Sete séculos cantando ao Santíssimo: o legado eucarístico de Santo Tomás de Aquino

Sete séculos cantando ao Santíssimo: o legado eucarístico de Santo Tomás de Aquino

A solenidade do Corpus Christi ocupa um lugar singular no calendário litúrgico da Igreja. Nascida no século XIII para prestar uma homenagem particular ao Santíssimo Sacramento, esta celebração não só deu origem a uma das festividades mais importantes do ano litúrgico, como também a alguns dos textos mais profundos de toda a tradição católica. A pedido do papa Urbano IV, santo Tomás de Aquino compôs para esta festa uma série de hinos que, mais de sete séculos depois, continuam a ressoar na liturgia e na adoração eucarística da Igreja.

Contudo, a história destes hinos começa antes do Aquinate. A solenidade do Corpus Christi já tinha começado a tomar forma na diocese de Liège graças ao impulso de santa Juliana de Mont-Cornillon, cujas visões e esforços contribuíram decisivamente para a criação de uma festa dedicada especificamente a honrar a presença real de Cristo na Eucaristia. Ali já existia um ofício litúrgico próprio para a celebração, mas seria a obra de santo Tomás a que acabaria por se tornar a expressão universal da fé eucarística da Igreja latina.

Uma festa nascida para honrar o Santíssimo Sacramento

A presença real de Cristo na Eucaristia tinha sido professada pela Igreja desde os tempos apostólicos. No entanto, durante os séculos XII e XIII a devoção eucarística adquiriu um impulso extraordinário. As procissões com o Santíssimo, a adoração fora da missa e a reflexão teológica sobre o sacramento ocuparam um lugar cada vez mais importante na vida da cristandade.

Neste contexto surgiu a iniciativa de estabelecer uma festa especificamente dedicada ao Corpo e ao Sangue de Cristo. Em 1246, o bispo Roberto de Thourotte instituiu a celebração na diocese de Liège, onde santa Juliana tinha trabalhado incansavelmente para a promover.

Anos depois, o milagre eucarístico de Bolsena, ocorrido em 1263, reforçou ainda mais a devoção ao Santíssimo Sacramento. No ano seguinte, o papa Urbano IV promulgou a bula Transiturus de hoc mundo, mediante a qual estendeu a solenidade do Corpus Christi a toda a Igreja.

Para dotar a nova festa de um conjunto completo de textos litúrgicos, o Pontífice recorreu ao maior teólogo do seu tempo: santo Tomás de Aquino.

A encomenda ao Doutor Angélico

A posteridade recorda santo Tomás principalmente pela Suma Teológica e pela sua contribuição decisiva para a filosofia e para a teologia católicas. Leão XIII descreveu-o como «o baluarte e a glória especial da fé católica», enquanto a tradição o honrou com títulos como Doutor Angélico e Doutor Universal.

Contudo, a inteligência do Aquinate não se limitou às salas de aula universitárias nem às grandes disputas teológicas. Quando Urbano IV lhe encomendou os textos para a nova solenidade, Tomás conseguiu algo extraordinário: transformar a doutrina eucarística da Igreja em poesia litúrgica.

Da sua pena nasceram o Pange Lingua, o Lauda Sion, o Sacris Solemniis, o Verbum Supernum e o Adoro te devote. Os quatro primeiros foram compostos para a liturgia de Corpus Christi; o último, provavelmente destinado à oração pessoal, acabaria por se tornar uma das orações eucarísticas mais conhecidas da tradição católica.

A acolhida destes textos foi tão ampla que acabaram por substituir progressivamente os ofícios locais anteriores. Embora algumas igrejas da região de Liège tenham conservado durante séculos elementos do ofício primitivo associado a santa Juliana, os hinos do Aquinate acabaram por se tornar a voz oficial da devoção eucarística do Ocidente.

O Pange Lingua: uma síntese da fé eucarística

Entre todos os hinos compostos para Corpus Christi, o Pange Lingua ocupa um lugar privilegiado.

