O papa Leão XIV assinará provavelmente no próximo 15 de maio sua primeira encíclica, um documento de caráter social que, segundo fontes vaticanas citadas pela agência alemã KNA, abordará alguns dos principais desafios contemporâneos, entre eles a inteligência artificial, a paz e a crise do direito internacional.
O texto, que circula sob o título provisório Magnifica humanitas, marcará um passo decisivo na configuração do magistério do novo Pontífice, ampliando um trabalho doutrinal sobre a inteligência artificial que já estava em marcha desde o início do ano.
Da inteligência artificial a uma encíclica social de amplo alcance
No início de fevereiro, diversas informações apontavam para que o Vaticano preparasse um documento de alto nível centrado especificamente na inteligência artificial, com um enfoque ético e antropológico. O próprio Leão XIV havia alertado sobre os riscos de uma tecnologia descontrolada, insistindo na necessidade de preservar a dignidade humana frente a possíveis derivas que diluam a fronteira entre o humano e o artificial.
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A futura encíclica não se limitará à questão tecnológica, mas a situará dentro de uma reflexão global sobre os grandes desafios do século XXI, em linha com a tradição da doutrina social da Igreja.
Um gesto com forte carga histórica
A escolha do 15 de maio para a assinatura do documento não é casual. No Vaticano, interpreta-se como uma referência direta a Rerum novarum, a encíclica de Leão XIII publicada nesse mesmo dia em 1891, que marcou o início da doutrina social moderna da Igreja.
Desde então, outros marcos do magistério social reforçaram essa tradição: Quadragesimo anno (1931), que desenvolveu o princípio de subsidiariedade; Mater et magistra (1961), centrada na questão social no mundo industrial; e Centesimus annus (1991), onde são João Paulo II ofereceu uma avaliação decisiva do papel da economia de mercado após a queda do comunismo.
Novos desafios para uma nova etapa
Nesse contexto, a encíclica de Leão XIV perfila-se como uma atualização dessa tradição ante um cenário global marcado por profundas transformações. A inteligência artificial aparece como um dos eixos principais, mas vinculada a questões mais amplas como a estabilidade internacional, o enfraquecimento dos marcos jurídicos globais e os riscos de desumanização nas sociedades contemporâneas.
O enfoque que já se havia esboçado em documentos doutrinais recentes —onde se sublinha que a tecnologia deve servir à pessoa e não substituí-la— aponta agora para adquirir rango magisterial, oferecendo critérios mais claros para a ação pastoral e social da Igreja.
Um texto chamado a marcar o pontificado
Por enquanto, não há confirmação oficial sobre o conteúdo definitivo, mas, se confirmados esses elementos, o Papa não só estaria abordando os desafios tecnológicos, mas situando-os dentro de uma visão mais ampla da ordem moral e social, com o olhar posto nas tensões próprias do século XXI.