas em um amor que se entrega até se deixar ferir e que pode, portanto, ser manancial de misericórdia e de vida. O Sagrado Coração de Jesus é a imagem por excelência do amor de Deus: um amor onipotente precisamente porque é capaz de se tornar vulnerável, de transformar a dor em graça, o sofrimento em esperança.
Esse Coração bendito, portanto, é o “lugar” em que a santidade se mostra como proximidade e ternura. A santidade do sacerdote então pode manifestar-se na proximidade humilde e corajosa, no ser de todos e para todos, mantendo aberta a porta do redil para que muitos possam entrar e encontrar alimento e descanso (cf. Jn 10,9). Por isso, pede-se de nós uma relação com Deus que não nos afaste dos homens, mas que nos aproxime de todos, que forje corações pacientes, ternos, capazes de proximidade, de compaixão e de escuta. Assim, por meio da união de nosso coração imperfeito com o Coração traspassado de Jesus, realiza-se nosso caminho de santidade. Já não vivemos nós, mas Cristo vive em nós (cf. Ga 2,20). Tal santidade não se vive na solidão. Cuidem da fraternidade sacerdotal: busquem-se, escutem-se, sustentem-se. O sacerdote que se isola, lentamente se apaga; o sacerdote que caminha com os irmãos cresce. Recorda-nos santo Agostinho: «Como evitaremos estar nas trevas? Amando os irmãos. Em que se prova que amamos a fraternidade? Em que não rasgamos a unidade, em que mantemos a caridade» (Homilia sobre a Segunda Carta de São João aos Partos II, 3).
Caríssimos sacerdotes, renovem cada dia seu “eis-me aqui” diante do Coração traspassado de Cristo. Entreguem-se totalmente a Ele, para que possam amar seu povo com o mesmo amor com que Ele o ama. E lembrem com alegria, como gostava de repetir o santo Cura d’Ars, que «o sacerdócio é o amor do coração de Jesus» (cf. Bento XVI, Carta para a convocação do Ano Sacerdotal [16 junho 2009]: AAS 101 [2009], 569). Este amor é penhor e garantia de que nada de nós se perderá, se tudo o que é nosso o entregarmos e oferecermos. Encomendo todos e cada um à Virgem Maria, Mãe dos sacerdotes. Ela, que conservou em seu coração o mistério do Filho, nos ensine a conservar e a fazer palpitar em nós o Coração de Cristo, Salvador do mundo.
12 de junho de 2026, Solenidade do Sagrado Coração de Jesus.
LEÃO PP. XIV