O seu título provém das palavras iniciais do texto: Pange lingua gloriosi Corporis mysterium («Canta, língua, o glorioso mistério do Corpo»). Através de seis estrofes, santo Tomás percorre toda a economia da salvação: a Encarnação do Verbo, a Redenção, a Última Ceia e a instituição da Eucaristia.

O hino contempla Cristo como Rei e Salvador, nascido da Virgem para resgatar o mundo mediante o sacrifício da Cruz. A Eucaristia aparece assim como o culminar da obra redentora e como o legado que Cristo deixa à sua Igreja antes da sua Paixão.

A quarta estrofe contém uma das formulações mais célebres da teologia sacramental:

«O Verbo feito carne converte com a sua palavra o pão verdadeiro na sua carne, e o vinho no sangue de Cristo».

Em poucas linhas, o Aquinate expressa a doutrina da transubstanciação: sob as aparências do pão e do vinho encontra-se verdadeira, real e substancialmente presente Jesus Cristo.

«A fé supra a incapacidade dos sentidos»

O verso mais conhecido do Pange Lingua resume uma das intuições fundamentais de santo Tomás:

Praestet fides supplementum sensuum defectui.

«A fé supra a incapacidade dos sentidos».

Os sentidos percebem apenas as aparências externas do pão e do vinho. Não podem captar por si mesmos a mudança que se produz durante a consagração. Por isso, o crente apoia-se numa certeza superior: a palavra de Cristo.

O mesmo ensino aparece desenvolvido com especial beleza no Adoro te devote:

«A vista, o tato e o paladar enganam-se acerca de Ti; só o ouvido crê com segurança».

A afirmação não supõe uma oposição entre razão e fé. Muito pelo contrário. Santo Tomás sustenta que a razão ajuda a compreender e aprofundar nos mistérios revelados, mas reconhece também que a fé permite aderir a realidades que superam as capacidades naturais do entendimento humano.

A Eucaristia constitui precisamente um desses mistérios. O cristão crê porque confia na palavra d’Aquele que disse: «Isto é o meu corpo» e «Este é o meu sangue».

O Tantum Ergo e a adoração eucarística

As duas últimas estrofes do Pange Lingua adquiriram com o tempo uma relevância tão grande que começaram a ser utilizadas como um hino independente sob o nome de Tantum Ergo.

Durante séculos acompanharam as bênçãos com o Santíssimo Sacramento, as exposições eucarísticas e numerosos atos de adoração.

Nelas encontra-se uma das expressões mais conhecidas da espiritualidade eucarística católica:

«Veneremos, pois, inclinados tão grande Sacramento; e a antiga figura ceda o lugar ao novo rito».

A referência contrapõe as figuras e sacrifícios do Antigo Testamento ao seu cumprimento definitivo em Cristo. O que antes era anunciado mediante sinais encontra a sua plenitude na presença sacramental do Senhor.

Não é estranho que estas estrofes tenham acompanhado durante gerações as procissões de Corpus Christi, a adoração eucarística e a liturgia da Quinta-feira Santa. Nelas convergem a profundidade doutrinal e a beleza poética que caracterizam toda a obra do Aquinate.

A teologia convertida em oração

A Igreja já celebrava Corpus Christi antes de santo Tomás de Aquino. Já existiam hinos, ofícios e expressões de devoção ao Santíssimo Sacramento. No entanto, foi o Aquinate quem deu à solenidade a linguagem litúrgica com a qual a Igreja a continua a celebrar hoje.

Os seus hinos não são apenas uma joia literária do século XIII. São uma síntese da fé católica sobre a Eucaristia, uma catequese cantada que atravessou os séculos sem perder atualidade. Neles, a precisão doutrinal do teólogo une-se à contemplação do místico e à beleza do poeta.

Por isso continuam a ocupar um lugar central na vida litúrgica da Igreja. Porque nos seus versos não se encontra apenas uma explicação do mistério eucarístico, mas também um convite a adorá-lo.

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