A primeira encíclica de Leão XIV chega a Espanha com um debate sobre IA, trabalho e dignidade humana

A primeira encíclica de Leão XIV chega a Espanha com um debate sobre IA, trabalho e dignidade humana

A Fundação Pablo VI acolheu esta segunda-feira a apresentação em Espanha de Magnifica humanitas, a primeira encíclica do papa Leão XIV, num ato que reuniu representantes da Igreja, do mundo empresarial, do sindicalismo e do âmbito tecnológico para refletir sobre os desafios que a inteligência artificial coloca.

O encontro contou com a participação do presidente da Conferência Episcopal Espanhola, Luis Argüello; do presidente da CEOE, Antonio Garamendi; do secretário-geral da Comisiones Obreras, Unai Sordo; e da ex-secretária de Estado de Digitalização e Inteligência Artificial, Carme Artigas. Todos eles analisaram as implicações éticas, sociais e económicas de uma tecnologia que está a transformar profundamente a sociedade.

A doutrina social da Igreja perante a revolução tecnológica

Grande parte do debate girou em torno das reflexões apresentadas por Luis Argüello, que apresentou a encíclica como um novo impulso à doutrina social da Igreja e uma resposta aos desafios que a chamada quarta revolução industrial coloca.

O presidente da Conferência Episcopal destacou que o Evangelho possui uma dimensão social e sublinhou que Magnifica humanitas aborda questões fundamentais como a dignidade humana, o bem comum, a justiça social e o princípio da subsidiariedade. No seu entender, a encíclica não se limita a oferecer uma reflexão sobre a inteligência artificial, mas propõe um quadro ético a partir do qual enfrentar as mudanças da nossa época.

Argüello alertou ainda para o aparecimento de “novas escravidões” no contexto atual e defendeu a necessidade de formar a consciência para responder adequadamente aos desafios tecnológicos. Em várias ocasiões insistiu em que a dignidade humana constitui o fundamento de toda a doutrina social da Igreja e recordou que a vida é sagrada desde a conceção.

Para o arcebispo de Valladolid, o documento de Leão XIV convida a erguer o olhar para além da imediatez e a construir um horizonte capaz de orientar o desenvolvimento tecnológico ao serviço da pessoa.

Uma inteligência artificial ao serviço do ser humano

A ex-secretária de Estado de Digitalização e Inteligência Artificial, Carme Artigas, qualificou a encíclica como uma intervenção corajosa e oportuna num momento decisivo para o desenvolvimento destas tecnologias.

Artigas defendeu a possibilidade de regular a inteligência artificial e rejeitou a ideia de que a sua evolução seja um processo inevitável ao qual a sociedade deva adaptar-se passivamente. Segundo explicou, o verdadeiro desafio consiste em decidir que uso se dará a estas ferramentas e garantir que permaneçam ao serviço das pessoas.

A ex-responsável governamental alertou também para o facto de a automatização provocar transformações importantes no emprego, especialmente em tarefas administrativas e burocráticas, embora tenha destacado igualmente as oportunidades que a inteligência artificial oferece para a investigação científica, a medicina e a competitividade empresarial.

Emprego, diálogo social e mudanças de época

Antonio Garamendi e Unai Sordo coincidiram ao assinalar que a inteligência artificial constitui um dos maiores desafios económicos e laborais das próximas décadas.

O presidente da CEOE defendeu a importância do diálogo social para enfrentar estas mudanças e alertou para o risco de as pessoas ficarem reduzidas a simples dados dentro dos novos modelos económicos. Além disso, recordou que a encíclica não propõe uma condenação da tecnologia, mas uma reflexão sobre a sua utilização responsável.

Por sua vez, o secretário-geral da Comisiones Obreras definiu a atual transformação tecnológica como um “desafio de época” e assinalou que, como ocorreu em revoluções industriais anteriores, a inteligência artificial trará consigo processos simultâneos de destruição, transformação e criação de emprego.

Sordo defendeu a necessidade de acompanhar estas mudanças através de formação, regulação e mecanismos que permitam uma transição justa para os trabalhadores afetados.

Uma reflexão para o futuro

A apresentação de Magnifica humanitas abriu em Espanha o debate sobre uma das questões que marcarão as próximas décadas. A primeira encíclica de Leão XIV situa a inteligência artificial dentro de uma reflexão mais ampla sobre a dignidade humana, o trabalho, a justiça social e o bem comum.

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